direita|miniaturadaimagem|300x300px|Ferrovias transcontinentais nos Estados Unidos e nos países próximos, 1887 Uma ferrovia transcontinental é um trajeto ferroviário contíguo que atravessa uma massa de terra continental e tem terminais em diferentes oceanos ou fronteiras continentais. Essas redes podem se dar por meio de linhas férreas ou por meio de apenas uma ferrovia, ou por várias ferrovias pertencentes ou controladas por várias companhias ferroviárias ao longo de uma rota contínua. Ainda que a Europa seja cortada por ferrovias, as ferrovias na Europa não são consideradas transcontinentais, com a possível exceção do histórico Expresso do Oriente. Ferrovias transcontinentais ajudam a conectar regiões interioranas de continentes que ainda não tinham sido colonizadas para exploração e assentamento, e que sem elas tal conexão não teria sido possível. Em muitos casos, elas também formaram a espinha dorsal das redes de transporte de passageiros e cargas entre países. Muitas delas ainda possuem um papel importante no transporte de cargas, e algumas, como a Ferrovia Transiberiana, ainda fornecem transporte de passageiros.
África
Leste-oeste
Existem várias maneiras de cruzar a África transcontinentalmente via ferrovias leste-oeste. Uma é o Corredor do Lobito. Inicia em Lobito, Angola, e se conecta a Catanga por meio do sistema de ferrovias da Zâmbia. Da Zâmbia, vários portos tinham acesso ao Oceano Índico: Dar es Salaam na Tanzânia, por meio da TAZARA, e, por meio do Zimbábue, Beira e Maputo no Moçambique. A Guerra Civil Angolana tornou a linha de Benguela em sua maior parte inoperante, mas esforços estão sendo feitos para restaurá-la. Outro corredor oeste-leste leva aos portos do Atlântico na Namíbia, Walvis Bay ou Luderitz, ao sistema ferroviário sul-africano, que conecta-os aos portos do Oceano Índico (i.e. Durban, Maputo). Uma lacuna de 1 015 km na linha leste-oeste entre Kinshasa e Ilebo é preenchida por meio de barcos fluviais. Essa lacuna poderia ser preenchida com uma ferrovia, como já fora discutido em 2009. Existem dois projetos para construir uma linha ferroviária entre o Mar Vermelho e o Golfo da Guiné, incluindo a TransAfricaRail. Em 2010, uma proposta buscava conectar Dakar ao Porto Sudão. Treze países estariam no trajeto principal; outros seis seriam servidos por ramais.
Norte-sul
Uma ferrovia transcontinental norte-sul foi proposta por Cecil Rhodes, que pensou a ferrovia Cabo-Cairo. Esse sistema seria uma rota direta para a possessão britânica mais ao norte da África, Egito, para a mais ao sul, a Colônia do Cabo. O projeto nunca foi concluído. Durante seu desenvolvimento, um projeto colonial francês rival que pretendia construir uma linha de Argel ou Dakar a Abidjan foi abandonado depois do incidente de Fashoda. Esta linha teria quatro ilhas de bitola em três tipos de bitola. Uma extensão das ferrovias namibianas está sendo construída desde 2006 com uma possível conexão com as ferrovias angolanas. A Líbia propôs uma ferrovia Transaariana possivelmente conectando-se à Nigéria que se conectaria com a rede AfricaRail proposta.
União Africana de Ferrovias
A União Africana de Ferrovias tem planos de conectar as várias ferrovias da África, incluindo a ferrovia de Dakar-Porto Sudão.
Austrália
Leste-oeste
O corredor ferroviário transcontinental leste–oeste da Austrália, composto por linhas construídas com três bitolas diferentes, foi concluído em 1917, quando a Ferrovia Transaustraliana foi inaugurada entre Port Augusta, Austrália Meridional, e Kalgoorlie, na Austrália Ocidental. Essa linha, construída pelo governo federal como parte dos compromissos da federação, preencheu a última lacuna nas linhas entre as capitais dos estados continentais: Brisbane, Sydney, Melbourne, Adelaide e Perth. Passageiros e cargas sofriam com as quebras de bitola: uma viagem de Perth a Brisbane, naquela época, passava por duas linhas de bitola padrão de 1 435 mm (4 pés 8½ polegadas), uma linha de bitola larga de 1 600 mm (5 pés 3 polegadas) e três linhas de bitola de 1 067 mm (3 pés 6 polegadas). Em 1970, a rota através do continente foi concluída com bitola padrão, e um novo trem de passageiros direto, o Indian Pacific, foi inaugurado. Uma linha transcontinental leste–oeste no norte da Austrália, de Pilbara até a costa leste — mais de 1 000 km (600 milhas) ao norte do corredor ferroviário Sydney–Perth — foi proposta em 2006 pelo Projeto Iron Boomerang, com o objetivo de conectar a mineração de minério de ferro em Pilbara e a mineração de carvão na Bacia de Bowen, em Queensland, com usinas siderúrgicas em ambas as extremidades.
Norte-sul miniaturadaimagem|606x606px|O corredor ferroviário Adelaide–Darwin foi concluído em 2004. A construção da primeira de suas cinco linhas constituintes havia começado 87 anos antes — e sua antecessora, que acabou malfadada, teve início 39 anos antes disso
O corredor ferroviário transcontinental norte–sul da Austrália foi construído em etapas ao longo do século XX, restando um trecho de 1 420 quilômetros (880 milhas) a ser concluído após a finalização da seção de 828 quilômetros (514 milhas) entre Tarcoola e Alice Springs, em 1980.History of the railway AustralAsia Railway Corporation Esse trecho final, de Alice Springs a Darwin, foi inaugurado em 2004. O comprimento total do corredor, de Adelaide a Darwin, é de 2 975 quilômetros (1 849 milhas). A conclusão do corredor pôs fim a 126 anos de necessidade de transferir cargas e passageiros entre trens em trilhos de bitolas diferentes: o corredor agora é totalmente de bitola padrão de 1 435 mm (4 pés 8½ polegadas). O corredor é uma rota importante para o transporte de carga. Um trem de passageiros turístico de alto padrão, o The Ghan, operado pela Journey Beyond, faz a viagem uma vez por semana em cada direção, de Adelaide a Darwin, e a linha leste–oeste da empresa Indian Pacific corre os 727 quilômetros (452 milhas) mais ao sul, antes de atingir o oeste em Perth. Não há tráfego intermediário de passageiros na linha. Em 2018, a Australian Rail Track Corporation iniciou a construção de uma ferrovia de carga rápida em bitola padrão, com 1 700 quilômetros (1 100 milhas) de extensão, ligando Melbourne a Brisbane, conhecida como Ferrovia Inland. Desde 2022, a conclusão estava prevista para 2027.
Eurásia
Europa
A primeira ferrovia transcontinental da Europa, que conectava o Mar do Norte ou o Canal da Mancha ao Mar Mediterrâneo, foi uma série de linhas que incluíam a ferrovia Paris–Marselha, em operação desde 1856. Várias ferrovias ao norte de Paris já estavam em funcionamento naquela época, como a ferrovia Paris–Lille e a ferrovia Paris–Le Havre, estabelecendo conexões com portos do norte da França. A segunda conexão entre os mares do Norte da Europa e o Mar Mediterrâneo foi uma série de linhas finalizadas em 1857 com a Ferrovia do Sul da Áustria, que liga Viena a Trieste. Antes disso, já existiam conexões ferroviárias entre Hamburgo–Berlim–Wrocław–Viena, incluindo a Ferrovia Berlim–Hamburgo, a Ferrovia Berlim–Wrocław, a Ferrovia da Alta Silésia e a Ferrovia do Imperador Fernando do Norte. O Mar Báltico também estava conectado por meio da ferrovia Lübeck–Lüneburg.
Transeurásia
A Ferrovia Transiberiana, concluída em 1905, foi a primeira rede de ferrovias conectando Europa e Ásia. Conecta a Rússia Ocidental ao Extremo Oriente Russo, e é a maior linha ferroviária do mundo, com um comprimento de 9 289 quilômetros (5 772 milhas). A ferrovia começa da capital russa. Moscou, que é a maior cidade da Europa, e termina em Vladivostok, na costa do Oceano Pacífico. A expansão do sistema ferroviário continua desde 2021, com trilhos indo para o resto da Ásia, em países como Mongólia, China e Coreia do Norte. Também há planos para conectar Tóquio, a capital do Japão, à ferrovia. Uma segunda linha ferroviária conecta Istambul, na Turquia, à China, passando por Irã, Turcomenistão, Uzbequistão e Cazaquistão. Essa rota impõe uma mudança de bitola na fronteira do Irã com o Turcomenistão e na fronteira chinesa. No trajeto, há uma balsa ferroviária no leste da Turquia, atravessando o Lago Vã. As partes europeia e asiática de Istambul foram ligadas em 2019 pelo túnel submarino Marmaray, que antes disso eram ligadas por balsa ferroviária. Não há um serviço contínuo de trens de passageiros em toda a linha. Uma conexão de bitola uniforme foi proposta em 2006, começando com nova construção no Cazaquistão. Uma decisão de padronizar as ferrovias internas do Afeganistão para a bitola de 1 435 mm (4 pés 8 1⁄2 polegadas) pode abrir uma nova rota de bitola padrão para a China, já que a China faz fronteira com esse país. A Ferrovia Transasiática é um projeto para ligar Singapura a Istambul e está, em grande parte, concluído, com partes faltantes especialmente no Mianmar. O projeto também inclui corredores de ligação para a China, os estados da Ásia Central e a Rússia. Infelizmente, essa linha transcontinental utiliza várias bitolas diferentes: 1 435 mm (4 pés 8 1⁄2 polegadas), 1 676 mm (5 pés 6 polegadas), 1 520 mm (4 pés 11 5⁄6 polegadas) e 1 000 mm (3 pés 3 3⁄8 polegadas), embora esse problema possa ser minimizado com o uso de sistemas de eixo de bitola variável, como o SUW 2000. O projeto TransKazakhstan Trunk Railways, da Kazakhstan Temir Zholy, conectará a China e a Europa com bitola padrão de 1 435 mm (4 pés 8 1⁄2 polegadas). A construção está prevista para começar em 2006. Inicialmente, a linha irá até o oeste do Cazaquistão, seguindo para o sul, através do Turcomenistão até o Irã, depois para a Turquia e Europa. Também está sendo considerada uma ligação mais curta, a ser construída com bitola de 1 435 mm (4 pés 8 1⁄2 polegadas), que passaria pelo Cazaquistão, Rússia e por Belarus ou Ucrânia. A Ferrovia de Bagdá conecta Istambul a Bagdá e, finalmente, Baçorá, um porto marítimo no Golfo Pérsico. Quando sua construção começou na década de 1880, na época, era uma ferrovia transcontinental. A Rota Internacional de Transporte Trans-Cáspia, a Ferrovia Trans-Cáspia é uma ferrovia que segue o trajeto da Rota da Seda por grande parte do oeste da Ásia Central, conectando a Ásia à Europa através da Transcaucásia e da Turquia.
América do Norte
Estados Unidos miniaturadaimagem|A cerimônia da cravação do "Último Prego", a junção dos trilhos das linhas da CPRR e UPRR em Promontory Summit, Utah, em 10 de maio de 1869, "Leste e Oeste apertando as mãos na colocação do último trilho", de Andrew J. Russell. 10 de maio de 1869. Uma ferrovia transcontinental nos Estados Unidos é qualquer linha ferroviária contínua que conecta um local na costa do Pacífico dos EUA com uma ou mais ferrovias dos sistemas ferroviários principais do leste do país, que operam entre os rios Missouri ou Mississippi e a costa atlântica dos EUA. O primeiro plano concreto para uma ferrovia transcontinental nos Estados Unidos foi apresentado ao Congresso por Asa Whitney em 1845.
Uma série de ferrovias transcontinentais foram construídas durante o último terço do século XIX, criando uma rede de transporte nacional que unia o país por trilhos. A primeira delas, a "Ferrovia do Pacífico" de 3 103 km (1 928 mi) foi construída pela Central Pacific Railroad e pela Union Pacific Railroad, assim como pela Western Pacific Railroad (1862–1870), para conectar a Baía de São Francisco em Alameda, Califórnia, com a rede ferroviária já existente no leste em Omaha, Nebraska/Council Bluffs, Iowa—criando, assim, a segunda ferrovia transcontinental do mundo, quando foi conluída de Omaha a Alameda em 6 de setembro de 1869. Sua construção foi concretizada pelo governo dos Estados Unidos pelas Leis da Ferrovia do Pacífico de 1862, 1864 e 1867. Seu trajeto original era muito próximo do da atual Interstate 80.
A primeira ferrovia transcontinental foi a Ferrovia do Panamá de 1855, agora parte do país do Panamá.
Ferrovia transcontinental