Em 7 de janeiro de 2026, Renée Nicole Macklin Good, uma cidadã estadunidense de 37 anos de idade, foi morta a tiros por um agente do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, sigla em inglês) em Minneapolis, Minnesota. Good estava em seu carro no local de uma operação do ICE que estava em andamento quando foi abordada por agentes que, segundo uma testemunha ocular, deram ordens contraditórias. Quando Good começou a sair do local, um agente estendeu a mão pela janela do lado do motorista. Um outro agente disparou três tiros e matou Good enquanto o veículo passava por ele.
Autoridades federais e o presidente Donald Trump defenderam o homicídio, afirmando que o agente agiu em legítima defesa e que Good tentou atropelá-lo. Essa versão foi contestada por testemunhas oculares e por análises de vídeos feitas por alguns jornalistas.
A caracterização do homicídio como justificado também foi contestada por figuras locais e legisladores do Partido Democrata, estes últimos que pediram uma investigação criminal. O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, e o governador de Minnesota, Tim Walz, pediram ao governo federal que encerrasse sua presença na cidade. Milhares de pessoas protestaram em Minneapolis e outros milhares protestaram em várias cidades, como Chicago, Nova York e Washington, D.C.
Contexto
Em 6 de janeiro, o Departamento de Segurança Interna (DHS, sigla em inglês) anunciou o que chamou de a maior operação de fiscalização de imigração já realizada, enviando 2 mil agentes para a região metropolitana de Minneapolis-Saint Paul. O reforço incluiu agentes da Divisão de Investigações de Segurança Interna focados em suspeitas de fraude. A vereadora de Saint Paul, Molly Coleman, descreveu o primeiro dia da operação como "diferente de qualquer outro dia que já vivemos". Uma testemunha ocular do tiroteio disse: "As pessoas em nossa vizinhança estão sendo aterrorizadas pelo ICE há seis semanas". A morte de Good foi a nona vez que agentes do ICE abriram fogo contra pessoas desde setembro de 2025. Outras quatro pessoas foram mortas durante operações federais de deportação.
Renée Good Renée Nicole Macklin Good era uma cidadã estadunidense de 37 anos de idade. Era escritora e poetisa orinária de Colorado Springs, Colorado, que morava em Minneapolis com sua esposa e filho de seis anos. De acordo com um vizinho, Good havia morado anteriormente em Kansas City, Missouri, antes de se mudar para o Canadá com sua família após a vitória de Donald Trump na eleição presidencial de 2024. Mais tarde, ela se mudou para Minneapolis. Good havia sido casada duas vezes. Ela e seu primeiro marido tiveram dois filhos; ela e seu segundo marido tiveram um filho. Seu segundo marido morreu em 2023, aos 36 anos. Good foi descrita pela CNN como uma "cristã devota".
A secretária de segurança do DHS, Kristi Noem, alegou que Good estava "perseguindo e atrapalhando o ICE o dia todo". Vários funcionários do estado de Minnesota, incluindo o procurador-geral de Minnesota, Keith Ellison, disseram que Good estava atuando como observadora legal das atividades do ICE no momento do incidente.
O ex-marido de Good disse que ela estava voltando para casa depois de deixar o filho na escola e, ao chegar em casa, "depararam-se com um grupo de agentes do ICE". O ex-marido e a mãe de Good disseram que ela não estava envolvida em protestos contra as atividades do ICE; o ex-marido disse: "ela não era uma ativista".
Atirador No dia seguinte ao tiroteio, o Minnesota Star Tribune identificou o agente do ICE envolvido como Jonathan Ross. Seu nome não foi divulgado publicamente pelas autoridades federais, mas foi identificado pelo Tribune por meio de registros judiciais. Em uma coletiva de imprensa na Casa Branca, o vice-presidente J. D. Vance havia declarado anteriormente que o atirador havia sido ferido em uma abordagem policial seis meses antes deste incidente, o que os levou a encontrar o caso que descrevia tal incidente. Em 17 de junho de 2025, em um incidente não relacionado a Good, Ross foi arrastado por 45 metros e ferido por um veículo quando quebrou a janela do automóvel e tentou destrancar a porta; Ross recebeu 33 pontos. Documentos judiciais listaram sua data de início no ICE como 2016.
Incidente miniaturadaimagem|Vídeo gravado pelo agente que atirou em Good
O assassinato de Good ocorreu na Avenida Portland, entre as ruas 33 e 34, no bairro Central de Minneapolis, a poucos quarteirões de onde a vítima morava. Às 9h35min05s, o veículo de Good estava parado na Avenida Portland quando ela começou a fazer uma curva, permitindo que quatro carros a ultrapassassem na faixa adjacente. De acordo com testemunhas, quatro agentes do ICE, em dois veículos, se aproximaram de um Honda Pilot bordô que bloqueava uma das faixas da avenida. O agente envolvido no tiroteio estava inicialmente filmando uma "discussão acalorada" entre ele, Good e sua esposa, Rebecca Good.
Vídeos do incidente mostram dois agentes se aproximando do carro, que estava parado transversalmente na estrada havia cerca de três minutos. Good acenou repetidamente para que os veículos do ICE passassem por ela, quando dois agentes saíram do veículo e ordenaram que ela saísse do carro. Testemunhas oculares disseram que os agentes do ICE estavam dando ordens contraditórias a ela. Um agente disse a Good para se afastar do local dirigindo, enquanto outro gritava para ela sair do carro. Com base em três gravações do incidente compartilhadas online, dois agentes caminharam até o carro de Good. Alguém foi ouvido nas gravações de vídeo dizendo "saia do carro, porra". A ABC News confirmou que Ross disparou sua arma contra Good inicialmente às 9h37min13s.
Um agente posicionou-se perto da frente do veículo e outro agente tentou abrir a porta do carro e alcançar algo pela janela. Enquanto o segundo agente segurava a porta do lado do motorista, Rebecca tentou voltar para o banco do passageiro, embora Good tenha dado ré brevemente e depois avançado enquanto girava o volante. O carro então começou a se mover para frente, afastando-se do agente à frente, que disparou três tiros contra o carro enquanto este passava pelo agente. Não está claro se o veículo chegou a entrar em contato com o atirador; análises separadas das imagens de vídeo feitas pelo The Washington Post e pela BBC foram inconclusivas, enquanto uma análise do The New York Times concluiu que o agente não foi atingido.
Após o tiroteio, o carro continuou seguindo pela rua até bater em um outro carro estacionado e em um poste de luz. Momentos depois, uma voz masculina disse: "vadia do caralho".
O atirador vigiou o carro a pé após os disparos, circulou-o e caminhou pela área por mais de um minuto após disparar sua arma. O atirador disse a outros agentes para "ligarem para o 911", depois entrou em um veículo do ICE e fugiu antes da chegada da polícia local ou da equipe médica de emergência. O New York Times relatou em sua análise de um vídeo do incidente que, após o tiroteio, "vários agentes, incluindo o agente que abriu fogo, entraram em seus veículos e foram embora, aparentemente alterando a cena do crime em andamento". A secretária do DHS, Kristi Noem, alegou que o agente do ICE que disparou os tiros foi tratado em um hospital por ter sido "atingido pelo veículo" e posteriormente liberado.
Agentes do ICE impediram que vários transeuntes, incluindo um que se identificou como médico, prestassem assistência médica a Good. Nenhuma assistência médica foi prestada por cerca de 15 minutos e quando os socorristas médicos chegaram, seus veículos não conseguiram acessar o local devido aos veículos da ICE e eles tiveram que prosseguir a pé até o carro de Good. Good foi declarada morta após ser internada no Centro Médico do Condado de Hennepin com múltiplos ferimentos de bala na cabeça.
Investigação Em 8 de janeiro, o chefe do Departamento de Investigação Criminal de Minnesota revelou que o FBI havia revogado seu acesso às provas do tiroteio, revertendo um acordo anterior de que uma investigação conjunta seria realizada pelo BCA e pelo FBI. O Comissário de Segurança Pública de Minnesota disse que "seria extremamente difícil, senão impossível" para a investigação local continuar "sem a cooperação do governo federal". A promotora-chefe do condado de Minneapolis, Mary Moriarty, disse que seu escritório estava "explorando todas as opções para garantir que uma investigação em nível estadual possa continuar".
Consequências miniaturadaimagem|Vigília em Minneapolis em homenagem a Renée Good As escolas públicas de Minneapolis cancelaram as aulas pelo resto da semana, citando preocupações com a segurança após o tiroteio e o uso de spray de pimenta e balas de pimenta pelo ICE contra alunos da Roosevelt High School. Professores da escola disseram que agentes armados do ICE algemaram dois membros da equipe.
Protestos miniaturadaimagem|Protesto contra o ICE em Manhattan no dia seguinte ao homicídio de Good. A morte de Good ocorreu a cerca de 1,6 quilômetro do local onde George Floyd foi assassinado pelo policial de Minneapolis Derek Chauvin em 2020, o que desencadeou protestos mundiais contra a brutalidade policial e a justiça racial. O assassinato de Good atraiu uma multidão de centenas de manifestantes ao local. As forças de segurança federais dispararam gás lacrimogêneo e spray de pimenta em Minneapolis e alguns manifestantes atiraram bolas de neve. Em uma coletiva de imprensa, o governador Walz anunciou que havia começado a preparar a Guarda Nacional de Minnesota. À noite, a multidão no local onde Good foi morto cresceu para milhares, incluindo membros do Conselho Municipal de Minneapolis.
Em 8 de janeiro, uma multidão bloqueou a rua em Minneapolis onde Good foi assassinada para realizar uma vigília em sua memória. Funcionários do governo da cidade removeram as barricadas pouco depois, mas preservaram um memorial erguido. Mais protestos ocorreram em outros lugares, incluindo em Buffalo, Chapel Hill, Carolina do Norte, Durham, Carolina do Norte, Kansas City e Los Angeles.
Reações
Federal A porta-voz do DHS, Tricia McLaughlin, alegou que um agente do ICE, "temendo por sua vida", atirou na mulher em legítima defesa depois que ela supostamente tentou atropelá-los, num ato que McLaughlin descreveu como "um ato de terrorismo doméstico". O DHS afirmou que vários agentes federais ficaram feridos, mas que se recuperariam. Uma reportagem publicada pelo The Guardian no mesmo dia afirmou que "não havia sinais visíveis nos vídeos" de ferimentos em agentes do ICE no incidente.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, descreveu Good como "muito desordeira, obstruindo e resistindo, que então atropelou violentamente, deliberadamente e cruelmente o agente do ICE, que parece ter atirado nela em legítima defesa". Ele prosseguiu dizendo que achava "difícil acreditar que [o agente] esteja vivo, mas agora está se recuperando no hospital". O agente do ICE em questão permaneceu de pé durante todo o incidente. Quando repórteres do The New York Times questionaram sua conclusão durante uma entrevista no Salão Oval, Trump mostrou-lhes um vídeo do incidente. Os repórteres observaram que o vídeo não mostrava o agente sendo atropelado e ele respondeu: "Bem, eu — do jeito que eu vejo", e então disse: "É uma cena terrível, acho horrível de assistir. Não, eu detesto ver isso". O vice-presidente J. D. Vance chamou a morte de Good de "uma tragédia criada por ela mesma" e a chamou de "vítima da ideologia de esquerda". A Secretária do DHS, Kristi Noem, alegou que Good "atacou [o ICE] e aqueles que os rodeavam e tentou atropelá-los com seu veículo". "Um de nossos agentes agiu rapidamente e atirou em legítima defesa para proteger a si mesmo e às pessoas ao seu redor." No dia seguinte, Noem anunciou a Operação Salvo, que aumentaria a presença do ICE na cidade de Nova York.