Guilhermina Johnson Rocha (Santana do Livramento, Rio Grande do Sul, 4 de março de 1884 - Rio de Janeiro, 18 de agosto de 1938) foi uma dramaturga, tradutora e atriz brasileira. Foi atuante na cena teatral do Rio de Janeiro durante as primeiras décadas do século XX, sendo considerada uma das pioneiras na escrita de textos para o teatro, transitando entre o drama, a comédia e o gênero de revista.ANDRADE, Valéria Andrade Souto-Maior. Guilhermina Rocha. In: MUZART, Zahidé Lupinacci (Org.). Escritoras brasileiras do século XIX: antologia. Vol. II. Florianópolis: Editora Mulheres, 2004. p. 1075-1093. FISCHER, Antenor. A literatura dramática do Rio Grande do Sul (de 1900 a 1950). 2007. Tese (Doutorado em Letras) - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2007. Acesso em: 27 de dezembro de 2025. Biografia Embora nascida no Rio Grande do Sul, Guilhermina Rocha construiu sua trajetória artística e intelectual no Rio de Janeiro, para onde se mudou quando tinha em torno de 19 anos. Chegou à capital federal em 1902, quando iniciou sua atuação como atriz amadora na companhia teatral do Hodierno Club. Em 1904, estreou profissionalmente na Companhia Dramática Portuguesa, dirigida por Eduardo Vitorino. Durante seu período de atuação como atriz, integrou o elenco das principais companhias em atividade na cidade. Em 1910, participou do elenco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
A relevância de Guilhermina Rocha no meio teatral foi reconhecida desde o início de sua carreira por figuras centrais da vida intelectual brasileira. Pouco antes de sua estreia profissional como a princesa de Terremonde, no drama Princesa Georges, de Alexandre Dumas Filho, encenado no Teatro São José em setembro de 1904, Guilhermina recebeu uma recomendação de Olavo Bilac, que a apresentou a Artur Azevedo como portadora de “uma verdadeira vocação” para o teatro. Azevedo, um dos principais nomes da dramaturgia brasileira do período e formador de opinião na cena teatral, assistiu à encenação de As Lágrimas de Maria, drama de Francisco Corrêa Vasques no qual Guilhermina Rocha interpretava a personagem Angelina, e tornou pública sua admiração pela atriz em sua coluna no jornal A Notícia.
Foi associada à Casa dos Artistas e co-fundadora da Federação das Classes Teatrais. Interrompeu sua carreira artística em 1922, quando se diplomou como médica. Posteriormente atuou como subinspetora sanitária da Marinha Mercante.
Produção teatral A produção de Guilhermina Rocha é notável pela diversidade de gêneros e pela presença regular no circuito teatral carioca das primeiras décadas do século XX. Sua estreia ocorreu com Volúpia (1914), drama em três atos publicado no Rio de Janeiro pela editora Pimenta de Mello, que marca o início de sua atuação como dramaturga. Em 1915, publicou a tradução da comédia Quarto separado, de Pierre Weber, representada no Teatro Recreio Dramático. No ano seguinte, 1916, publicou sua obra original Dominó negro, episódio dramático em ato único encenado no mesmo teatro, e A ressaca. Nos anos seguintes, Guilhermina Rocha aproximou-se de formas mais populares e musicais, com Caradura, fantasia musical encenada no Teatro São José em 1918, e, posteriormente, com O Perereca, revista apresentada no mesmo teatro em 1921.
O drama Volúpia: drama em 3 atos (1914) causou impacto por abordar temas considerados ousados para a época, como a obsessão e conflitos passionais. O texto foi elogiado pela crítica contemporânea, incluindo Goulart de Andrade, que em uma das cartas após o prefácio da autora no folheto, fala sobre a qualidade e fluência do diálogo.
Dominó Negro (1916) foi associado pela imprensa da época ao gênero do Grand Guignol em razão de sua inspiração em fatos reais, da narrativa concisa e do desfecho violento. A protagonista Elvira, aproveitando a viagem do marido, Ernesto, combina com o amante Otávio de passar o carnaval em sua casa, vestida com um dominó negro. Antes de sua chegada, porém, uma ex-namorada de Otávio surge inesperadamente, também usando a mesma fantasia, desencadeando a confusão que leva à violência final.
A associação do enredo ao chamado crime passional reforça a proximidade da peça com o que a crítica teatral contemporânea tem denominado estética do feminicídio, central no Grand Guignol, no qual a figura da mulher violentada ou assassinada era recorrente. Esse tipo de teatro operava com tipos femininos recorrentes — a vítima inocente e a mulher considerada perigosa — que colocavam a personagem feminina em uma posição ambígua de vítima sem compaixão. Em Dominó Negro, ambos os modelos podem ser identificados, embora a violência recaia sobre a figura inocente. Ao optar por um desfecho em que a mulher não é morta, a peça tem sido interpretada como uma inflexão crítica diante da naturalização da violência contra as mulheres, combinando as formas do Grand-Guignol francês com uma tematização situada no contexto brasileiro.
Além do drama, Guilhermina destacou-se na comédia, fantasia musical e teatro de revista. Sua escrita é caracterizada por um diálogo ágil e pela construção de personagens femininas que, muitas vezes, desafiavam as convenções sociais da Belle Époque brasileira.
Obras
Peças teatrais Volúpia. Drama em 3 atos. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1914. Dominó negro. Episódio dramático, ato único. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1916. A Ressaca. Cenas de Copacabana. Ato único. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1916. O Caradura. Fantasia musical. 1918 O Perereca. Revista. 1921
Tradução Quarto separado. Comédia de Pierre Weber. Tradução de Guilhermina Rocha.
Ligação externa
Volúpia – Drama em três atos. Com atualizações ortográficas
Referências
Categoria:Escritoras do Brasil