A Rebelião de Cusco de 1814 foi um episódio da guerra de Independência do Peru em que ocorreu a sublevação de parte da província de Cusco, incluindo a intendência de mesmo nome e as intendências de Huamanga, Arequipa e Puno, bem como parte da província de Charcas. A rebelião de Cusco adotou um caráter separatista, não só em relação à monarquia espanhola, mas também perante a autoridade do vice-reino de Lima, governado por José Fernando de Abascal y Sousa.
O movimento defendia a ideia de um Estado independente com a capital em Cusco e, diferente de insurreições andinas anteriores, não buscava restaurar a dinastia incaica, mas construir um Estado cuja orientação oscilava entre a soberania da república e a manutenção das instituições teocráticas e aristocráticas, como o cacicazgo.
A origem da rebelião remonta uma disputa anterior envolvendo os membros do conselho municipal de Cusco (Ayuntamiento) e a Real Audiencia del Cusco em relação às aplicações da Cortes de Cádis de 1812. Como consequência dessa disputa houve a prisão dos reclamantes do conselho municipal, como os irmãos Angulo.
Com o início da rebelião, os irmãos buscaram apoio do cacique de Chincheros, Mateo Pumacahua, para formar a Junta de Governo em Cusco. Eles também apoiaram o governo revolucionário de Buenos Aires, em busca de um aliado. Sob o comando de José Angulo, foram organizadas três expedições: a primeira tomou a cidade de La Paz, a segunda tomou a cidade de Huamanga e, por fim, a terceira expedição ocupou Arequipa, feita por Pumacahua. Tal evento ocorreu entre 1814 e 1815, sendo reprimido pelas forças realistas do Vice-reino do Peru.
Antecedentes miniaturadaimagem|O Vice-rei José Fernando de Abascal y Sousa. As tensões políticas entre o conselho municipal de Cusco (Ayuntamiento), favorável à autonomia, e a Real Audiencia del Cusco, favorável ao Vice-Reino de Lima, eram anteriores a 1814. A Constituição de Cádis chegou a Lima em 1812, trazendo algumas mudanças, como a redefinição de soberania e o estabelecimento de um sistema de representação popular. A ideia de representação popular ia de encontro aos interesses da Real Audiencia e do vice-rei de Lima, José Fernando de Abascal y Souza.
Ao longo de 1813, os debates entre o conselho municipal e a Real Audiencia se intensificaram após os membros do conselho apontarem que as determinações da Carta de Cádis não estavam sendo aplicadas. Nesse contexto dos debates, alguns nomes surgiram como líderes José Angulo, Vicente Angulo, Mariano Angulo, José Gabriel Béjar, Juan Carbajal e Pedro Tudela. José e Vicente Angulo eram oficiais do exército realista que estava em Abancay. O conselho demonstrou interesse em estabelecer uma assembleia provincial (diputación provincial) em Cusco, independente do governo vice-real de Lima, conforme a Constituição de 1812 — até sua revogação com a restauração absolutista na Espanha.
No dia 9 de outubro de 1813, como a primeira tentativa de insurreição, alguns membros do conselho cusquenho — como os irmãos Angulo, José Gabriel Béjar e outros — foram exigir ao presidente da Real Audiencia del Cusco a aplicação da Constituição de Cádis. Como consequência, os reclamantes foram presos sob as ordens de Martín de la Concha y Jara, governador da intendência de Cusco. Houve o planejamento de uma segunda tentativa de insurreição para o dia 5 de novembro de 1813, mas foi delatada. Porém, um grupo de insurgentes tentou continuar com o plano e tomar a praça principal de Cusco, mas foi reprimido pelas tropas realistas, resultando na morte de três pessoas do primeiro grupo.
Formação da junta de governo de Cusco miniaturadaimagem|Os irmãos José, Vicente e Mariano Angulo, líderes da Rebelião de Cusco de 1814 Na madrugada de 3 de agosto de 1814, o quartel onde Vicente Angulo e outros reclamantes estavam presos, como José Gabriel Béjar e Manuel Hurtado de Mendoza, foi tomado por revoltosos armados, marcando o início da insurgência cusquenha. Após serem libertados, os irmãos Angulo buscaram o apoio do cacique de Chincheros, Mateo Pumacahua, para formar a Junta de Governo em Cusco, expandindo a rebelião pelas armas e politicamente, ganhando dimensões urbanas e rurais.
Após a tomada de poder pelos irmãos Angulo em agosto de 1814, a rebelião passou a ter um caráter independentista em relação à monarquia espanhola, além de apoiar o governo revolucionário de Buenos Aires, em busca de um aliado, mesmo antes deste ter proclamado sua secessão.
Com a tomada de poder dos Angulo, o presidente da Audiencia e o regente Manuel Pardo Ribadeneira foram depostos, com José Angulo assumindo a posição de líder-mor da revolução, como presidente do conselho do autogoverno e capitão-general dos exércitos de Cusco, Puno, Guamanga e La Paz. Ao mesmo tempo, os chefes militares e demais autoridades leais ao vice-rei foram presos sob a supervisão dos líderes revolucionários.
A insurreição foi previamente acordada para ter início simultâneo em Cusco, Lima e no Exército Real do Peru. Em Lima, José Matías Vázquez de Acuña, Conde de la Vega del Ren, falhou em sua tentativa de revolta. Em Tupiza, por outro lado, no campo de Joaquín de La Pezuela, Coronel Saturnino Castro se transferiu para o acampamento do Batalhão "El General", onde tentou instigar uma revolta, mas não obteve adesões o bastante, foi descoberto e morto a tiros.
A proclamação de Cusco se deu no dia 3 de agosto de 1814, com o projeto do conselho governante sendo de apoiar as ações autônomas de Buenos Aires. Em setembro de 1814, na catedral de Cusco, com a benção do Bispo José Pérez y Armendáriz, foi feita a adoração de uma nova bandeira, com listras azuis e brancas. No dia da Virgen de las Mercedes, em 27 de setembro, uma procissão foi feita em Cusco, com a bandeira sendo carregada pelos seguidores do sistema nacional.
No dia 17 de setembro, José Angulo, após ter suas reivindicações constitucionais rejeitadas pelo Vice-rei Abascal - que ameaçou usar força contra Cusco -, o avisou sobre o apoio que a causa patriota teria e sobre a futilidade de confrontar seu exército com armas. Veja, Vice-rei [...], se [...] conforme a sua crença pública, vocês se colocarem na triste situação de nos tratar como inimigos, então você e seus cúmplices irão experienciar nosso justo rigor. Sim, envie tropas para os pastos de nossa vingança, nós o avisamos que elas não passarão de quatro mil corajosos e resistentes soldados [...], que irão lutar contra dez mil que vierem.
— Resposta de José Angulo ao Vice-rei José Fernando de Abascal y Sousa
No dia 30 de dezembro de 1814, o Vice-rei Abascal anulou a Constituição de Cádis no Peru, aplicando uma ordem recebida da Península Ibérica de Fernando VII, que havia restaurado o seu poder centralizado na Espanha.
Expansão da rebelião
Divisão para Puno e Alto Peru miniaturadaimagem|A catedral de Cusco. A divisão que se dirigia a Puno era comandada por Juan Manuel Pinelo, de Ica, auxiliado pelo pároco Ildefonso Escolástico de las Muñecas, da Catedral de Cusco, de Tucumã. Eles deixaram Cusco em meados de agosto e receberam o apoio de milhares de indígenas nos distritos de Azángaro e Carabaya. Tomaram a cidade de Puno sem resistência, em 26 de agosto, após o governador Manuel Químper abandoná-la, e capturaram 18 espanhóis, que foram mortos com paus e pedras. Em seguida, dirigiram-se para a guarnição da travessia do Rio Desaguadero, onde estava o monarquista Joaquín Revuelta, com 13 armas de fogo e diversos homens, que desertaram após a chegada das tropas de Cusco em 11 de setembro. Pinelo enviou uma proclamação a favor do governo de Buenos Aires para o chefe das repúblicas do Alto Peru, Juan Antonio Álvarez de Arenales, em uma tentativa de coordenar suas ações: Preciso também, que Vossa Senhoria, com a coragem de sempre, procure ir a um dos pontos de encontro, [...] para que possamos nos encontrar rapidamente e prosseguir contra o tirano Pezuela, pois já tenho Valdehoyos muito seguro.
—Carta do Comandante Juan Manuel Pinelo ao Comandante-Chefe Juan Antonio Alvarez de Arenales. O exército rebelde se dirigiu para La Paz, que estava protegida pelo governador-intendente Gregorio de Hoyos, Marquês de Valdehoyos, com 300 homens - 200 soldados e 100 voluntários - e 4 peças de artilharia, e, em 24 de setembro, a cidade foi ocupada por Pinelo após dois dias de cerco. Valdehoyos colocou diversos explosivos embaixo da Casa do Governo, para serem acionados por uma pessoa de confiança, caso Pinelo e outros chefes revolucionários entrassem na casa. Em 28 de setembro, enquanto Muñecas celebrava uma missa na catedral, ocorreu uma explosão que matou diversos soldados. Espanhóis e crioulos foram mortos pela população revoltosa como forma de retaliação. Entre os mortos, estava o governador Marquês de Valdehoyos.
Pinelo e Muñecas criaram uma junta de governo em La Paz, composta por José Astete, Eugenio Medina e José Agustín Arze. Eles montaram acampamento em Laja, e tentaram contatar novamente Álvarez de Arenales. No dia 24 de novembro, ele lhes enviou felicitações de Buenos Aires, prometendo marchar com eles a fim de libertar todo o continente americano.
Divisão em Huamanga miniaturadaimagem|Localização da província de Huamanga em Ayacucho, no Peru. A segunda divisão patriota ocupou Huamanga em 20 de setembro, sob o comando do argentino Manuel Hurtado de Mendoza, que tinha como tenentes o clérigo José Gabriel Béjar e o militar Mariano Angulo. Após a ocupação, Hurtado de Mendoza ordenou a marcha em direção a Huancayo, que foi tomada de forma pacífica.
Em resposta, o vice-rei José Fernando de Abascal enviou de Lima um contingente de tropas bem equipadas e disciplinadas, incluindo parte do Regimento de Talavera de la Reina, sob o comando do coronel Vicente González. Essas forças foram reforçadas por milícias de Huanta, região que permanecia fiel à Coroa espanhola.
Em 30 de setembro de 1814, travou-se a Batalha de Huanta, que durou três dias. Após o confronto, os patriotas foram derrotados e se retiraram, abandonando Huamanga. Mais tarde, reorganizaram-se em Andahuaylas e voltaram a enfrentar os realistas em 27 de janeiro de 1815, na Batalha de Matará, sendo novamente vencidos.
Graças à atuação dos guerrilheiros de Cangallo, os patriotas conseguiram se reagrupar e retardar o avanço das tropas realistas. Nesse período, Hurtado de Mendoza organizou um novo exército composto por 800 homens armados com fuzis e espingardas, 18 canhões, 2 culebrinas (de 8 libras, fundidas e fabricadas em Abancay), 40 caixas de munições e cerca de 5.000 indígenas montados e armados com lanças. O comando dessas forças foi entregue a José Manuel Romano, conhecido como Pucatoro (do quéchua, “touro vermelho”).
Com isso, os patriotas pareciam ter superado uma situação crítica. No entanto, a traição de Romano mudou o rumo dos acontecimentos. Ele assassinou Hurtado de Mendoza e rendeu-se aos realistas, resultando na dispersão das forças patriotas e na captura dos principais líderes da revolta. O traidor, contudo, seria executado em 1825 pelo coronel José María Castañeda, que vingou a morte de seu antigo comandante.
Divisão em Arequipa miniaturadaimagem|O distrito de Chincheros, localizado na província peruana Urubamba. O terceiro agrupamento militar, com o apoio de Vicente Angulo, foi liderado pelo cacique de Chincheros e brigadeiro Mateo Pumacahua que, décadas antes, havia apoiado a monarquia espanhola contra a rebelião de José Gabriel Tupác Amaru II.
No contexto de 1814, Pumacahua optou por apoiar os irmãos Angulo, apesar de seu histórico apoio à ordem colonial espanhola. Para a expedição sobre Arequipa, Pumacahua dispunha de 5000 homens armados — 500 utilizavam rifles e o restante de lanças, macanas e hondas —, uma cavalaria e algumas peças de artilharia.