A Ditadura do Proletariado (em alemão: Die Diktatur des Proletariats) é um panfleto de autoria do teórico marxista ortodoxo Karl Kautsky em 1918. Nesse trabalho, Kautsky acusa os bolcheviques de terem distorcido as palavras de Marx quando esse falou a respeito do conceito de "ditadura do proletariado"; de ignorarem o caráter eminentemente democrático do socialismo; e de instalarem um regime ditatorial na Rússia contra o próprio proletariado. Segundo o autor, a concepção bolchevique de "ditadura" não "promete bons resultados para o proletariado, seja do ponto de vista teórico, seja do ponto de vista das condições específicas da Rússia."
Essa não havia sido a primeira vez que Lênin e Kautsky tinham entrado em conflito. No seu livro de 1914 intitulado Imperialismo: Fase Superior do Capitalismo, o socialista russo apontou seus canhões contra Kautsky e disse que a sua hipótese de que seria possível, no futuro, as potências imperialistas se unirem em um novo estágio do imperialismo denominado "ultra-imperialismo" constituía uma ruptura com o pensamento marxista. Contexto esquerda|miniaturadaimagem|300x300px|Rascunho de Kautsky de Jan Veth () A Ditadura do Proletariado não foi a primeira vez que Kautsky escreveu acerca dos acontecimentos na Rússia. Escrevendo em abril de 1917, esse autor havia caracterizado a Revolução de Fevereiro como uma revolução burguesa que daria vazão para o desenvolvimento do proletariado na Rússia e permitiria que esse eventualmente chegasse ao poder de forma democrática. Esse processo, para Kautsky, deveria ser gradual, mas o fato da revolução burguesa na Rússia ter sido tão adiada ao ponto de acontecer em um país com um proletariado já relativamente formado, poderia, segundo ele, adiantar a transição para uma sociedade socialista. Segundo o historiador e biógrafo de Kautsky Gary Steenson, essa posição do marxista tcheco não era tão distante da posição dos bolcheviques, que também acreditavam que o desenvolvimento do capitalismo na Rússia poderia ser "acelerado" ao ponto de provocar uma ruptura não muito tempo depois da queda da autocracia.
Quando os bolcheviques, liderados por Lênin, chegaram ao poder com a Revolução de Outubro, Kautsky escreveu um comentário a respeito no Neue Zeit intitulado "Die Erhehung der Bolschewiki" ( "A Ascensão dos Bolcheviques") em que analisava as circunstâncias que levaram à Revolução e alertava para os perigos de uma ditadura do proletariado em um país tão atrasado, porém sem condenar explicitamente o bolchevismo. Nesse primeiro texto, repetindo a ideia de que a Rússia não tinha um proletariado suficientemente desenvolvido para tomar o poder político, Kautsky diz que a instauração de uma Assembleia Constituinte - então uma promessa dos bolcheviques - deveria ser o primeiro passo para que se evitasse uma guerra civil generalizada motivada, principalmente, pelas contradições entre os campos e as cidades.
A ruptura definitiva de Kautsky com os bolcheviques viria quando esses dissolveram, em janeiro de 1918, a Assembleia Constituinte eleita, após essa confirmar que os bolcheviques tinham ficado na minoria; um golpe de Estado que significou, para esse autor, uma ruptura definitiva tanto com a democracia quanto com o socialismo. Quando A Ditadura do Proletariado foi escrita em meados de 1918 - Kautsky afirma estar escrevendo em agosto -, já fazia mais ou menos oito meses desde a dissolução da Assembleia Constituinte, dois meses da expulsão dos mencheviques e socialistas-revolucionários de esquerda (SRs) do Comitê Executivo Central dos Sovietes, e um mês da sublevação dos SRs que deu início à Guerra Civil Russa. Recepção e críticas
Lênin
O principal alvo das críticas de Kautsky, Lênin redigiu uma resposta ao texto de Kautsky entre outubro e novembro daquele mesmo ano, e intitulou-a "A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky". Nesse panfleto, o revolucionário russo acusa Kautsky de ter abandonado os princípios do marxismo que anteriormente tinha defendido, e argumenta que a Revolução Russa tinha sido conduzida da única maneira possível e que tinha, ao contrário das alegações do socialista alemão, fortalecido a democracia para o proletariado. Segundo Lênin: "A ditadura é um poder que se apoia diretamente na força, e que não é submetido a nenhuma lei. A ditadura revolucionária do proletariado é um poder conquistado e mantido pela força empregada contra a burguesia, poder que não é submetido a nenhuma lei".
Kautsky rebateu as acusações de Lênin em um outro panfleto, publicado em 1920, denominado: "Terrorismo e Comunismo: uma contribuição para a história natural da revolução", onde argumenta que o regime bolchevique sobre a Rússia teria se tornado uma ditadura burocrática sob um sistema capitalista de Estado. Segundo Kautsky, a razão pela qual os bolcheviques conseguiram se manter no poder durante a guerra civil foi justamente um suposto abandono do socialismo.
Bibliografia
Ligações externas
Primeira edição em inglês d'A Ditadura do Proletariado de Kautsky, no Internet Archive
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