O reggae no Brasil refere-se ao gênero musical originado na Jamaica, que chegou ao país na década de 1970. O estilo chegou à cidade brasileira de São Luís, Maranhão, onde os discos produzidos no país caribenho começaram a ser difundidos. E também possui forte presença na cidade brasileira de Salvador (estado da Bahia), onde a cultura afro exerce grande influência.

Antecedentes e contexto O reggae é um gênero baseado no ska e no rocksteady, estilos dançantes das décadas de 1950 e 1960, por sua vez profundamente inspirados no rhythm and blues (R&B) norte-americano e em ritmos caribenhos, além do movimento político-religioso rastáfari. Para alguns pesquisadores, o ska teria chegado ao país ainda nos anos 1960 com artistas associados com a Jovem Guarda e o iê-iê-iê como Wanderléa e Renato e Seus Blue Caps, acompanhada pela banda, Wanderléa grava Meu Bem Lollipop no álbum Quero Você (1964), versão cover de My Boy Lollipop, a canção originalmente era no estilo vocal doo-wop do grupo The Cadillacs e ficou famosa por uma versão ska gravada por Millie Small também em 1964. Já em seu álbum Isto É Renato E Seus Blue Caps (1965), a banda grava Escândalo, versão de Shame and Scandal in the Family do cantor de calipso Sir Lancelott, que havia sido transformada em ska por Peter Tosh e The Wailers no mesmo ano. Anos mais tarde The Wailers se tornaria mundialmente conhecida como a banda de Bob Marley, e Peter Tosh seguiria uma bem-sucedida carreira solo, ambos sendo consagrados como ícones máximos do reggae. Para Carlos Albuquerque em seu livro O eterno verão do reggae (1997), o ska da época se parecia com a Jovem Guarda por suas letras românticas, ele argumenta que Menina Linda, versão de I Should Have Known Better dos Beatles, gravada no álbum Viva a Juventude! (1965), se parece com My Boy Lollipop. Curiosamente, até mesmo os Beatles chegaram a expermimentar o estilo em Ob-La-Di, Ob-La-Da, lançada em 1968, uma canção considerada um ska pop.Carlin, Peter Ames (2009). Paul McCartney: A Life. p. 172. New York, NY: Touchstone/Simon & Schuster. ISBN 978-1-4165-6223-8Quantick, David (2002). Revolution: The Making of the Beatles' White Album. p. 183. Chicago, IL: A Cappella Books. ISBN 1-55652-470-6 Tanto Renato e Seus Blue Caps, quanto Wanderléa não tinham conhecimento sobre o gênero, com as canções sendo mais dois hits da música pop que tiveram versões, o pioneirismo dessas versões só seriam reconhecido décadas mais tarde.

O primeiro contato dos brasileiros com uma banda do gênero foi através da apresentação de Jimmy Cliff no Festival Internacional da Canção em 1968 na cidade do Rio de Janeiro. No mesmo ano, Cliff chegou a lançar o álbum Jimm Cliff in Brazil, o álbum traz releituras de canções brasileiras como Serenou e Andança essa última teve um novo título em inglês, The Lonely Walker.

Década de 1970 Na década de 1970 o reggae se estabeleceu no Brasil por duas vias principais: a vanguarda da MPB e do rock e uma forte assimilação regional.

O terreno para essa recepção pela elite artística havia sido preparado pelo Tropicalismo. Liderado por baianos como Caetano Veloso e Gilberto Gil, o movimento do final dos anos 1960 operou uma renovação radical na música brasileira, fundindo tradições nacionais (como o baião e a cultura popular) com tendências estrangeiras (o rock psicodélico e a pop art). Sua filosofia antropofágica de deglutir influências externas para criar algo novo criou um ambiente propício para que, na década seguinte, o reggae fosse incorporado como mais uma fonte sonora válida e transformadora.

Fundindo tradições nacionais (como o baião e a cultura popular) com tendências estrangeiras (o rock psicodélico e a pop art). A Tropicália desafiava diversos padrões estéticos estabelecidos, como o uso da guitarra elétrica, criticado por seu estrangeirismo e rejeitado pelos puristas da MPB tradicional. Sua filosofia antropofágica de deglutir influências externas para criar algo novo criou um ambiente propício para que, na década seguinte, o reggae fosse incorporado como mais uma fonte sonora válida e transformadora.

Assim em 1972, o cantor e compositor Caetano Veloso gravou no Brasil a canção Nine Out of Ten no álbum Transa, com participações de Gal Costa e Angela Ro Ro, que é considerado um marco na história do reggae brasileiro. O cantor baiano conheceu o reggae durante o exílio em Londres em 1971, onde Bob Marley já era febre. O álbum Transa não possui superhit, a ponto do álbum ser deixado de lado nos shows de Caetano Veloso o Brasil. Mas o álbum foi reconhecido na época de 2010 com o culto aos grooves raros no país por DJs e colecionadores de vinil, tornando-se obrigatório nas listas de melhores discos brasileiros de todos os tempos, com uma experimentação cosmopolita de Londres de 70. Sobre isso, Caetano comentou:

Tem a Nine out of Ten, a minha melhor música em inglês. É histórica. É a primeira vez que uma música brasileira toca alguns compassos de reggae, uma vinheta no começo e no fim. Muito antes de John Lennon, de Mick Jagger e até de Paul McCartney. Eu e o Péricles Cavalcanti descobrimos o reggae em Portobelo Road e me encantou logo. Bob Marley & The Wailers foram a melhor coisa dos anos 70. Gosto do disco todo.

Artistas como Bob Marley, Jimmy Cliff e Burning Spear tornaram-se inspirações fundamentais para o compositor Gilberto Gil, por sua vez, aprofundou-se no estilo alguns anos depois, desenvolvendo uma conexão singular. A semelhança rítmica entre a batida do reggae e o xote, gênero nordestino de origem europeia (da schottische) dançado aos pares, tendo Luiz Gonzaga como sua primeira influência musical", o levou a experimentar fusões entre os dois estilos, ao ouvir reggae pela primeira vez, por meio de Gilberto Gil, o sanfoneiro Dominguinhos (1941 – 2013) definiu como um "xotezinho sem vergonha. Gil experimentou a fusão do reggae com o xote na canção No Norte da Saudade composta com Perinho Santana e Moacyr Albuquerque gravada no álbum Refavela de 1977 onde também gravou Sandra, também influenciado pelo ritmo jamaicano no álbum Realce (1979), grava uma versão em português da canção No Woman, No Cry de Bob Marley, intiulada Não chores mais. A versão brasileira ultrapassou 500 mil cópias vendidas. No mesmo ano, outras gravações são apontadas como reggae, são elas: Ide A Mim Dada de Raul Seixas, Hino de Duran de Chico Buarque e É Amor de Baby do Brasil, uma versão de Is This Love, Marley.

A presença do reggae foi tão grande na cidade de São Luís, que de acordo com a mestra em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) Karla Freire, através dos marinheiros que chegavam à zona portuária da cidade e faziam permuta de discos produzidos no país caribenho por serviços, que a cidade incorporou o gênero em seus eventos culturais e festivais. Segundo relatos, algumas moradores também conseguiam captar ondas-curtas das rádios caribenhas, devido a proximidade geográfica. O Maranhão possui a peculiaridade de ser o primeiro local no mundo onde este gênero musical é dançado a dois ("agarradinho” em referência a forma de dança dos ritmos caribenhos), além de levar a criação de uma vertente musical chamado de reggae maranhense. De acordo com a radialista Bebel Chaves, do programa Cultura Reggae, o estado brasileira do Pará, também é um dos berços do reggae no Brasil junto com o estado do Maranhão, devido a ligação cultural entre as regiões (que já foram da mesma região o Estado do Maranhão) e os navios do Caribe que aportavam nas zonas portuárias de suas capitais. A radialista afirma ainda que o reggae veio acompanhado dos gêneros merengue, zouk e, calipso. E o músico e cientista social Marcos Guimarães da banda Adão Negro também afirma que na Bahia o reggae chegou junto com esses ritmos caribenhos. Somado ao movimento negro em Salvador e a reafricanização do carnaval local com os blocos afros.

A mestra em Ciências Sociais da UFMA Karla Freire afirma que, inicialmente o reggae em são Luís era chamado de música estrangeira lenta, as pessoas não conheciam sua origem e, não entendiam a letra e a língua inglesa. Mas o reggae conquistou uma juventude negra moradora da periferia, que adotaram o gênero como elemento de identificação cultural pela semelhança com as manifestações culturais como o bumba-meu-boi e o tambor de crioula. Mas relação do gênero em geral com a população não foi tranquila, a elite local da então “cidade fundada por franceses” e “Atenas brasileira” discriminava o gênero e seus fãs, sendo associado por jornais à violência e ao consumo de drogas, aparecendo nas páginas policiais, além de ser acusado como uma cultura importada e aculturada. O cenário de preconceito começou a mudar na década de 1990, quando o reggae foi conquistando espaço nos clubes e o público da classe média.

Em 1974, os soteropolitanos consideram o Grupo Arembepe (formado pelos músicos Carlos Lima, Chico Evangelista, Kiko Tupinambá e, Dinho Nascimento) como a primeira banda brasileira que assumiu um gênero semelhante ao jamaicano gravando o álbum com a música Lá na Esquina, uma mistura de soul com reggae. Em seu álbum Tim Maia Racional, Vol. 1 (1975), dedicado a seita OVNI Cultura Racional, Tim Maia grava Imunização Racional (Que Beleza), uma fusão entre soul e reggae, algo que já ocorre no reggae jamaicano. Em 1977, Jards Macalé gravou Negra melodia, parceria com Waly Salomão em homenagem a Luiz Melodia, a canção está presente no álbum Contrastes. Arembepe mudou-se para São Paulo, onde Chico Evangelista em 1978 gravou o Reggae da Independência, uma música solo em homenagem ao dia 2 de julho. Enquanto isso no Pelourinho em Salvador, o policial Albino Apolinário criou em 1978 o Bar do Reggae.

No final da década de 1970, surgiram as primeiras bandas de reggae no Brasil, como o Grupo Karetas em Recife, Pernambuco, considerada a primeira brasileira exclusiva do gênero. Nesse período, também começaram a ser produzidos os primeiros álbuns brasileiros, influenciado pela visita de Bob Marley no país em 1980 pela gravadora alemã Ariola Discos no Brasil e pela turnê de Gilberto Gil junto com Jimmy Cliff (na Fonte Nova), que contribuíram para a rápida popularização do reggae no Brasil.

Na cidade de Belém (estado do Pará), Ras Margalho é considerado um dos pioneiros DJs de reggae que teve seu primeiro contato com o gênero na década de 1970 como percussionista, um projeto de preservação e valorização da história do gênero na capital paraense e no país com acervo de vinis raros Outros divulgadores do reggae na cidade há quase 30 anos foram: Ras Alvin, que possuía uma banca de discos no centro da cidade com raridades do ritmo jamaicano, e; Ras Fernando que fundou o primeiro clube de reggae no quintal da sua residência, chamado de “Toca do Reggae”. Que foi seguido por vários outros clubes: Espaço do Reggae, Coisa de Negro, Coco Verde, Porto Solamar, além da criação de programas de rádio, como o “Cultura Reggae” comandado pela radialista Bebel Chaves; “Reggae Vibration” com Roberto Pinheiro, e; “Sintonia do Reggae”, comandado por Enilson Nonato.

Década de 1980 Bob Marley esteve no Brasil em março de 1980, trazido pela gravadora Ariola para ações de divulgação. Aos repórteres, declarou: “O reggae tem a mesma raiz, o mesmo calor e o mesmo ritmo do samba". Apaixonado por futebol, jogou na Gávea ao lado de jogadores do Flamengo, como Zico e Júnior, comentou que tinha vontade de conhecer Gilberto Gil, o que acabou não acontecendo durante sua breve visita ao país. Especulou-se que Marley poderia retornar ao Brasil em setembro de 1980 para participar de um festival de reggae no Maracanãzinho, evento que nunca chegou a acontecer. Menos de dois anos após sua visita, em 11 de maio de 1981, Bob Marley faleceu aos 36 anos, vítima de um câncer.

Na década de 1980, Gil gravaria outra canções no estilo como Extra, do álbum de mesmo nome, lançado em 1983 e Vamos Fugir, coescrita com Liminha e gravada com o The Wailers no álbum Raça Humana de 1984.