Adelaide Augusta Câmara (Natal, 11 de janeiro de 1874 - Rio de Janeiro, 24 de outubro de 1944) conhecida pelo pseudônimo Aura Celeste, foi poetisa, conferencista, contista, educadora e médium espírita brasileira. Trabalhou em várias sociedades espíritas beneficentes do Rio de Janeiro e fundou o Asilo Espírita João Evangelista no bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro, instituição da qual foi diretora até sua morte.

Vida Adelaide Augusta Câmara nasceu em 11 de janeiro de 1874 em Natal, Rio Grande do Norte. Criada em ambiente protestante, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1896, aos 22 anos, a convite da igreja que frequentava, para lecionar no Colégio Ram Williams. Formada como professora, passou a ministrar aulas particulares em sua residência, alfabetizando crianças em idade escolar.

Era filha do médico Henrique Leopoldo Soares da Câmara e de Maria Balbina Soares da Câmara que foram responsáveis por criá-la nos preceitos do protestantismo. Em 1906, casou-se com o médico Amaro Abílio Soares Câmara. Não há registros precisos sobre o número de filhos do casal nem sobre as datas de nascimento destes.

Entre 1922 e 1924, exerceu o cargo de inspetora do Curso Andrews, atual Colégio Andrews, também em Botafogo.

Em 13 de março de 1927, fundou o Asilo Espírita João Evangelista, em uma casa alugada no mesmo bairro. Adelaide permaneceu na direção da instituição até seu falecimento, em 24 de outubro de 1944, aos 70 anos de idade.

Morte Adelaide Augusta Câmara faleceu em 24 de outubro de 1944, no Rio de Janeiro, aos 70 anos. O escritor espírita Ramiro Gama descreveu seus últimos momentos segundo interpretações baseadas na doutrina espírita.

No livro Obreiros da Vida Eterna, de André Luiz (psicografia de Francisco Cândido Xavier), o capítulo “A Serva Fiel” apresenta uma narrativa espiritualizada sobre sua morte, mencionando que o processo teria sido amparado por entidades como Bezerra de Menezes e Irmã Zenóbia. Tais referências fazem parte do contexto religioso da obra e não possuem confirmação histórica independente.

Carreira

Atuação docente Relatos indicam que, no Colégio Ram Williams, Adelaide adotava métodos considerados participativos para a época (dinâmicas entre alunos, exercícios lúdicos e uso de diálogos cênicos), e que, posteriormente, teria fundado um curso primário em sua residência, frequentado por crianças de famílias da elite local.

Trabalho no Espiritismo Em 1898, dois anos após mudar-se para o Rio de Janeiro, Adelaide relatou as primeiras manifestações de sua mediunidade. Na época, o Espiritismo ganhava destaque no país e era tema frequente em jornais e livros. Segundo textos devocionais, teria conhecido os escritos espíritas por meio da coluna ''Estudos Filosóficos'', de Bezerra de Menezes, no jornal O Paiz, e passou a ler obras de Allan Kardec antes de frequentar o Centro Espírita Ismael.

Buscou orientação junto a Bezerra de Menezes, então figura de destaque na Federação Espírita Brasileira. Após esse contato, iniciou atividades de psicografia no Centro Espírita Ismael, vinculado à FEB. Segundo registros da literatura espírita, Bezerra teria afirmado que Adelaide “assombraria crentes e descrentes”, expressão frequentemente citada por seus biógrafos.

Após a morte de Bezerra de Menezes, em 1900, passou a trabalhar com o médium Inácio Bittencourt, participando das reuniões do Círculo Espírita Cáritas. Casou-se em 1906 com o médico Amaro Abílio Soares Câmara e, após a chegada dos filhos, afastou-se temporariamente das atividades nos centros espíritas, embora continuasse com trabalhos mediúnicos em casa. Nesse período, produziu, segundo relatos, os textos que originaram Do Além (em 21 fascículos) e Orvalho do Céu, adotando o pseudônimo Aura Celeste.

Em 1920, aos 46 anos, retomou suas atividades mediúnicas. Conforme Zêus Wantuil, dedicou-se intensamente à assistência espiritual a enfermos, sob a suposta orientação espiritual do médico Joaquim Murtinho. A partir desse período, passou a publicar os fascículos de Do Além, com mensagens atribuídas a espíritos. Posteriormente lançou Palavras Espíritas, Rumo à Verdade e Vozes d’Alma, reunindo conferências e poesias. Há menções de que teria custeado viagens doutrinárias e publicado em periódicos e folhetos de circulação popular.

Asilo Espírita João Evangelista A partir de 1924, Adelaide direcionou esforços à assistência social, especialmente a órfãos e idosos. Após reunir recursos e apoio de colaboradores, fundou em 13 de março de 1927 o Asilo Espírita João Evangelista, em Botafogo. O evento de inauguração contou com a presença de Dr. Guillon Ribeiro, então segundo secretário da Federação Espírita Brasileira, que representou a instituição. Em seu discurso de abertura, Adelaide afirmou estar realizando “um antigo sonho de ser mãe de órfãos”, frase registrada por fontes espíritas da época.

Permaneceu como diretora do asilo até sua morte. A instituição manteve atividades educacionais e de assistência sob orientação espírita.

Mediunidade De acordo com Zêus Wantuil, Adelaide apresentava múltiplas formas de mediunidade, incluindo psicografia, incorporação, vidência e cura. Há registros de relatos sobre supostos fenômenos de bilocação (desdobramento fluídico) atribuídos a ela em cidades como Juiz de Fora e Corumbá. Essas narrativas constam em obras de divulgação espírita, sem comprovação científica independente.

Obras Adelaide publicou diversas obras sob o pseudônimo de Aura Celeste. Suas mais conhecidas obras são:

Vozes d’Alma; Sentimentais; Aspectos da Alma; Palavras Espíritas; Rumo à Verdade; Luz do Alto; Orvalho do Céu; Do Além.

Entre as contribuições identificadas na imprensa espírita, consta o poema Mysticismo (grafia da época), publicado no periódico Reformador em 1º de fevereiro de 1922 (ano XL, n.º 3, p. 48). Há referências a poemas incluídos em antologias mediúnicas, como Antologia dos Imortais (psicografia de Francisco Cândido Xavier).

Recepção e estudos Pesquisas recentes sobre espiritismo e literatura feminina na América Latina (1874–1920) situam Aura Celeste no contexto de autoras que utilizaram a mediação mediúnica e a psicografia como estratégias de inserção editorial e circulação de ideias.

Segundo Ronald Sanoja Cáceres (2025), a produção mediúnica de autoras como Zilda Gama e contribuições de Aura Celeste no Reformador ilustram como o espiritismo funcionou, no período, tanto como recurso de mercado quanto como espaço de enunciação para mulheres em ambientes literários marcados por assimetrias de gênero. No caso de Aura Celeste, o estudo registra o poema Mysticismo (1922) com versos em ortografia da época, apontando a tematização da experiência mediúnica e a fusão entre subjetividade poética e discurso espiritual.

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