Maria Carolina Caldas Wanderley (Assú, 30 de janeiro de 1886 — Assú, 20 de setembro 1954), mais conhecida como Sinhazinha Wanderley, foi uma professora, poeta, teatróloga e musicista brasileira.

Vida Foi a oitava filha do primeiro casamento de Luís Carlos Lins Wanderley com Francisca Carolina Lins Wanderley. Sua mãe faleceu um ano e três meses após o seu nascimento. Posteriormente, seu pai casou novamente e teve outros filhos, dos quais Sinhazinha cresceu afastada.

Sinhazinha foi adotada por seus tios, o coronel Francisco Justiniano Lins Caldas e Umbelina Wanderley Caldas.

Recebeu educação doméstica ministrada por familiares, com formação em música, literatura, catecismo e línguas como francês, inglês e latim. Tal instrução era considerada um privilégio para mulheres de sua época, no final do Brasil Império e durante a Primeira República, período em que a educação feminina destinava-se prioritariamente ao preparo para o ambiente doméstico.

Ao longo da vida não se casou nem teve filhos, mas adotou diversos sobrinhos e agregados, o que mais tarde lhe trouxe sérias dificuldades financeiras.

Participou de importantes solenidades públicas em Assú, sendo uma das poucas mulheres a discursar nesses eventos.

É atribuída a Sinhazinha Wanderley a primeira participação feminina registrada na imprensa local de Assú, em 1915, com o poema "Recreios" e o texto "A Nova Escola", publicados na revista Paládio, periódico do Centro Bibliophilo Assuense, então dirigido pelo professor João Celso Filho.

O legado artístico dos Wanderley Família tradicional da cidade do Assú, os Wanderley constituíam um grupo socialmente privilegiado que, por décadas, atuou em diferentes áreas de destaque local, como a economia, a medicina, a cultura e a literatura. De grandes intelectuais a poetas reconhecidos no Rio Grande do Norte, a linhagem se consolidou em um contexto de prosperidade familiar. Entre seus membros, destacam-se Luís Carlos Lins Wanderley, médico, poeta, jornalista, romancista, político e dramaturgo, e seus filhos, Ezequiel Lins Wanderley, cronista e jornalista reconhecido como o maior representante da poesia condoreira no estado, e Segundo Wanderley, jornalista, orador e poeta.

Sinhazinha Wanderley viveu em um período em que Assú se destacava pela efervescência da imprensa, da poesia e do teatro, estando, portanto, diretamente influenciada por essas manifestações. Foi também tia de duas importantes poetisas, Palmyra e Carolina Wanderley, com quem colaborou na revista Via Láctea (1914). Nessa ocasião, passou a assinar como Sinhazinha Wanderley para evitar confusão com a sobrinha homônima.

Carreira Sinhazinha Wanderley dedicou toda a sua vida ao magistério e à literatura. Aos 22 anos, fundou em sua própria residência uma escola para crianças e, posteriormente, foi nomeada professora do Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia, onde lecionou por mais de três décadas, até se aposentar em 1950.

Ensino Entre 1908 e 1909, iniciou suas atividades pedagógicas em uma escola doméstica, denominada Externato São José. Sem apoio financeiro, atendia principalmente crianças de famílias pobres. Organizava de forma autônoma as propostas pedagógicas e chegou a enviar correspondências para livrarias de São Paulo solicitando livros e materiais de ensino.

Em 1911, integrou a primeira turma de docentes do Grupo Escolar Tenente Coronel José Correia. Sua atuação docente foi considerada fundamental para o desenvolvimento educacional da cidade de Assú, trazendo práticas culturais para o espaço escolar. Além das aulas regulares, promovia representações teatrais, atividades comemorativas e passeios, e utilizava poesias, cantos e dinâmicas educativas que revelavam seu protagonismo no cenário social e pedagógico local, incentivando o hábito da leitura e o apreço pela arte e pela literatura entre seus alunos.

Na memória de seus antigos alunos, Sinhazinha foi lembrada com carinho como “o protótipo da educadora”.PINHEIRO, R. S. L. Sinhazinha Wanderley: o cotidiano de Assú em prosa e verso (1876-1954). Tese (Doutorado em Educação). Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 1997.

Suas prática e metodologia docente aproximavam-se do ensino moderno, que então começava a emergir no Brasil.

Imprensa local Atuou na escrita e publicação de artigos e poemas, como na revista Atualidades, onde manteve uma coluna em 1950, já próxima dos 70 anos de idade. Seus textos abordavam temas variados, incluindo conteúdos de caráter sentimentalista, filosófico, sociológico e existencial.

Poemas Atraída pela poesia desde muito jovem, Sinhazinha Wanderley publicou ao longo dos anos seus poemas em jornais e revistas literárias, como "A Cidade", "Jornal do Sertão", "Atualidade" e o "Almanaque Literário", da cidade de Assú, além do "Jornal do Rio Grande do Norte", da "Gazeta do Natal" e da revista "Via-Láctea", de Natal. Com uma extensa produção literária, organizou cuidadosamente alguns poemas, entre eles "Musa Sertaneja", "Trovas Infantis" e "Lyra das Selvas"; a prosa "Palestras Infantis"; e as peças teatrais reunidas em "Dramas Escolares", em alguns volumes.

Esses volumes, no entanto, permaneceram inéditos até que, em 1990, Celso da Silveira e João Batista Machado publicaram uma parte dos seus escritos com a obra póstuma, Paisagens da Minha Terra, em razão do 145º ano de Emancipação Política da cidade de Assú.

Sua expressão poética era uma vocação que perambulava entre o lirismo e a sátira, sobressaindo os costumes da terra, como os de si mesma, feito um autorretrato que beirava o cruel. Alguns dos seus poemas são, também, perpassados por tons irônicos, brincalhões e, por algumas vezes, satíricos. Seu traço humorístico também era percebido em debates promovidos pelos jornais, onde se dirigia à sociedade e às personalidades da sua região.

Com traços do Realismo e preferência por sonetos circunstanciais e descritivos, sua obra enfatizava de forma marcante os elementos da paisagem local, afastando-se da tardia influência romântica que ainda caracterizava grande parte da produção literária feminina da época.

Composições e canto Além de inúmeras peças de teatro, de finalidade didática e recreativa, compôs benditos e ladainhas para a Igreja de São João Batista, de Assú, e hinos cívicos, como o "Hino da Cidade de Assu".

Ainda como professora, também dava aulas de canto na Escola Isolada Ponciano Souto, que funcionou no Centro Operário Assuense.

Hino da Cidade de Assú O hino oficial do município de Assú foi instituído em 10 de outubro de 1969, pela Lei Municipal n.º 06/69. A letra e a melodia foram compostas por Sinhazinha Wanderley, que é reconhecida como autora da obra. De acordo com o artigo 3.º da lei: “Fica oficializado, como Hino do Município do Açu, o composto do poema e música da saudosa poetisa e musicista açuense, Sinhazinha Wanderley”.

Reconhecimento Foi a primeira mulher a pertencer à Academia Assuense de Letras, ocupando a cadeira de nº 11, e a primeira a ocupar a cadeira de nº 6 da Academia Norte-rio-grandense de Letras, cujo patrono é seu avô, de também nome Luís Carlos Wanderley.Secretaria Extraordinária de Cultura. Fundação José Augusto - Figura de Destaque. Maria Carolina Wanderley Caldas. ACERVO. Disponível em: <DOC000000000115615.PDF>. Acesso em 11 de setembro de 2025.

Em 2023, Sinhazinha Wanderley ganhou evidência com o livro A professora da Aldeia - Uma biografia de Sinhazinha Wanderley, escrito por Pedro Octavio de Oliveira, biógrafo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, evento que contribuiu para disseminar sua história, ainda pouco conhecida diante das figuras influentes do seu meio familiar e social.

Obras literárias Poemas e poesias "Assú, Às 11 do dia: publicada na Revista Atualidades em 26 de fevereiro de 1950"

"Auto-retrato"

"Alvorada do amor"

"Recordações"

"O meu aniversário"

"Quando eu crescer"

Obra Paisagens da minha terra (1990), obra póstuma.

Hinos Hino oficial da cidade Assú.

Hino Sertanejo Assuense.

Hino patriótico (para ser cantado em 11 de Agosto).

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