Em 2025, o Brasil registrou um surto de intoxicações por metanol associado ao consumo de bebidas alcoólicas adulteradas. Falsificadores adicionaram metanol, substância extremamente tóxica, a destilados posteriormente comercializados de forma irregular e consumidos pelas vítimas.

Em resposta ao surto, o governo federal brasileiro emitiu em 30 de setembro de 2025 um alerta nacional. Até então, três mortes haviam sido oficialmente confirmadas pelo Laboratório de Toxicologia Analítica do CIATox-Campinas. A crise do metanol atingiu proporções nacionais no início de outubro, espalhando-se por vários estados brasileiros, provocando apreensão da população e redução do consumo de bebidas alcoólicas.

Contexto

O metanol (CH₃OH) é um álcool altamente tóxico, utilizado principalmente na indústria química para a produção de solventes, adesivos e combustíveis. Embora seja um líquido à temperatura ambiente com propriedades semelhantes às do etanol, utilizado nas bebidas alcoólicas, ele não deve estar presente no álcool para consumo humano.

Ao ser metabolizado no organismo, o metanol gera formaldeído e ácido fórmico, substâncias que podem causar sérios danos à saúde, incluindo perda de visão irreversível e até a morte. Os sintomas de intoxicação por metanol podem aparecer entre 12 e 24 horas após a ingestão, incluindo alterações visuais, náuseas, vômitos, dor abdominal, confusão mental e sudorese excessiva. Em caso de suspeita de intoxicação, orienta-se buscar atendimento médico imediato.

A presença do metanol em bebidas alcoólicas, quase sempre por adulteração clandestina, é ilegal e extremamente perigosa. Os casos registrados no surto de 2025 foram associados ao consumo de bebidas destiladas adulteradas (como gin, uísque e vodca), sendo geralmente consumidas em festas ou adquiridas em estabelecimentos não regulamentados.

A crise não foi novidade no Brasil, uma vez que outros casos semelhantes já haviam ocorrido, como em dezembro de 1992, quando 160 pessoas foram intoxicadas e três mortas em uma balada em Diadema. Em 1999, 400 pessoas foram intoxicadas na Bahia por cachaça contaminada com metanol, o que levou a 35 mortes.

Pouco antes do início do surto, houve uma operação em São Paulo contra a venda de etanol combustível adulterado em postos de gasolina pelo crime organizado, particularmente pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Os estabelecimentos fechados na operação vendiam combustível com até 90% de metanol, muito acima do limite permitido de 0,5%, por ser mais barato. Criou-se especulação sobre a origem do metanol utilizado nas bebidas, que poderia ter sido revendido para falsificadores de bebidas alcoólicas após o fechamento dos postos de combustível.

Epidemiologia

Os casos do surto iniciaram-se no final de agosto de 2025. O número de ocorrências em agosto e setembro aproximou-se da média anual histórica de intoxicações por metanol no Brasil, estimada em cerca de vinte casos por ano.

Até o dia 8 de dezembro, data em que foi encerrada a Sala de Situação criada para monitorar o surto, 102 casos confirmados ou suspeitos de intoxicação haviam sido notificados nacionalmente, sendo a maioria concentrada no estado de São Paulo. 788 suspeitas haviam sido descartadas.

Um total de 12 estados apresentaram casos confirmados ou em investigação. Houve ainda casos descartados no Acre, na Bahia, no Espírito Santo, no Mato Grosso, em Minas Gerais e em Rondônia.

Em 2 de dezembro de 2025, a Prefeitura de Mauá, no estado de São Paulo, confirmou o primeiro caso de intoxicação por metanol no município e, pela primeira vez, um licor entrou na lista de bebidas associadas à contaminação.

Ceará Dois casos estavam sendo investigados no Ceará em 7 de outubro: um em Aquiraz e outro em Fortaleza.

Houve ainda casos descartados em Caucaia, em Quixeramobim e em São Gonçalo do Amarante.

Distrito Federal thumb|O rapper brasileiro Hungria Hip Hop foi investigado como potencial vítima de intoxicação O rapper do Distrito Federal, Hungria Hip Hop, foi internado no dia 2 de outubro por suspeita de intoxicação pela substância. O rapper apresentou cefaleia, náuseas, vômitos, turvação visual e acidose metabólica. O cantor recebeu alta hospitalar 3 dias depois, não apresentando sequelas. Um exame de sangue apontou metanol no sangue de Hungria acima do valor de referência, mas autoridades descartaram o caso, associando a alteração ao tratamento utilizado.

Espírito Santo No Espírito Santo, um caso suspeito estava sendo investigado em Colatina no dia 7 de outubro. Houve ainda casos descartados em Vila Velha, Vitória e Serra.

Goiás Em 8 de outubro, a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás estava acompanhando 3 casos suspeitos de intoxicação.

Formosa: 1 internação (homem de 20 anos que ingeriu vodca). Itapaci: 1 internação (mulher de 25 anos). Padre Bernardo: 1 internação (homem de 47 anos internado em Brasília).

Houve ainda casos descartados em Bom Jesus de Goiás e em Senador Canedo.

Mato Grosso do Sul 6 casos estavam sendo investigados no Mato Grosso do Sul em 6 de outubro, incluindo uma morte no dia 2 de outubro em Campo Grande.

Campo Grande: 3 casos suspeitos, incluindo 1 morte suspeita (homem de 21 anos que ingeriu cachaça e uísque). Ladário: 1 caso suspeito. Rio Brilhante: 1 caso suspeito. Sidrolândia: 1 caso suspeito.

Minas Gerais Em Poços de Caldas, Minas Gerais, um homem de 25 anos foi atendido com sintomas característicos de intoxicação, tendo alta no dia 7 de outubro.

Paraíba Um homem de 32 anos de Baraúna, na Paraíba, morreu de forma suspeita em 4 de outubro.

Paraná Intoxicações em dois homens de 60 e 71 anos de Curitiba, capital do Paraná, foram confirmadas por meio de exames laboratoriais. Um terceiro caso de Curitiba estava sob análise em 6 de outubro.

Pernambuco 31 casos suspeitos estavam sendo investigados em Pernambuco até 7 de outubro, sendo 3 mortes.

Caruaru: 1 internação (homem de 44 anos). Cedro: 1 internação (mulher de 33 anos que ingeriu cachaça). Garanhuns: 1 internação (homem de 36 anos procedente de Maceió). Ipojuca: 1 internação (mulher de 26 anos procedente de São Paulo que ingeriu gim). João Alfredo: 1 morte (homem de 30 anos). Lagoa do Ouro: 1 internação (homem de 33 anos). Lajedo: 2 mortes (um homem de 43 anos e outro de idade não divulgada), 1 internação (homem de 32 anos que perdeu a visão). Olinda: 2 internações (mulheres de 35 e 45 anos; ambas ingeriram vodca). Recife: 1 internação (homem de 58 anos).

Houve ainda casos descartados em Carpina, em Gravatá e em Paudalho.

Piauí Um homem de 28 anos com sintomas de intoxicação por metanol após consumir gim foi internado em 3 de outubro no Hospital Estadual Dirceu Arcoverde, em Parnaíba, no litoral do Piauí. Outros casos estavam sendo investigados em 8 de outubro pela Secretaria de Saúde estadual.

Parnaíba: 3 casos suspeitos (incluindo homem de 28 anos que ingeriu gim). Teresina: 1 caso suspeito (homem de 51 anos que ingeriu uísque).

Rio de Janeiro 4 casos suspeitos de intoxicação estavam sendo investigados no Rio de Janeiro em 7 de outubro.

Cantagalo: 1 intoxicação (homem de 23 anos). Cabo Frio: 1 intoxicação (mulher de idade não informada). São Pedro da Aldeia: 1 intoxicação (homem de 37 anos). Volta Redonda: 1 intoxicação (homem de 47 anos).

Houve ainda um caso descartado em Niterói.

Rio Grande do Sul Uma intoxicação em um homem de 42 anos de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, foi confirmada em 8 de outubro por exames laboratoriais. Ele havia ingerido duas caipirinhas de vodca em um bar em São Paulo.

Houve ainda um caso descartado pela Secretaria Estadual de Saúde em Santa Maria.

São Paulo O surto iniciou-se no estado de São Paulo, onde também houve a primeira morte confirmada por metanol. O estado concentrou a maior quantidade de casos notificados, totalizando, até 8 de outubro, 181 intoxicações em investigação e 20 confirmadas, além de 6 mortes suspeitas e 5 confirmadas.

Buritama: 1 caso suspeito. Cajuru: 1 morte suspeita (homem de 26 anos). Carapicuíba: 1 caso suspeito. Cotia: 1 caso suspeito. Cubatão: 1 caso suspeito (mulher de 36 anos). Diadema: 11 casos suspeitos.

Embu das Artes: 1 caso suspeito. Ferraz de Vasconcelos: 2 casos suspeitos. Guarulhos: 3 casos suspeitos e 1 confirmado. Indaiatuba: 3 casos suspeitos. Itapevi: 1 caso suspeito. Itapecerica da Serra: 1 caso confirmado (homem de 21 anos). Itaquaquecetuba: 6 casos suspeitos, incluindo 1 morte (homem de 33 anos). Jacareí: 1 caso suspeito (homem de 26 anos que ingeriu cachaça). Jundiaí: 3 casos suspeitos. Limeira: 1 caso confirmado (homem de 30 anos). Lorena: 1 caso suspeito (mulher de 21 anos). Mairiporã: 1 caso suspeito. Mauá: 8 casos suspeitos. Mongaguá: 1 caso suspeito (uma adolescente de 16 anos). Osasco: 10 casos suspeitos (incluindo homem de 27 anos que ingeriu gim, sendo internado em estado grave) e 1 morte confirmada (homem de 23 anos). Ourinhos: 3 casos suspeitos. Piracicaba: 2 casos suspeitos. Poá: 1 caso suspeito. Praia Grande: 1 caso suspeito. Presidente Prudente: 1 caso suspeito. Ribeirão Preto: 3 casos suspeitos. Rincão: 1 caso suspeito. Rio Claro: 1 caso suspeito. Santa Isabel: 1 caso suspeito. Santa Rita do Passa Quatro: 1 caso suspeito. Santo André: 11 casos suspeitos (incluindo dois homens de 21 e 26 anos). Santos: 1 caso suspeito. São Bernardo do Campo: 1 caso confirmado e 59 casos suspeitos, incluindo 2 mortes suspeitas (homens de 49 e 58 anos) e 1 morte confirmada (mulher de 30 anos). São José dos Campos: 7 casos suspeitos (incluindo uma mulher de 47 anos). São Paulo (capital): 22 casos suspeitos, incluindo 3 mortes (homens de 36, 50 e 51 anos), e 16 casos confirmados, incluindo 2 mortes (homens de 45, 48 e 54 anos). São Vicente: 1 caso suspeito. Taboão da Serra: 1 caso suspeito. Vargem Grande Paulista: 1 caso suspeito. Votorantim: 1 caso suspeito.

Houve ainda outros casos descartados na capital, em Araçatuba, em Barrinha, em Caraguatatuba, em Itu, em Limeira, em Ribeirão Preto e em Vinhedo. Os pacientes internados apresentaram sintomas graves, como dor abdominal, rebaixamento do nível de consciência e dificuldade respiratória. O tratamento incluiu medicamentos e, em casos mais graves, diálise.

Resposta governamental Medidas iniciais A resposta governamental incluiu a ativação do Sistema de Alerta Rápido (SAR), a emissão de protocolos técnicos às secretarias estaduais de saúde e orientações da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) para fornecedores de bebidas alcoólicas. Em reunião extraordinária do dia 29 de setembro do Comitê Técnico do SAR em conjunto com diversos órgãos, incluindo os Ministérios da Justiça e da Saúde, a Polícia Federal, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Receita Federal, optou-se por emitir um alerta nacional em resposta à crise sanitária.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, anunciou em 30 de setembro a criação de um gabinete de crise para coordenar as ações das secretarias da Saúde, Segurança Pública, Fazenda e Justiça contra a adulteração de bebidas alcoólicas com metanol no estado.

Na Nota Técnica Conjunta nº 360/2025, publicada em 30 de setembro, autoridades orientaram a notificação imediata de casos suspeitos e confirmados de intoxicação exógena por metanol no Brasil para o município e o estado onde houve o caso, além do Ministério da Saúde, o Centro Nacional de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (CIEVS Nacional) e o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), caracterizando-os como eventos de "ameaça à saúde pública".

Uma sala de situação em Brasília foi instalada pelo Ministério da Saúde em 1 de outubro para monitorar os casos crescentes de intoxicação por metanol no país. No dia seguinte, a Câmara dos Deputados aprovou a urgência para um projeto de lei que tornaria crime hediondo a falsificação de bebidas.