Paulo de Freitas Mercadante (Carangola, 23 de junho de 1923 – 20 de maio de 2013) foi um filósofo, jurista, sociólogo, historiador e crítico literário brasileiro, conhecido sobretudo pelo livro A Consciência Conservadora no Brasil: contribuição ao estudo da formação brasileira, considerado um clássico da historiografia nacional.
No livro, o autor investiga as origens, a formação e as particularidades do conservadorismo brasileiro, cujo traço distintivo seria o seu caráter conciliatório.
Juntamente a Miguel Reale, a Djacir Menezes e a Antonio Paim, integrou a chamada Escola Culturalista, que encontrou sua materialização no Instituto Brasileiro de Filosofia.
Biografia Oriundo de uma família de humanistas italianos, da qual também proveio o músico Saverio Mercadante, concluiu em sua cidade natal o curso ginasiano, durante o qual iniciou suas atividades jornalísticas com o semanário O Ariel, fundado e mantido em colaboração com seus colegas de classe. Terminado o serviço militar, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde matriculou-se na Faculdade Nacional de Direito. Ao longo de sua vida acadêmica, associou-se ao Partido Comunista Brasileiro e participou intensamente do movimento estudantil, tendo chegado a presidir o Cento Acadêmico Luís Carpenter.
Diplomado em ciências jurídicas e licenciado em história e geografia, dedicou-se ao magistério até 1951, lecionando diversas disciplinas, em especial filosofia e latim. À procura de novos rumos profissionais, passou a exercer a advocacia nos ramos civil e comercial e a escrever a vários jornais, entre os quais o Correio da Manhã, O Globo e a Folha de S.Paulo.
Nos anos sessenta, organizou, revisou e publicou, junto a Antonio Paim e em edição oficial do Ministério da Educação e do Instituto Nacional do Livro, os Estudos de Filosofia, de Tobias Barreto. É nesta década em que publica seu primeiro e mais célebre livro, A Consciência Conservadora no Brasil: contribuição ao estudo da formação brasileira, que Antonio Olinto recebeu como ''um aferimento denso e tranquilo da situação brasileira de ontem e, até certo ponto, de hoje”. A tese fundamental do livro é a de que o conservadorismo brasileiro, longe de uma tradição intelectual, seria, na verdade, uma atitude pragmatista frente a circunstâncias históricas variáveis, que exigiriam a harmonização de fenômenos aparentemente contraditórios.
Visando ao aperfeiçoamento de sua formação científica, empenhou-se, da década de 60 em diante, em estudar as ciências naturais, com enfoque na física, concentrando-se sobretudo na reflexão em torno do princípio da incerteza de Heisenberg, que norteará a formulação da problemática de sua obra subsequente.
No início dos anos setenta, reassume o curso de suas pesquisas - iniciadas na adolescência - sobre a Mata Mineira, o que resultará no livro Os Sertões do Leste, uma tentativa de traçar o perfil histórico-cultural da região. Dois anos após a publicação de seu terceiro livro, Mercadante, então correspondente internacional em Portugal, publicará Portugal: Ano Zero, um relato jornalístico da Revolução dos Cravos.
Na década de noventa, atuou como organizador do livro A Constituição de 88: o Avanço do Retrocesso, coleção de ensaios críticos à Carta Magna, escritos por intelectuais conservadores e liberais, como José Guilherme Merquior e Ives Gandra Martins. Em 1993, Mercadante voltou-se para a crítica literária com o ensaio Graciliano Ramos: o Manifesto do Trágico, em que, a partir dos diários deixados pelo escritor alagoano, tentou estabelecer paralelos entre a biografia e a obra do autor de Vidas Secas, enquadrando-o numa análise conjuntural da influência comunista sobre a cultura brasileira.
A criação intelectual de Mercadante atingirá um ponto alto com o livro A Coerência das Incertezas, no qual, de uma perspectiva mais filosófica e pessoal, aprofunda e refina teses anteriormente desenvolvidas, numa tentativa de apreender o fenômeno histórico luso-brasileiro transposto ao seu plano simbólico.
Foi membro-fundador da Academia Brasileira de Filosofia e colaborador da Revista Brasileira de Filosofia.
Influência e recepção Não obstante pouco estudada no mundo acadêmico, a obra de Mercadante, principalmente o ensaio A Consciência Conservadora no Brasil, dito ''modelar em seu gênero'' por Luís Washington Vita, influenciou alguns dos mais importantes intelectuais brasileiros dos fins do século XX. O economista Roberto Campos afirmou que as lições do autor abriram-lhe ''novos caminhos'', e o escritor Olavo de Carvalho, admirador da obra do sociólogo mineiro, admitiu ter Mercadante moldado sua trajetória pessoal.
O acadêmico Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves argumenta, no entanto, que a obra de Mercadante carece de ''rigor científico'', e que por esta razão se trata, antes, de uma ''elaborada construção ideológica que até busca o argumento histórico, mas que se confrontada com a realidade se mostra sem respaldo histórico'', pois fracassa em explicar as contradições sociais imanentes da história brasileira.
Obras
A Consciência Conservadora no Brasil: contribuição ao estudo da formação brasileira. Rio de Janeiro: Saga. 1965. Tobias Barreto na Cultura Brasileira, uma reavaliação (em colaboração com Antônio Paim). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. 1972. Os Sertões do Leste, Estudo de uma região: A Mata Mineira. Rio de Janeiro: Zahar. 1973. Portugal, Ano Zero. Rio de Janeiro: Arte-Nova. 1975. Militares e Civis: a Ética e o Compromisso. Rio de Janeiro: Zahar. 1977. Crônica de uma Comunidade Cafeeira, Carangola: O Vale e o Rio. Belo Horizonte: Itatiaia. 1990. A Constituição de 1988, o Avanço do Retrocesso (como coordenador). Rio de Janeiro: Fundo. 1990. Graciliano Ramos, o Manifesto do Trágico. Rio de Janeiro: Topbooks. 1993. A Coerência das Incertezas: Símbolos e Mitos na Fenomenologia Histórica Luso-Brasileira. São Paulo: É Realizações. 2001. Da Aventura Pioneira ao Destemor à Travessia. Belo Horizonte: Itatiaia. 2003. Das Casernas à Redação: A Era de Turbulências. Rio de Janeiro: UniverCidade. 2004. Tobias Barreto: O Feiticeiro da Tribo. Rio de Janeiro: UniverCidade. 2006.
Ver também
Fenomenologia Oliveira Lima José Bonifácio de Andrada e Silva
Referências
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