Hermano José Hermano Guedes de Melo (Serraria, 15 de julho de 1922– João Pessoa, 21 de maio de 2015), conhecido artisticamente como Hermano José, foi um pintor, desenhista, gravador, crítico de arte, cenógrafo, poeta, ilustrador, professor, ativista cultural e ecologista brasileiro. Reconhecido por sua multifacetada contribuição às artes visuais e à cultura da Paraíba, foi uma figura central na formação de artistas e no fortalecimento das instituições culturais no estado.
Biografia Hermano José nasceu em 15 de julho de 1922, no Engenho Baixa-Verde, em Serraria, no Brejo paraibano. Filho de Raul Espínola Guedes e Maria Alice, foi o primogênito de uma família de doze filhos. Viveu a infância entre as paisagens verdejantes do engenho, onde teve os primeiros contatos com as linguagens visuais, como desenhos a guache, litogravura, quadros a óleo e muitos objetos em estilo art nouveau.
Em 1923, sua família passou a residir no ambiente semiárido de Caiçara, onde iniciou os estudos e foi registrado, tornando-se cidadão caiçarense. Foi também em Caiçara que passou a ser chamado de Hermano José, nome que sua mãe escolhera em homenagem a São Hermano José Steinfeld. Embora o nome não tenha sido incluído no registro de nascimento, acabou consolidando-se entre familiares, colegas e, mais tarde, como seu nome artístico.
Sua infância foi marcada por um ambiente musical e alegre, apesar da saúde frágil. Frequentemente doente, passava períodos afastado dos irmãos, mas via na solidão um refúgio tranquilo das incertezas do cotidiano. A vida na pequena cidade era pacata, interrompida apenas pelas festas religiosas, como a da padroeira Nossa Senhora do Rosário, ocasião de missas, novenas e apresentações musicais em que seus pais tocavam e cantavam no coro da igreja. Esses eventos marcaram profundamente sua memória e serviram de inspiração para sua sensibilidade artística.
Entre suas lembranças de infância, destaca-se a figura do tio Joaquim José Pereira de Melo, a quem considerava um segundo pai e a quem dedicou a poesia “O pai que podia ter sido meu – Tio Joaquim”.
A morte também foi uma presença marcante em sua infância. A perda de sua irmã Maria de Lourdes o impactou profundamente. Ao entrar sozinho na sala onde o corpo estava sendo velado, Hermano sente o seu cheiro e o das flores no ambiente, lembrança que o acompanhou por toda a vida e o fez evitar velórios, por remeter sempre àquela experiência dolorosa.
Para que continuasse seus estudos, em 1936, seu pai providenciou sua mudança para a capital do estado, João Pessoa, onde passou a residir com seus avós maternos e a estudar na Escola Santa Teresinha, onde iniciou seus primeiros desenhos e pinturas. Em 1937, seu pai adquiriu um imóvel na capital, onde a família passou a morar. Estudou também no Colégio Paraibano (atual Lyceu Paraibano), onde aperfeiçoou sua técnica de desenho, teve o primeiro contato com a aquarela e recebeu incentivo à escrita.
A cidade de João Pessoa foi aos olhos do adolescente Hermano um novo mundo, onde encontraria novos ideais que o perseguiram pela vida, sobretudo a preservação dos bens culturais e artísticos da cidade: a Praça do Ponto de Cem Réis (Praça Vidal de Negreiros), a balaustrada das Trincheiras e a Rua das Trincheiras. Todos esses patrimônios se tornaram fundamentais para o desenvolvimento de suas obras, embasada no respeito e na admiração pela beleza da cidade.
Em 1945 aos 23 anos foi admitido como funcionário do Banco do Brasil em Natal, período no qual realizou suas primeiras pinturas a óleo, como as obras Praia de Rendinha e Praia da Ponta Negra.
Hermano José faleceu em João Pessoa, em 21 de maio de 2015, aos 93 anos, em decorrência de uma pneumonia.
Formação e Carreira Em 1946, Hermano José retornou a João Pessoa, onde foi convidado a integrar o Conselho Diretor do Centro de Artes Plásticas da Paraíba. Como o mais jovem do corpo docente, teve a oportunidade de aprender com professores experientes, o que lhe permitiu desenvolver e aprimorar suas técnicas de pintura a óleo. Nesse período, sua produção artística se concentrava na poética figurativa, especialmente nas paisagens, que se tornaram um de seus principais temas. Além de ser o responsável pela formação de diversas gerações de artistas paraibanos, como Fred Svendsen, Miguel dos Santos, Flávio Tavares e Martinho Patrício.
Ainda na década de 1940, participou de exposições coletivas e foi premiado com uma bolsa de estudos pelo suplemento Correio das Artes, do jornal A União. Essa conquista lhe possibilitou viajar para Lisboa, Veneza, Paris, Roma e Florença em 1950, experiências que ampliaram significativamente sua visão estética e técnica.
Em 1955, iniciou suas atividades no teatro, atuando como cenógrafo e diretor geral. Nesse mesmo ano, dirigiu a peça “Cantam as Harpas do Sião”, de Ariano Suassuna, e assinou a cenografia de “O Grande Teatro do Mundo”, de Calderón de la Barca. Por sua cenografia em “A Corda”, recebeu medalha de prata no II Festival Nacional de Teatro, em Natal.
No ano seguinte, em 1956, ainda funcionário do Banco do Brasil, Hermano foi transferido para Guarabira, mas, com o apoio de um colega da instituição, conseguiu transferência para o Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar no setor de arquitetura. Paralelamente, aprofundou seus estudos artísticos: frequentou o Liceu de Artes e Ofícios, o curso de pintura de Ivan Serpa e o Ateliê de Gravura do Museu de Arte Moderna (MAM-RJ), onde recebeu uma bolsa para estudar gravura em metal. Entre 1959 e 1963, produziu 46 gravuras, consolidando-se como um dos grandes nomes da gravura brasileira.
Em 1962, foi premiado pela Piccola Galleria do Instituto Italiano de Cultura, no Rio de Janeiro, e em 1968, teve seu nome incluído no “Dicionário das Artes Plásticas no Brasil”, de Roberto Pontual. Em 1974, foi citado na Grande Enciclopédia Delta Larousse, e no ano seguinte, 1975, recebeu convite para expor na Embaixada do Brasil em Roma, reafirmando seu reconhecimento internacional.
Nesse mesmo ano, o então governador da Paraíba, Dr. Ivan Bichara Sobreira, convidou Hermano a retornar ao estado como assessor cultural, encarregado do projeto de criação do Museu de Arte para o Estado da Paraíba. Já aposentado e vivendo tranquilamente no Rio de Janeiro, o artista relutou em aceitar, mas acabou se convencendo pelos argumentos do governador e pelos sonhos da sua juventude.
Em 1979, Hermano voltou definitivamente a João Pessoa, instalando-se inicialmente na casa dos pais, enquanto sua residência própria era construída. Com o fracasso do projeto do museu, pensou em retornar ao Rio de Janeiro, mas foi incentivado por amigos a participar do processo seletivo para professores do Departamento de Artes da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde foi aprovado e passou a lecionar.
Na UFPB, fundou o Ateliê de Gravura em Metal e foi um dos idealizadores da Pinacoteca da Universidade, consolidada em 1987, sem a sua presença ou ao menos uma menção a quem lutou tanto pelo projeto. Posteriormente, tornou-se diretor da Pinacoteca, cargo que exerceu por quatro anos, período em que ampliou o espaço físico, duplicou o acervo, organizou diversas exposições e lançou novos artistas no cenário das artes paraibanas.
Outros marcos importantes de sua trajetória:
1948 – Realiza sua primeira exposição coletiva na Biblioteca Pública do Estado.
1950 – É premiado pelo Correio das Artes e indicado para a exposição Um Século da Pintura Brasileira.
1959 – Participa da exposição em homenagem aos artistas do Congresso Extraordinário da Associação Internacional de Críticos de Arte, no MAM-RJ.
1982 - Assumiu a coordenação de Artes Plásticas do Espaço Cultural José Lins do Rego.
Reconhecimento A partir dos anos 1960, sua produção em gravura ganhou destaque nacional e internacional. Participou da V Bienal de São Paulo (1961), da Bienal de Gravura de Santiago (1963), da exposição "Gravura Brasileira", em Londres, e teve obras adquiridas por instituições como o Museu de Arte Moderna de Nova York e o Museu Metropolitano de Nova York.
Em 1966 foi convidado pela The Vancouver Art Gallery para a Exposition Internationale d’Estampes, para a Bienal Americana de Arte, em Córdoba, e V Salão Internacional de Março Arte Atual, em Valência.
Em reconhecimento à sua trajetória, Hermano foi homenageado em diversos momentos: participou da Constituinte Paraibana de 1989, quando proferiu um discurso marcante na Assembleia Legislativa em defesa da preservação das riquezas naturais do estado; em 2001, o Colégio Pio X criou a Pinacoteca Hermano José em sua homenagem; e em 2002, recebeu o título de Honra ao Mérito durante o VII Festival Nacional de Arte, por proposição do Conselho Estadual de Cultura.
Ainda em 2002, realizou a exposição “A Coleção Hermano José”, apresentando seu vasto acervo ao público paraibano, na Pinacoteca da UFPB. Em 2009, o Zarinha Centro de Cultura inaugurou um espaço dedicado à pesquisa em artes plásticas que recebeu seu nome. Na ocasião, foi realizada a exposição “Retrospectiva 1940–2009” e exibido um documentário sobre sua vida e obra, em celebração à sua contribuição inestimável à cultura paraibana e brasileira.
Engajamento ambiental A partir da década de 1990, Hermano passou a se dedicar também à causa ambiental. As pausas entre sua vida artística e profissional eram preenchidas com sua luta ambientalista, como a luta a favor das baleias, das matas, pelo Centro Histórico, contra os espigões e pela preservação da falésia do Cabo Branco.
Em 1992, participou da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO 92), onde apresentou a obra “Cabo Branco: até quando?”, alertando sobre o desgaste da falésia paraibana.
Museu Casa de Cultura Hermano José Em seus últimos anos, Hermano José dedicou-se intensamente à preservação de seu acervo pessoal. Doou à Universidade Federal da Paraíba (UFPB) cerca de 6.500 obras, uma biblioteca com mais de 3.000 títulos, além de sua casa e ateliê, que passaram a abrigar o Museu Casa de Cultura Hermano José. O museu, equipamento cultural ligado à Universidade Federal da Paraíba (UFPB), nasceu dessa doação realizada ainda em vida pelo artista e docente da instituição.
Em 21 de abril de 2013, um grupo de intelectuais — entre eles Terezinha Fialho, Juan Cortez, Maria José Teixeira, Ana Maria Ferreira e Irismar Fernandes de Andrade — apresentou à Reitoria da UFPB um pleito formal solicitando a incorporação da casa/ateliê e do acervo de Hermano José ao patrimônio da universidade. O objetivo era assegurar a preservação e a valorização do legado artístico e pessoal do artista, transformando o espaço em um centro de memória e cultura voltado à difusão de sua contribuição para as artes visuais da Paraíba e do Brasil.
A missão do Museu Casa de Cultura Hermano José é preservar, conservar e difundir a memória, a obra e as coleções do artista, além de estimular a produção de conhecimento científico-cultural por meio de ações e projetos de Pesquisa, Ensino e Extensão.
Exposições
1960 – I Salão “O Retrato e a Obra”, Rio de Janeiro 1961 – V Bienal de São Paulo 1963 – Bienal Americana de Gravura, Santiago (Chile) 1963 – Gravura Brasileira, Londres 1966 – Bienal Americana de Arte, Córdoba (Argentina) 1992 – IV Exposição de Arte da Eco 92, Rio de Janeiro 2001 – VII Fenart, João Pessoa (Homenageado) 2011 – Exposição comemorativa de 90 anos, Galeria Gamela, João Pessoa 2013 – Retrospectiva na Usina Cultural Energisa, João Pessoa
Homenagens
2001 – Homenageado na Bienal de Gravura da Fenart 2002 – Título de Honra ao Mérito do Conselho Estadual de Cultura 2003 – Inauguração da Sala Hermano José no IFPB 2007 – Comenda Verde da Assembleia Legislativa da Paraíba 2009 – Inauguração da Biblioteca de Arte Hermano José, no Zarinha Centro de Cultura 2011 – Documentário Ícone da Arte e da Cultura Paraibana 2013 – Lançamento da biografia A Vida Luminosa de Hermano José, de Irismar Fernandes de Andrade