Amélia de Rezende Martins (Campinas, 23 de março de 1877 - Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1948) foi uma conferencista, historiadora, ensaísta, pianista e musicóloga brasileira. Foi também organizadora do Departamento de Assistência Social da Liga de Defesa Nacional, vice-presidente da Associação das Mães Cristãs (1905) e uma das idealizadoras do projeto Ação Social Brasileira (1918-1932). Fundou a sociedade Cultura Artística, a Sociedade Pró-Arte e a Sociedade dos Amigos de Música de Câmara.Belline, Ana Helena Cizotto (2004). «Amélia de Rezende Martins». In: Muzart, Zahidé Lupinacci. Escritoras brasileiras do século XIX: antologia. II. Florianópolis: Editora Mulheres. pp. 773–791 É avó do historiador brasileiro Estevão Chaves de Rezende Martins.

Vida

Amélia de Rezende Martins nasceu em Campinas, filha do Barão Geraldo de Rezende e de Maria Amélia Barbosa de Oliveira. Pertencia a uma família de destaque político e econômico no interior paulista, proprietária da Fazenda Santa Genebra. Era irmã de Elisa e Marieta, com quem partilhou a mesma formação doméstica, cuidadosamente planejada pelos pais. miniaturadaimagem|Fotografia preto e branco das famílias Rezende Martins e Silva Leite. Em pé, da direita para a esquerda, veem-se: Amélia de Rezende Martins; Eliza de Rezende; uma mulher; Jocelyne Mendes da Silva Leite; Marieta de Rezende e Bento da Silva Leite. |esquerda Recebeu educação esmerada com professoras europeias contratadas especialmente para as filhas do barão. O aprendizado incluía línguas estrangeiras, música, dança, pintura e literatura. Entre 1886 e 1889 estudou no Colégio Progresso no Rio de Janeiro.

Em 1892, acompanhada das irmãs, realizou uma viagem de estudos pela Europa, com cerca de um ano e meio de duração, que lhes permitiu contato direto com museus, concertos, igrejas e centros culturais. Paris, então no auge da Belle Époque, foi a cidade em que permaneceram mais tempo, experiência que marcou profundamente a visão cultural da futura escritora.

No ambiente da Fazenda Santa Genebra, o contato com jornais e revistas em francês, inglês e alemão complementava a formação das jovens. A vida cotidiana incluía saraus, leituras e produção literária caseira, como o periódico familiar Le Petit Causeur, no qual cada integrante escrevia artigos.

Amélia casou-se no dia 10 de novembro de 1894, aos 17 anos, com o médico João de Assis Lopes Martins, com quem teve nove filhos. Viveu em Campinas até 1945, mudando-se em seguida para Mendes, no Rio de Janeiro, e depois para a capital fluminense, onde faleceu em 1948.

Atividade e produção musical miniaturadaimagem|Vê-se, da esquerda para a direita: Brasilina Gonzaga de Castro Mendes; Amélia de Rezende Martins; José Maria de Rezende Martins; Marieta de Rezende; Dulce Mendes de Paula e uma criança. O talento musical de Amélia manifestou-se ainda na infância, quando realizou seu primeiro recital de piano aos oito anos de idade. Na vida adulta, consolidou-se como uma das grandes incentivadoras da música no Brasil. Com músicos imigrantes e intelectuais, esteve à frente da fundação da Cultura Artística de Campinas, da Sociedade Pró-Arte e da Sociedade dos Amigos de Música de Câmara. Também promoveu seminários internacionais de música em Teresópolis e dedicou-se à difusão da música de câmara.

A partir de 1918, Amélia de Rezende Martins passou a publicar obras voltadas ao ensino e à difusão da música, inseridas em um esforço mais amplo de suprir a carência de materiais em língua portuguesa. As nove sinfonias de Beethoven, História da Música (1918) e Curiosidades musicais (1920) destinavam-se a um público iniciante e não especializado. Concebidas como um projeto pessoal, essas publicações tinham como referência a cultura musical associada ao repertório erudito europeu.

Produção histórica, geográfica e memorialística

Sua produção escrita pode ser dividida em três vertentes principais: ensaios de caráter social e moral, livros didáticos e biografia. Os ensaios, geralmente publicados em opúsculos, abordavam temas como os costumes femininos, a educação das crianças e a necessidade de regeneração da sociedade. Entre eles estão A moda (1920), Os problemas sociais e o feminismo (1924) e Ação social brasileira (1933). Na área didática, escreveu compêndios de Geografia e História, destinados ao ensino elementar, que alcançaram várias edições e foram adotados em escolas. Nessas obras, procurava simplificar o conhecimento e aproximá-lo da realidade cotidiana dos estudantes, muitas vezes escrevendo em tom coloquial e afetuoso.

A biografia Um idealista realizador (1939), dedicada à vida de seu pai, o Barão Geraldo de Rezende, é uma obra com centenas de páginas, fotografias e documentos. Embora centrada na figura paterna, o livro também se destaca como testemunho da vida familiar e da formação de uma jovem no interior paulista do final do século XIX, sendo hoje valorizado como fonte memorialística. Gilberto Freire escreveu duas avaliações críticas sobre o livro de Rezende Martins, uma publicada no Correio da Manhã, em 17 setembro de 1940 e outra no Correio Popular, em 26 de setembro de 1940.Vianna Neto, L. Modernismo eclipsado: arte e arquitetura alemã no Rio de Janeiro da era Vargas (1930-1945). Leiden University Centre for Linguistics (LUCL), Faculty of Humanities, Leiden University, 2020.

Em seus escritos jornalísticos, Rezende Martins assumiu uma posição abertamente contrária ao maximalismo (associado ao bolchevismo) e ao anarquismo, articulando uma crítica de caráter moral e religioso. Por meio de uma reescrita marcada pelo uso de imagens da maternidade, da infância e de referências cristãs, seus textos, voltados principalmente a leitoras das elites, apresentavam o catolicismo e a caridade cristã como respostas às ideias comunistas que considerava ameaçadoras à ordem social.

Participação em iniciativas sociais

Além da atuação cultural e literária, Amélia participou ativamente de iniciativas sociais. Presidiu a Associação das Mães Cristãs, organizou o Departamento de Assistência Social da Liga de Defesa Nacional e foi uma das fundadoras da Ação Social Brasileira, criada na década de 1930, que reunia projetos voltados para a educação popular, o incentivo às artes e a melhoria das condições de vida das classes trabalhadoras.

Seu pensamento social refletia a moral católica e conservadora de sua época, atribuindo à mulher um papel central na regeneração da sociedade por meio da maternidade e da educação dos filhos. Ao mesmo tempo, buscava soluções práticas para os problemas do país, propondo iniciativas como vilas operárias, museus de higiene, cinema escolar e colônias de férias.

A partir da década de 1920, Amélia de Rezende Martins passou a dedicar-se à elaboração de um projeto social amplo, que culminou na criação da Ação Social Brasileira, fundada oficialmente em 1931. A instituição reunia mulheres de diferentes setores da sociedade e tinha por objetivo coordenar iniciativas dispersas de assistência e educação, propondo uma ação unificada em favor da regeneração moral e cultural do país. Inspirada em princípios católicos, a organização buscava promover o bem-estar social por meio da educação, da higiene e da cultura, atuando junto a escolas, associações beneficentes e grupos comunitários.

Nos estatutos e textos da Ação Social Brasileira, Amélia defendia que a transformação da sociedade dependeria da formação moral e intelectual das mulheres, consideradas agentes centrais da estabilidade familiar e do progresso nacional. Entre as propostas do programa estavam a criação de vilas operárias com moradias acessíveis, hortas e escolas; a organização de cursos de economia doméstica e de higiene; e a fundação de museus, corais, cineclubes e espaços de recreação voltados às famílias. O projeto previa ainda o uso de meios modernos, como o cinema educativo e os jogos escolares, para tornar o aprendizado mais atraente e eficiente.

Embora tenha se apresentado sempre como apenas uma mãe de família, Amélia construiu uma obra vasta, marcada pela coerência entre sua vivência doméstica, sua visão de mundo e sua atuação pública.

Arquivo O Centro de Memória da Unicamp reúne documentos de e sobre Amélia de Rezende Martins.

Obra

Livros

Reflexões sobre o momento social (1918). As nove sinfonias de Beethoven História da Música (1918) Complemento às reflexões sobre o momento social (1919). Geografia Elementar (1919). Curiosidades musicais (1920). A moda (1920). 24 pontos de História do Brasil (1923). Meu livrinho de Missa (1926). O meu Brasil (1930). O livro de José Maria (1930). Os problemas sociais e o feminismo (1924). 40 pontos de Geografia (1930). Pontos de História Universal: História Antiga e Idade Média (1932). A mulher e a política (1932). Ação Social Brasileira (1933). Grandes problemas nacionais (1933). Quinzena Anchietana. A Acção Social Brasileira pela voz do Brasil a Anchieta (1534–1934) (1934). Compêndio de História do Brasil (1937). Um idealista realizador: Barão Geraldo de Rezende (1939).

Quadro sinóptico e sincrônico de História do Brasil. Quadros sincrônicos de História Universal.

Ligação externa

Uma palavra de atualidade, de Amélia de Rezende Martins. Pronunciado na I Conferência Nacional de Educação

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