Juliano Moreira (Salvador, – Petrópolis,Biografia Juliano Moreira 1872-1902. ) foi um médico psiquiatra brasileiro, frequentemente considerado como o fundador da disciplina psiquiátrica e da psicanálise no Brasil, pelos avanços por ele promovidos. Moreira foi o primeiro professor universitário brasileiro a citar e incorporar a teoria psicanalítica ao ensino da medicina.
Biografia Nascido em Salvador, negro, filho de Galdina Joaquina do Amaral, ex-escravizada (alforriada) que trabalhava na residência do Dr. Luís Adriano Alves de Lima Gordilho, Barão de Itapuã, médico e professor catedrático de Clínica Médica na Faculdade de Medicina da Bahia. Após a morte de sua mãe, quando tinha 13 anos, foi reconhecido pelo seu pai biológico Manoel do Carmo Moreira Júnior, imigrante português e inspetor de iluminação pública.Juliano Moreira: modernidade e civilização na Primeira República Brasileira. Por Iara Nancy A. Rios. Bahia com Histórianº 3, março de 2016. ISSN 2525-295X Graças ao apoio do Dr. Gordilho, seu padrinho, fez concurso e ingressou no curso de medicina, em 1886.Brazil, T.K. (org.), Santana-Junior, E. F., Casais-e-Silva, L. L. Projeto Herois da Saúde na Bahia. Juliano Moreira 1872- 1933 Formou-se em 1891, aos 19 anos, com a tese "Sífilis Maligna Precoce". "Adentrei-me na Faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador, com menos de 15 anos de idade, conforme era possível na época, doutorando-me aos 22 janeiros". Em 1896, fez concurso para lente substituto da 12ª seção — cadeira de Moléstias Nervosas e Mentais — com a tese sobre as Discinesias Arsenicais e foi aprovado em primeiro lugar. Nesse momento, passou a figurar entre os redatores da Gazeta Médica da Bahia, que tinha Braz do Amaral como redator-chefe e José Francisco de Silva Lima como redator principal.<ref>Juliano Moreira e a Gazeta Medica da Bahia. Por Ronaldo Ribeiro JacobinaI e Ester Aida Gelman. História, Ciências, Saúde-Manguinhos',' vol.15 nº 4. Rio de Janeiro, outubro-dezembro de 2008. ISSN 1678-4758</ref> De 1895 a 1902, realizou cursos e estágios sobre doenças psiquiátricas na Alemanha, Inglaterra, França, Itália e Escócia — onde também fez visitas aos hospitais locais.Juliano Moreira: um psiquiatra negro frente ao racismo científico. Por Ana Maria Galdini Raimundo Oda e Paulo Dalgalarrondo. Revista Brasileira de Psiquiatria, vol. 22 nº 4. São Paulo, dezembro de 2000. ISSN 1809-452X Paralelamente, consultou com especialistas (pneumologistas) sobre sua própria doença, Tuberculose. Acentuando-se as crises, obteve uma licença e viajou à Europa, em busca de melhor tratamento. Posteriormente, internou-se num hospital na cidade do Cairo, onde conheceu Augusta Peick, enfermeira alemã, natural de Hamburgo. Os dois se casaram no início da década de 1910 e vieram para o Brasil.Santos, Raquel Pinheiro dos. Manoel Bomfim e Juliano Moreira: Aproximações e oposições ao racismo científico na Primeira República. São Gonçalo: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2014, p. 99.
A partir de 1900, representou o Brasil em congressos internacionais em: Paris; eleito presidente honorário do 4º Congresso Internacional de Assistência a Alienados, em Berlim; congressista brasileiro, em Lisboa (1906), Milão e Amsterdã (1907), Londres e Bruxelas (1913). alt=|esquerda|miniaturadaimagem|252px|Juliano Moreira mais jovem. Permaneceu como professor da Faculdade de Medicina da Bahia até 1902. Paralelamente, atendia nas cidades da região metropolitana de Salvador. Em 1903, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde, no período de 1903 e 1930, dirigiu o Hospício Nacional de Alienados e, embora não fosse professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, recebia os estudantes para o ensino de Psiquiatria. Entre eles: Fernandes Figueira (1863–1928),Antônio Fernandes Figueira. Fiocruz. Museu da Vida/Casa de Oswaldo Cruz.Franco da Rocha (1864–1933), Miguel Pereira (1871–1918), Afrânio Peixoto (1876–1947), Antônio Austregésilo (1876–1960), Henrique Roxo (1877–1969), Ulysses Vianna (1880–1935),Debates sobre assistência psiquiátrica na Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal. Por Ede C. Bispo Cerqueira. Anais do XVI Encontro Regional de História da Anpuh - Rio. Rio de Janeiro, 2014. Gustavo Riedel (1887–1934)Gustavo Kohler Riedel (1887-1934). Por Walmor J. Piccinini. História da Psiquiatria. Vol.13, nº 2, fevereiro de 2008. e Heitor Carrilho (1890–1954). Alguns deles viriam a atuar, de forma pioneira, na organização de diversas especialidades médicas no Brasil, tais como Neurologia, Psiquiatria, Clínica Médica, Patologia Clínica, Anatomia Patológica, Pediatria e Medicina Legal.
Durante seu trabalho como diretor do Hospício Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro, realizou mudanças significativas no tratamento dos internos: Humanização do atendimento, suspensão do aprisionamento, eliminação das grades nas janelas etc. Em 1911, o hospital recebeu o líder da Revolta da Chibata, João Cândido, para tratamento de uma "psicose de exaustão". "Almirante Negro", como era conhecido, cumpria pena na Ilha das Cobras, e foi transferido para aquela unidade de saúde, por motivo de doença mental. Permaneceu internado por dois meses, passando relativamente bem, fazendo amizade com enfermeiros, e conseguindo passear pela cidade. Ao final, recebeu alta e retornou ao presídio.João Cândido (Rio Pardo, RS, 1880 – Rio de Janeiro, RJ, 1969). Museu Afro Brasil.
Moreira defendeu a ideia de que a origem das doenças mentais se devia a fatores físicos e situacionais, como a falta de higiene e falta de acesso à educação, contrariando um pensamento racista em voga no meio acadêmico, que atribuía os problemas psicológicos da população brasileira à miscigenação. Destacou-se também na área da dermatologia. Foi o primeiro pesquisador a identificar a leishmaniose cutâneo-mucosa e buscou provar que a questão racial não motivava as doenças. Explorou a sifilografia e a parasitologia.
Apesar de avesso ao racismo científico, Moreira também aceitava certos aspectos do pensamento eugênico, por exemplo propunha que fosse afastada dos alienados, delinquentes, degenerados e alcoólatras a possibilidade de reprodução, através da prescrição da esterilização destes.
Participou da Escola Tropicalista da Bahia e contribuiu por uma década com o conteúdo da Revista Gazeta Médica da Bahia, da qual foi redator principal. Em 1894, fundou a Sociedade de Medicina e Cirurgia da Bahia e da Sociedade de Medicina Legal da Bahia. Como diretor no Hospício Nacional dos Alienados (1903-1930), no Rio de Janeiro, mudou a estrutura física do hospital e estabeleceu novos modelos assistenciais no interior dos hospícios. Criou laboratórios dentro dos hospitais e introduziu a técnica de punção lombar e do exame céfalo-raquidiano como diagnóstico neurológico (1906). Criou o Manicômio Judiciário em 1911.
Foi membro da Diretoria da Academia Brasileira de Ciências entre 1917 e 1929, ocupando o cargo de Presidente no último triênio. Foi também membro de diversas sociedades médicas em todo o mundo. Dentre as instituições internacionais das quais fez parte, incluem-se a Anthropologische Gesellschaft (Munique), a Societé de Medicine (Paris) e a Medico-legal Society'' (Nova York). alt=|miniaturadaimagem|268x268px|Juliano Moreira no livro Baianos Ilustres, de 1945. Em novembro de 1930, o novo presidente, Getúlio Vargas, dissolveu o Congresso Nacional, as câmaras e as assembleias estaduais. Nomeou interventores nos Estados, mantendo seus compromissos com as oligarquias dissidentes. Em 8 de dezembro de 1930, Juliano Moreira foi destituído da direção do Hospital Nacional de Alienados, onde também morava. Aposentado, foi morar num hotel em Santa Teresa. Manteve suas visitas a alguns de seus pacientes particulares no Sanatório Botafogo, de Ulysses Vianna, e as sessões da Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Medicina. Em 17 de novembro de 1932, retornou pela última vez à Sociedade que fundara, para uma sessão solene.Juliano Moreira. Geledés, 21 de julho de 2009.
Morte A tuberculose avançava. Miguel Couto, seu médico, decidiu encaminhá-lo à Serra de Petrópolis. Hospedou-se na residência de Hermelindo Lopes Rodrigues, um de seus maiores discípulos. Faleceu em 2 de maio de 1933, no Sanatório de Correias, na cidade de Petrópolis, onde se internara para tratamento de tuberculose. Não deixou filhos.
Homenagens póstumas Juliano Moreira foi escolhido patrono da cadeira 57 da Academia Nacional de Medicina Prêmio Juliano Moreira, instituído pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia Memorial Juliano Moreira, no Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, em Salvador. Patrono da cadeira 27 da Academia Pernambucana de Medicina. Colônia Juliano Moreira, instituição psiquiátrica que funcionou de 1924 a 2022 no Rio de Janeiro.
Legado Juliano Moreira revolucionou as concepções e métodos da psiquiatria no Brasil, notadamente no tocante à atenção às pessoas com problemas mentais. Entre seus legados incluem-se a formulação de propostas e novos modelos assistenciais psiquiátricos (1903); a aprovação da lei de assistência aos alienados, de 22 de dezembro de 1903; a fundação da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Ciências Afins (1905). No campo da antropologia, Juliano deixou um legado de combate ao racismo científico, por seu papel na refutação da crença de que as doenças mentais estariam ligadas à cor da pele das pessoas.
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