O Wãre (ou Vãre) é o nome atribuído ao Centro Cultural Kaingang, um espaço situado na zona urbana de Londrina, Paraná (PR), com cerca de um hectare, nas proximidades do Ribeirão Cambé, na Avenida Dez de Dezembro. O espaço foi estabelecido oficialmente em 1999 para servir como um ponto de permanência e descanso para as famílias Kaingang que se deslocam à cidade. Atualmente, as moradias são distribuídas em ambas as margens do rio, sendo feitas de lona e madeira, entre outros materiais de construção recolhidos pela população.
O conceito tradicional de Wãre Os Kaingang são caçadores-coletores, e por isso têm uma característica cultural própria de mobilidade espacial. Originalmente, o território Kaingang era composto por uma rede de espaços interligados que incluía rios, serras, florestas e cemitérios. A ocupação se dava através de dois tipos principais de assentamentos: Emã (ou Jemã) e Wãre.TOMMASINO, Kimiye. Os novos acampamentos (Wãre) Kaingang na cidade de Londrina: mudança e persistência numa sociedade Jê. Revista Mediações, Londrina, v.3, n.2, p. 66-71. jul./dez. 1998.
O termo Emã se referia aos alojamentos fixos ou aldeias permanentes, geralmente situados nas regiões de campos. O Emã era o ponto de referência central de cada grupo local, onde se localizavam as roças e os cemitérios da comunidade. Nessas aldeias fixas, as famílias Kaingang se reuniam, especialmente no inverno, para a realização do kikikoi (ritual dos mortos) e de outras cerimônias importantes.
Enquanto isso, o Wãre designava os acampamentos temporários ou abrigos provisórios nas florestas e às margens dos rios. Os grupos que se deslocavam até estes abrigos permaneciam durante semanas ou meses para realizar atividades de caça, pesca e coleta.
A dinâmica de deslocamento era organizada de modo que parte do grupo de parentesco permanecia na aldeia fixa (Emã), enquanto a outra parte ocupava o Wãre. O ato de acampar em Londrina é considerado uma reedição, historicamente e culturalmente atualizada, dessa antiga tradição Kaingang. A mobilidade contemporânea para o ambiente urbano reflete a lógica de deslocamento de seus ancestrais, adaptada às necessidades contemporâneas.DORNELAS, Eline Andréa. A (Re)Territorialização Kaingang No Espaço Urbano a a Partir Dos Saberes-Fazeres: O Centro Cultural Vãre Em Londrina PR. Tese de graduação em Geografia. Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente, 2025.
Fundação { "type": "FeatureCollection", "features": [
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] }A presença Kaingang em Londrina é anterior à fundação do Wãre. A região da bacia do Rio Tibagi, onde Londrina se insere, era parte do vasto território de caça, coleta e pesca da etnia Kaingang antes da fundação da cidade. Relatos de 1859 já indicavam a presença de 40 indígenas Kaingang pescando em um pari (armadilha de pesca) no Rio Três Bocas.
Diante da urbanização da cidade e a necessidade econômica, a população Kaingang, majoritariamente oriunda da Terra Indígena Apucaraninha, começou a se deslocar para Londrina. Essa migração foi motivada pela insuficiência de recursos nas terras demarcadas e pela necessidade de obter renda imediata para comprar produtos e garantir a subsistência. No novo contexto urbano, a venda de artesanato mercantil (como cestos e peneiras de taquara) tornou-se a principal alternativa econômica. Essa busca por recursos levou os grupos Kaingang a acamparem provisoriamente em locais da cidade, como nas proximidades da rodoviária e de viadutos.
Tais acampamentos espontâneos, muitas vezes em grande quantidade, geravam reclamações e críticas da população e da mídia local. Diante desse cenário, a Prefeitura Municipal de Londrina, que já mantinha um programa de atendimento aos Kaingang desde 1993, buscou uma solução institucional, implantando formalmente o Wãre como espaço físico no ano de 1999. Sua criação foi coordenada pela Secretaria Municipal de Assistência Social, em colaboração com outras secretarias, como Saúde, Educação, Cultura, Meio Ambiente e Agricultura.RUIZ, Evandro José Narduci. Entre lá e cá, os Kaingang em meio a Terra e a Cidade: a Territorialização Indígena no Norte do Paraná. Dissertação (Mestrado em Geografia) - Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2019. Apesar da proposta original de ser um local temporário, a necessidade de sobrevivência fez com que o espaço se consolidasse como um local de moradia e produção contínua.
Estrutura atual A área inicialmente foi estruturada pela prefeitura para contar com quatro casas equipadas com água encanada e luz elétrica. No entanto, essas casas foram desativadas com o tempo, e atualmente o local abriga cerca de 80 moradias, referidas como "barracos", que carecem de uma infraestrutura segura. Os Kaingang utilizam materiais como madeira e lona na construção, frequentemente coletados no lixão. Internamente, os barracos geralmente são divididos em três partes: uma sala e dois quartos, separados por pedaços de cobertores, e o chão é forrado com lona para proteção.
Apesar das limitações do ambiente urbano, os Kaingang buscam preservar alguns aspectos de sua tradição na organização de seu espaço de vida. O fogão a lenha é um elemento culturalmente importante e é mantido ao lado de fora da casa, em um "puxadinho" improvisado com tijolos e pedaços de madeira. Esse espaço do fogão a lenha funciona como um local de socialização, onde os mais velhos se reúnem para contar histórias sobre como os Kaingang viviam no passado, mantendo viva a tradição da roda de conversa ao redor do fogo.
Embora adaptadas, a disposição das casas Kaingang é tradicionalmente orientada de acordo com o percurso do sol, alinhada nos eixos leste-oeste e norte-sul, dividindo os espaços masculinos e femininos. O barraco, assim, é uma tentativa de recriar e reproduzir o espaço da Aldeia, onde a vida dos Kaingang continua a ser tecida no cotidiano da cidade.
Cultura, Arte e Economia A cestaria Kaingang é uma arte doméstica tradicionalmente confeccionada pelas mulheres e é ensinada de geração em geração, como cestos de vários tamanhos e formas, balaios e peneiras. A venda destes artesanatos foi iniciada pelas avós das gerações contemporâneas, expandindo-se lentamente à medida que novas necessidades econômicas surgiam.
A arte do trançado sofreu reelaborações para se adequar às demandas do mercado. A taquara (matéria-prima ancestral, encontrada na aldeia) foi substituída pelo bambu (mais acessível na cidade). As tintas naturais (feitas de urucum ou cipós) foram trocadas por corantes artificiais comprados no mercado para criar cores vivas, conforme a exigência do consumidor. Além disso, cestos que antes tinham fundo arredondado e não tinham pés, passaram a ser feitos com pezinhos (o padrão atual) e em novos tamanhos e formatos (como fruteiras ou enfeites), para atender à demanda urbana.
Referências
Categoria:Caingangues