miniaturadaimagem|Saussure O corte saussuriano designa a divisão conceitual e metodológica proposta por Ferdinand de Saussure no início do século XX, a partir da qual se estabelece a distinção entre língua (langue) e fala (parole) como dimensões distintas, porém complementares, da linguagem. Essa separação constituiu um dos gestos fundadores da linguística moderna, ao delimitar de modo preciso o objeto de estudo da disciplina e fixar as bases do método estrutural.VIEIRA, Francisco Eduardo. O corte saussuriano: reflexões sobre o ponto de vista do fundador da linguística moderna. Linguagem em (Re)vista, vol. 11, n. 21. Niterói: UFF, 2016.

Em sua formulação, Saussure definiu que a língua corresponde a um sistema social, coletivo e relativamente estável de signos usados por uma comunidade, enquanto a fala é o uso individual e efêmero desse sistema pelos sujeitos. A língua deve, portanto, ser tomada como o objeto científico central da linguística, pois contém os elementos regulares e sistemáticos da comunicação, ao passo que a fala é considerada contingente e particular. Assim, o estudo científico da linguagem deve concentrar-se na estrutura e nas relações internas entre os signos — o eixo das diferenças e valores linguísticos — em vez de se deter nas manifestações individuais ou históricas.SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. Trad. Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blinkstein. São Paulo: Cultrix, 2010.

Esse gesto epistemológico se traduziu na exclusão, da teoria linguística, de fatores exteriores como a história, a psicologia e a intenção do sujeito, marcando um afastamento em relação às tradições filológicas e filosóficas anteriores. O corte saussuriano estabeleceu, dessa maneira, um modelo centrado na imanência da língua, que passou a ser concebida como um sistema autônomo de valores, definido unicamente por diferenças internas.VIEIRA, Francisco Eduardo. O corte saussuriano: reflexões sobre o ponto de vista do fundador da linguística moderna. Linguagem em (Re)vista, vol. 11, n. 21. Niterói: UFF, 2016.

O corte entre língua e fala, contudo, tornou-se também um ponto de partida para debates posteriores. Autores da análise do discurso, como Michel Pêcheux, revisitaram a separação saussuriana com o objetivo de recolocar na cena científica o papel do sujeito e da ideologia. Para Pêcheux, embora Saussure tenha isolado a língua como objeto científico, sua distinção acabou revelando um espaço de retorno da subjetividade, pois é apenas pelo ato de fala que o sistema linguístico se realiza e se transforma historicamente.SIQUEIRA, Vinícius. O corte entre língua e fala – Saussure e a AD. Colunas Tortas, 16 jul. 2024. Disponível em: https://colunastortas.com.br/o-corte-entre-lingua-e-fala-saussure-e-a-ad

Ainda que alvo de críticas, o corte saussuriano permanece fundamental na história das ciências da linguagem, por ter instituído o paradigma estruturalista e por inaugurar a abordagem sincrônica da língua, posteriormente desenvolvida por escolas como a de Praga, por Louis Hjelmslev e pelos estruturalistas franceses. Sua importância teórica ultrapassa o campo da linguística, influenciando disciplinas como a antropologia, a crítica literária e a filosofia da linguagem.SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. Trad. Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blinkstein. São Paulo: Cultrix, 2010.

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