Construções causativas são estruturas gramaticais que exprimem uma relação de causa e efeito. O fenômeno da causatividade, no campo da linguística, pode ser compreendido como estruturas sintáticas, morfológicas e lexicais que são formadas a partir de verbos causativos ou de outras categorias de verbos, que estejam inseridos em uma situação causativa.

Causador e causado Uma situação causativa, é constituída por dois eventos, que devem ocorrer sequencialmente, em uma linha temporal (um após o outro) ou devem ter uma relação de dependência (um evento só pode ocorrer caso o outro ocorra). Assim o primeiro evento temporalmente, ou o evento que desencadeia o outro, é chamado de evento causador, enquanto o segundo evento, ou o evento desencadeado, é chamado de evento causado. Um exemplo prático da relação temporal e de dependência necessárias entre os eventos de uma construção causativa pode ser visualizado nas sentenças (1) e (2) abaixo:

“Eu disse para o João ir para a festa.” “Eu sei que o João foi para a festa.”

A primeira frase não se configura como uma sentença causativa pois não é possível comprovar que a ação de “João ir para a festa” ocorre temporalmente depois de “Eu disse”. De fato, é possível negar essa sentença com a estrutura “mas ele não foi” sem causar contradição (“Eu disse para o João ir para a festa, mas ele não foi”). A segunda frase também não pode ser considerada uma construção causativa porque a ação de “João ir para a festa” não depende do locutor saber que ele foi. Configuram-se, portanto, como estruturas causativas frases como:

“Marcelo fez o copo quebrar” “O chefe mandou o funcionário fazer o relatório”

Para além dos eventos causador e causado, é possível também delimitar o papel de duas entidades básicas participantes nas construções causativas. No evento causador, pode-se identificar um sujeito-agente, ou simplesmente um causador, já no evento causado, verifica-se um sujeito-paciente, ou simplesmente um causado, que é objeto da relação de causalidade. Entretanto, o estado de agente ou paciente dos sujeitos não corresponde, necessariamente, à sua função sintática. É possível, em sentenças causativas, haver um instrumento com função sintática de sujeito, como no conjunto de frases:

a. “João abriu a porta”

b. “João abriu a porta com a chave”

c. “A chave abriu a porta”

Existe também a possibilidade de que um sujeito seja paciente no evento causador e agente no evento causado, como em “A mãe fez a criança tomar banho”. No primeiro evento, a “criança” é sujeito da ação “fazer”, que tem como agente “A mãe”, mas no segundo evento é a “criança” o agente da ação “tomar banho”.

Classificação de construções causativas As construções causativas podem ser divididas em analíticas, morfológicas e lexicais. Causativas analíticas são construções que possuem dois predicados, como “Marcelo fez o copo quebrar”. O primeiro predicado expressa o evento causador, através do verbo “fazer”, e o segundo predicado expressa o evento causado, através do verbo “quebrar”. Já causativas morfológicas ocorrem através da afixação de um morfema causativo a um verbo, em geral intransitivo, transformando-o em sua contraparte transitiva causativa. Um exemplo desse tipo de estrutura causativa é encontrado na língua Karajá:

wyhy     r-a-krò-ra

flecha    3-in-quebrar-PST

“a flecha quebrou”

2. tii     wyhy        r-i-krò-ra

ele   flecha       3-TR-quebrar-PST

“ele quebrou a flecha”

Nos exemplos (1) e (2) acima, o morfema marcador de intransitividade “-a-” é substituído por “-i-”, tornando o verbo transitivo e, como consequência, causativo.

Por fim, as causativas lexicais podem ser definidas como estruturas que apresentam em um único item lexical os dois eventos da situação causativa. Em português, podem ser apontados como exemplos verbos supletivos, como “morrer” e sua contraparte causativa “matar”.

Muitas línguas apresentam mais de uma forma de expressar causatividade. Essa variedade parece estar conectada à necessidade de expressar diferentes sentidos. Shibatani sugere uma distinção entre causativas diretas e indiretas enquanto Comrie oferece um continuum, no qual estruturas lexicais seriam mais diretas e estruturas analíticas seriam menos diretas, com as estruturas morfológicas entre os dois extremos. De modo geral, define-se como causativas diretas construções em que a conexão entre o agente e a ação causada é direta, já as causativas indiretas são construções em que essa conexão não é tão próxima, podendo haver interferência de um agente/paciente além de outros fatores, como a intencionalidade do agente e o controle da situação.

Construções causativas no português brasileiro No Português Brasileiro, assim como na maioria das línguas indo-europeias, não são encontradas estruturas causativas morfológicas, somente causativas analíticas e lexicais.

Causativas analíticas no português brasileiro Bittencourt divide as construções causativas analíticas do português brasileiro em duas categorias: semi-analítica e analítica.

Construções analíticas As estruturas causativas analíticas no Português Brasileiro são estruturas bi-oracionais, com um verbo causativo na oração principal seguido por uma oração completiva. Entre os verbos causativos destacam-se “fazer”, “mandar” e “causar”, enquanto o complemento oracional pode ser uma oração finita subjuntiva ou infinitiva, exemplificadas, respectivamente, nas sentenças abaixo:

“O chefe mandou que o funcionário fizesse o relatório” “O chefe mandou o funcionário fazer o relatório”

Estruturas causativas analíticas, em geral, se aplicam a qualquer verbo intransitivo ou transitivo.

Construções semi-analíticas As construções semi-analíticas também são formadas por um verbo causativo e uma oração completiva infinitiva, no entanto, a relação estabelecida entre os predicados é mais estreita. O causado da oração completiva é agente nos dois tipos de oração, mas ele pode ser acusativo (1), se expresso pelo objeto direto, ou oblíquo, se expresso pelo objeto indireto (2):

“O assassinato brutal da minha filha me fez ir a Brasília atrás de justiça” “A polícia fez pintar o prédio aos/pelos pichadores”

Existem ainda estruturas semi-analíticas com oração completiva de predicado não-verbal, isto é: o complemento do verbo causativo é um predicado nominal, como no exemplo abaixo:

“O afastamento do Collor deixou o país aliviado”

Causativas lexicais no português brasileiro As causativas lexicais são construções em que o evento causador e causado são expressos por um único verbo, com sentido causativo inerente, isto é, proveniente do léxico. Todos os verbos causativos são transitivos, mas eles diferem em relação à forma, podendo ser ergativos/inacusativos, implícitos (derivados de substantivos ou adjetivos através de afixação) e supletivos.

Construções causativas ergativas ou inacusativas Construções causativas ergativas, ou construções causativas inacusativas são aquelas em que o verbo principal é um verbo de alternância incoativa-causativa, isto é: é um verbo inacusativo que se alterna para um verbo causativo. (Arrais, 1985) Um exemplo dessa alternância pode ser visto nas sentenças abaixo:

a. “O copo quebrou”

b. “Marcelo quebrou o copo”

2. a. “A criança acordou”

b. “A mãe acordou a criança”

As sentenças (1a) e (2a) são intransitivas, tendo como complemento somente um argumento interno (objeto direto), já as sentenças (1b) e (2b) são transitivas, possuindo um argumento interno e externo (o agente da sentença). Em geral, verbos inacusativos envolvem uma ideia de “mudança de estado”, como “quebrar” e “acordar” ou uma ideia de movimento, como “rolar”, “afundar”, “parar”, etc.

Construções causativas implícitas Outro tipo de construção lexical são aquelas com verbos causativos implícitos, que derivam de adjetivos ou substantivos através do processo de afixação. Em português brasileiro é possível apontar os sufixos “-izar” e “-ficar” e o prefixo “en/em-” como formadores de verbos causativos. Existem também outras derivações possíveis, através de adjunção parassintética do prefixo “a-” e do sufixo “-ec(cer)”.

“O marginal atemoriza as crianças.” “A água danificou os livros.” “José embebedou o amigo” “A umidade apodreceu a laranja”

Apesar dos morfemas afixados parecerem imprimir um sentido de causatividade nos verbos, não se pode dizer que eles sejam construções causativas morfológicas porque não há sistematicidade nesse tipo de formação (não são todos os substantivos e adjetivos que podem receber os afixos) e não é a afixação que torna o item causativo, mas sim a sua inserção em uma estrutura causativa.

Construções causativas supletivas As construções causativas supletivas são aquelas em que o verbo principal possui uma contraparte não-causativa. Alguns exemplos são os verbos “cair/derrubar”, “morrer/matar”, “ensinar/aprender”, entre outros.

“O menino derrubou o vaso” “Marcela matou o mosquito”

Existem alguns poucos exemplos negativos, como “ver/esconder”.

Construções causativas morfológicas em línguas indígenas Diversas línguas indígenas, localizadas dentro do Brasil, apresentam estruturas causativas morfológicas, como a língua Karajá, Karitiana, e Kaiowá. Nas seções abaixo será especificada a formação desses tipos de construção causativa.

Causativas morfológicas no Karajá A língua Karajá, do tronco linguístico Macro-Jê, é falada majoritariamente pelos habitantes da Ilha do Bananal, no Tocantins. As construções causativas em Karajá são marcadas através do morfema “-i-”, que altera a valência de verbos intransitivos, marcados pelo morfema “-a-”, tornando-os transitivos.

uladu       r-a-sàbè-ra

criança    3-IN-banhar-PST

“a criança banhou(-se)

2. isè              uladu          r-i-sàbè-ny-ra

mãe dele    criança       3-TR-banhar-VB-PST

“a mãe banhou a criança”

Existem também um segundo morfema causativo – “-dyỹ “, responsável pela marcação de causatividade indireta, em que o paciente do evento causador se torna agente do evento causado, se assemelhando a uma construção causativa analítica.

isè             uladu           r-i-sàbè-dyỹ-ny-ra

mãe dele   criança        3-TR-banhar-CAUS-VB-PST

“a mãe fez a criança banhar(-se)”

Causativas morfológicas no Kaiowá A língua Kaiowá é uma língua do primeiro sub-ramo da família linguística Tupí-Guaraní, sendo falada em reservas, fazendas, acampamentos e em comunidades periféricas na região do Mato Grosso do Sul. As construções causativas em Kaiowá são marcadas através de três morfemas distintos: o morfema “-mo”, transitivizador; o morfema “-ŋweɾe/ɾe”, causativo comitativo; e o morfema “-uka”, que causativiza verbos transitivos.

[ʃemboku´ʔe]

ʃe-mo-kuʔe

1ªsg-CAUS-mexer

“(eu) faço mexer”

2. [ʃe aŋweɾe´ko vaʔeɾã pẽtẽ´ʔĩ ´oga pɨʔa´hu]

ʃe a-      ŋweɾe-   ko              waʔe-ɾã          pẽtẽʔĩ   oŋa    pɨʔahu

eu 1ªsg-CAUS COMIT-ter   NOM-FUT    uma      casa   nova

“eu farei estar comigo uma casa nova (eu terei uma casa nova para mim)”

3. [aheʃau´ka kwatɨ´a]

a- h-eʃa -uka kwatɨa

1ªsg-DIR-ver-CAUS papel

“eu mostro (faço ver) o papel (caderno)”

O morfema causativo “-mo” altera a valência do verbo, transformando-o de intransitivo para transitivo. Já o morfema causativo comitativo “-ŋweɾe/ɾe”, menos produtivo na língua, acrescenta-se ao verbo copulativo “ko”, transitivizando, também, o verbo. Por fim, o morfema “-uka” é o único que modifica verbos que já são transitivos, transformando o agente do período original em dativo, enquanto o objeto mantém-se na posição original.

Causativas morfológicas em Karitiana A língua Karitiana é a última língua remanescente do subgrupo Arikém, dentro da família Tupí-Guaraní, sendo falada por um dos diversos grupos indígenas localizados em Rondônia, nos vales dos rios Candeias, Jamari e Jaci-Paraná.  As construções causativas em Karitiana são formadas a partir do morfema “m-”, que é aplicado somente a verbos intransitivos, alterando a sua valência.

“pymke’onyn ti’y j̃onso”