Os Manoki (também conhecidos historicamente como Iranxe ou Irantxe-Manoki) são um povo indígena do oeste do estado de Mato Grosso, Brasil. Sua língua própria é a língua iranxe, que constitui um tronco linguístico isolado e sem parentes próximos conhecidos.

Localização e território Atualmente, os Manoki vivem sobretudo na Terra Indígena Irantxe (ou Irantxe-Manoki), localizada no município de Brasnorte, Mato Grosso, às margens do rio Cravari. Também há presença de famílias Manoki na Terra Indígena Myky, na região do rio Papagaio, tradicionalmente ocupada pelo subgrupo Myky.

O território original dos Manoki estendia-se entre os rios do Sangue e Cravari, alcançando o córrego Membeca ao sul e a junção dos rios Cravari e do Sangue ao norte. Essa área abrangia florestas, cerrados e uma grande diversidade ambiental, fundamentais para seu modo de vida.

A TI Irantxe foi homologada em 1968 com cerca de 46.790 hectares, mas está situada fora do território histórico do povo, com características ambientais distintas. Por isso, os Manoki reivindicam uma ampliação significativa da área, estimada em 206.455 hectares, abrangendo terras tradicionalmente ocupadas.

História Registros orais dos Manoki relatam que seu território já era densamente povoado por aldeias no passado, podendo chegar a cerca de 27 malocas distribuídas ao longo dos rios.

Contato com não indígenas Os primeiros contatos intensos ocorreram no final do século XIX e início do século XX, quando seringueiros penetraram na região em busca de borracha. Esse contato resultou em conflitos e massacres, além da disseminação de doenças, o que provocou grande queda populacional.

Massacre do Tapuru Um episódio marcante na memória do povo é o massacre ocorrido por volta de 1900, no córrego Tapuru (afluente do rio Cravari). Seringueiros atacaram uma aldeia Manoki, incendiando malocas e matando grande número de pessoas.

Missões religiosas A partir da década de 1940, os Manoki entraram em contato com missões jesuítas. A presença missionária trouxe ensino religioso, alfabetização e assistência, mas também contribuiu para desestruturações sociais e culturais, como a desvalorização da língua e dos rituais tradicionais.

População Estima-se que, no início do século XX, havia mais de mil Manoki. No entanto, após epidemias e massacres, esse número caiu drasticamente. Em 2000, eram cerca de 250 pessoas distribuídas em seis aldeias: Paredão, Recanto do Alípio, Perdiz, Asa Branca, Cravari (a maior) e Treze de Maio. Segundo dados do Siasi/Sesai, em 2020 a população era de 413 pessoas.

Organização social O sistema de produção tradicional baseava-se em famílias extensas de padrão matrilocal, onde genros trabalhavam em cooperação com seus sogros.

As roças eram consorciadas, cultivando mandioca brava, milho, batata-doce, cará, feijão, urucum, algodão e amendoim. Com o tempo, incorporaram novos cultivos, como arroz, cana-de-açúcar e feijão guandu.

A caça, pesca e coleta de frutos sempre tiveram papel central, mas foram severamente prejudicadas pelo desmatamento, avanço da agropecuária e uso de agrotóxicos em áreas vizinhas.

Cultura e espiritualidade A vida ritual dos Manoki é marcada por celebrações ligadas ao ciclo das estações e a rituais de iniciação.

Entre os elementos centrais destacam-se as flautas sagradas Yetá (dos homens) e Nadipu (das mulheres), guardadas em casas rituais interditadas às mulheres e crianças. O uso dessas flautas simboliza a ligação entre a comunidade e forças espirituais.

Os ritos de iniciação masculina aconteciam entre os 12 e 14 anos, envolvendo isolamento, aprendizado dos segredos da cultura, jejuns e pinturas corporais. Em alguns grupos, como os Myky, esses rituais ainda se mantêm vivos.

Subgrupo Myky O subgrupo Myky, também falante da língua Iranxe, vive atualmente na Terra Indígena Myky, às margens do rio Papagaio. Apesar de terem permanecido isolados até 1971, hoje mantêm relações próximas com os Manoki, incluindo casamentos, trocas e rituais compartilhados.

Desafios contemporâneos Os Manoki enfrentam sérios problemas relacionados à preservação ambiental e à demarcação territorial. O desmatamento em áreas vizinhas, a contaminação por agrotóxicos e a escassez de recursos naturais ameaçam a sustentabilidade de seu modo de vida.

Ao mesmo tempo, há esforços de revitalização cultural, com valorização da língua Iranxe e retomada de práticas rituais, assim como parcerias com organizações indigenistas como a OPAN e apoio de políticas públicas.

Ver também Língua iranxe Povos indígenas do Brasil Myky

Referências

Categoria:Povos indígenas do Brasil Categoria:Povos indígenas de Mato Grosso