miniaturadaimagem|206x206px|Cachoeira de Kaaterskill de Thomas Cole Wilderness é um termo da língua inglesa que designa, de modo amplo, espaços percebidos como selvagens, não domesticados ou afastados do controle humano. Ele representa ideias importantes para a narrativa da nação dos Estados Unidos, sendo considerado um elemento da identidade e do nacionalismo desse país.

Diversas traduções são possíveis como "deserto", "ermo", "região inculta"Junqueira, Mary Anne (2018). Estados Unidos: Estado nacional e narrativa da nação (1776-1900). 2.ª ed. São Paulo: Edusp. pp. 77-96. ou "natureza selvagem". Contudo, o termo não possui tradução direta para o português. Entretanto, algumas palavras expressam sentidos próximos. No Brasil, “sertão” é um paralelo frequente: espaço vasto, misterioso e ambíguo, que pode representar tanto o atraso e a barbárie quanto a autenticidade e a resistência, como nas obras de Guimarães Rosa. Em ambos os casos, trata-se de lugares onde a civilização se confronta com seus limites e onde o homem se vê diante do desconhecido. Etimologia

Sua origem está no teutônico, vindo de wild-eõr que significa "besta selvagem", de onde no inglês antigo baseou o verbo to wilder (atualmente mais utilizado como to bewilder, traduzido como "perturbar", "desnortear", "desencaminhar", "extraviar", "tornar-se perplexo", "desencaminhar"). Desse verbo surge wilderness. O sufixo ness indica qualidade ou estado, de modo que wilderness designa menos um objeto e mais uma condição ou experiência de desnorteamento e estranhamento diante de ambientes não dominados pela civilização.Junqueira, Mary Anne (1998). Ao Sul do Rio Grande: Imaginando a América Latina em Seleções, 1942–1970 (Tese de Doutorado). Universidade de São Paulo.

Originalmente utilizado para se referir a florestas e lugares habitados por seres selvagens, o termo simultaneamente é aplicado aos sentimentos de desorientação que os homens sentem nesses lugares, o que conecta a palavra com o temores dos homens ligados certos lugares e vinculados à sobrevivência humana. miniaturadaimagem|Cristo no Deserto (em inglês Christ in the Wilderness) de Ivan Kramskoy A palavra tem seu uso então expandido, sendo utilizada na bíblia desde as primeiras traduções para o inglês, designando lugares áridos e desertos como o espaço que Moisés atravessa por quarenta anos e quando Jesus se isola por quarenta dias no deserto.

Qualquer lugar em que o homem se sinta desorientado pode ser classificado como wilderness, por isso o termo é visto aplicado a florestas, desertos, oceanos e até mesmo à paisagem lunar e paisagens urbanas.Woods, Robert Archey (1898), The city wilderness: a settlement study by residents and associates of the South End house, Cambridge: The Riverside Press.

Narrativa da nação e a Conquista do Oeste

Segundo o historiador Roderick NashNash, Roderick (1967). Wilderness and the American mind. Yale University Press. o conceito de wilderness foi um dos elementos fundamentais na formação da identidade e do nacionalismo dos Estados Unidos. Os primeiros colonos viam na natureza selvagem tanto uma ameaça quanto uma fonte de regeneração moral e física. Com a expansão territorial do país, o “homem civilizado” passou a ser representado como aquele que domava o wilderness, convertendo-o em espaço produtivo — ideia central na construção do mito da fronteira (Frontier Myth).

No século XIX, autores como Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau reinterpretaram o wilderness sob uma ótica transcendentalista, como lugar de contemplação e de encontro com o divino. Para Thoreau, “no wilderness está a preservação do mundo”. Essa visão influenciou o ambientalismo moderno e movimentos de conservação da natureza, que passaram a valorizar wilderness como espaço sagrado e necessário à sobrevivência humana.centro|miniaturadaimagem|754x754px|Em Meio a Sierra Nevada, Califórnia de lbert Bierstadt

Influência cultural

O wilderness também se tornou metáfora recorrente na literatura e na cultura visual. Em romances de autores como de Daniel Defoe e Joseph Conrad, o termo é utilizado abrangindo seu sentido enigmático. Para o cinema norte-americano, especialmente no gênero western, o wilderness simbolizou a fronteira a ser conquistada, justificando a expansão territorial e a destruição das populações indígenas sob a ideia de progresso.

O termo também pode referir-se a um estado psicológico ou existencial, como em “the wilderness of the mind” — estado de profunda agonia e sofrimento, ou até de loucura. Referências