miniaturadaimagem|Batalha do Riachuelo, na Guerra do Paraguai (1865) A história da Marinha do Brasil começa com a adesão de segmentos da Marinha Portuguesa ao Brasil recém-independente em 1822. A Armada Imperial foi crucial para a consolidação do Império Brasileiro e suas campanhas contra países vizinhos na região do Prata, numa época em que a infraestrutura terrestre era mínima. A principal influência externa era a Marinha Real britânica. Ao final da Guerra do Paraguai em 1870, o Brasil era o quinto país do mundo em número de navios, embora esta força fosse principalmente fluvial. A construção naval era significativa, mas não conseguiu acompanhar os avanços tecnológicos. A Proclamação da República e as Revoltas da Armada deram a primazia política ao Exército, e a Marinha entrava no século XX em decadência.

Em 1910, a incorporação pelo Brasil de dois poderosos dreadnoughts e outros navios encomendados na Grã-Bretanha deflagrou uma corrida armamentista naval com a sua principal rival, a Armada Argentina, e a outra potência regional, a Armada Chilena. A dependência externa para a manutenção não permitiu o pleno aproveitamento dos novos navios, e o abismo social entre oficiais e praças resultou na Revolta da Chibata. O Brasil entrou em ambas guerras mundiais após ataques de submarinos alemães à sua marinha mercante. Em ambas havia basicamente a esquadra de 1910 (embora a construção naval começasse a recuperar no programa naval de 1932). As forças em operação subordinaram-se a outras potências atlânticas, primeiro à Grã-Bretanha e depois aos Estados Unidos. Uma missão naval americana, contratada em 1922, e a experiência compartilhada na Segunda Guerra colocaram os EUA como principal influência externa.

A Marinha no início da Guerra Fria era uma força equipada com excedentes da Marinha dos Estados Unidos e voltada a uma hipotética campanha antissubmarino contra a Marinha Soviética. Surgiam um porta-aviões (o Minas Gerais), embora desprovido de aeronaves de ataque, e capacidades anfíbias para o Corpo de Fuzileiros Navais. A questão social na hierarquia foi a base de outra Revolta dos Marinheiros em 1964, um fator imediato no golpe militar no mesmo ano. Os programas navais de 1967 e 1977 representavam um movimento por maior autonomia, num ciclo de expansão que culminava em 1980.

No final do século XX, ameaças tradicionais desapareciam e novos compromissos foram assumidos na Antártica, África e com a própria Argentina. Mas a conjuntura político-econômica desacelerou os projetos até 2009. Sob o otimismo com os recursos da plataforma continental, foi feito um plano para adquirir dois porta-aviões, seis submarinos nucleares e numerosas outras unidades. Ele não saiu do papel, mas vários projetos de construção naval seguem adiante, enquanto outras lacunas no inventário naval continuam a ser preenchidas por compras no exterior. Isto não chega a compensar a diminuição do número de meios que tem ocorrido nas primeiras décadas do século XXI.

Origens Desde a descoberta do Brasil, o poder naval era o que conectava a colônia à sede do Império Português. Em séculos de batalhas de Portugal pela posse e controle das águas brasileiras, a participação da população local foi cada vez maior. Como os navios eram de madeira, havia até construção naval no território, embora a artilharia viesse da Europa. A transferência da sede do Reino de Portugal para o Brasil, em 1808, fez com que a Marinha Portuguesa se instalasse no Rio de Janeiro com uma parte importante da sua estrutura. O Corpo de Fuzileiros Navais brasileiro, por exemplo, é herdeiro da Brigada Real da Marinha portuguesa.

No processo de Independência do Brasil, em 1822, a nacionalização de uma parcela dessa força originou a Marinha do Brasil. Aproveitando navios e marinheiros portugueses que aderiram ao recém-formado Império do Brasil e órgãos criados por João VI de Portugal, tais como a Secretaria da Marinha, o Quartel-General, a Intendência e Contadoria, o Arsenal de Marinha, a Academia Real dos Guardas-Marinhas, o Hospital, a Auditoria, o Conselho Supremo Militar, a Fábrica de Pólvora, os Cortes de Madeira e outros, um brasileiro nato, o capitão de mar e guerra Luís da Cunha Moreira, foi nomeado primeiro Ministro da Marinha em 28 de outubro de 1822. Oficiais estrangeiros completaram o quadro de pessoal, entre eles o primeiro almirante, o britânico Thomas Cochrane. A doutrina, práticas e tradição seriam fortemente influenciadas pela Marinha Real britânica no século que se sucederia.

Império

miniaturadaimagem|Batalha de 4 de maio de 1823, com a Armada Imperial liderada por Thomas Cochrane, na Independência da Bahia|esquerda A primeira tarefa era expulsar as bases portuguesas remanescentes no litoral brasileiro em Belém (Pará), São Luís, Recife, Salvador e Montevidéu, o que se conseguiu em 1823. Somente a Marinha podia transportar e abastecer o Exército nas frentes de combate, cortar, pelo bloqueio e guerra de corso, as linhas de comunicação inimigas e defender as próprias do corso oponente; todas tarefas navais típicas do período, que se veriam nos conflitos seguintes. Num país "arquipelágico", com toda a população ao largo do litoral e dos rios navegáveis, não havia alternativa logística. Na economia nacional, a marinha mercante, os portos e a construção naval eram expressivas.

A Marinha apoiava o regime monárquico. Sua participação na Independência e na supressão das revoltas internas — a Confederação do Equador de 1824 e a "guerra civil" do Período Regencial (1831—1840) — foi questão de integridade nacional. Embora os únicos rebeldes com forças navais fossem os Farrapos, a logística naval não deixou de ser decisiva. Até 1831 a Armada cresceu a duas naus, dez fragatas, vinte corvetas, dezessete brigues-escunas, duas canhoneiras, doze bombardeiras, três barcas a vapor, catorze transportes e várias lanchas de grande porte, num total de pelo menos oitenta navios de guerra. Após a adoção plena da propulsão a vapor, nos anos 1860 havia quarenta navios com mais de 250 canhões.

O apogeu da Armada Imperial foi no Segundo Reinado (1841–1889). O quadro de oficiais já se compunha nos anos 1860 inteiramente de brasileiros natos, dentre eles líderes alistados na Guerra da Independência, como Joaquim Marques Lisboa, marquês de Tamandaré, Francisco Manuel Barroso da Silva, barão do Amazonas e Joaquim José Inácio de Barros, visconde de Inhaúma. Para a base da pirâmide hierárquica, o recrutamento, inicialmente fornecido pelo voluntariado e recrutamento forçado ("tributo de sangue"), foi complementado pelas Companhias de Aprendizes-Marinheiros, pelas quais se esperava melhorar a qualidade do material humano. Ainda assim, não desapareceram problemas de indisciplina e deserção e a prática de castigos corporais. As relações hierárquicas na Marinha espelhavam a sociedade brasileira escravista.

Política externa miniaturadaimagem|Abordagem de monitor brasileiro por canoas paraguaias na passagem de Humaitá, em 1868 A política externa focou-se nas guerras na bacia do Prata — da Cisplatina (1825–1828), contra Oribe e Rosas (1851–1852) e do Paraguai (1864–1870). O predomínio naval brasileiro atingido em meados do século foi o esteio da política externa imperial pelo qual se mantiveram dois países-tampão, Uruguai e Paraguai, na fronteira com o maior rival, a Argentina, e vias de acesso fluviais à província de Mato Grosso. Uma segunda bacia precisava ser defendida, a do rio Amazonas, onde uma flotilha foi instalada em 1868, em resposta à abertura do rio ao comércio internacional. Outra junção das políticas naval e externa foi na repressão ao tráfico negreiro, ponto de atrito com o Império Britânico.

Destacaram-se nessas campanhas o bloqueio do porto de Buenos Aires, na Guerra da Cisplatina, a passagem de Tonelero, no rio Paraná, em 1851, a Batalha do Riachuelo, em 1865, e as passagens forçadas de margens fortificadas em Curupaiti e Humaitá. Esta última campanha, no Paraguai, foi a maior guerra da América do Sul e suas batalhas são os destaques da história de combate naval do Brasil. Para o terreno dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, foi preciso criar uma nova frota e mantê-la abastecida a uma grande distância do Rio de Janeiro. A manutenção e o clima eram difíceis e as doenças mataram mais do que a ação inimiga. Os paraguaios tinham canhões nas barrancas e abordavam os navios com canoas, lutando com armas brancas nos conveses. A Marinha, em conjunto com o Exército, gradativamente subiu os rios. Sem a campanha fluvial, teria sido muito difícil manter o sul de Mato Grosso, ao qual não havia conexão terrestre.

Queda do Império miniaturadaimagem|A Armada Imperial em treino nos anos 1870|esquerda Vencida a Guerra do Paraguai em 1870, a Armada brasileira era a quinta maior do mundo em número de navios. Tratava-se, porém, de uma frota defasada (de madeira) e adequada basicamente às operações fluviais. Os avanços tecnológicos não mais permitiam a um país não industrializado sustentar por conta própria uma frota moderna. Havia Arsenais da Marinha no Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Pará e Mato Grosso, construindo navios de casco de ferro, mas começava a transição do Brasil a país importador de navios. Ao mesmo tempo, terminava o ciclo de guerras externas, diminuindo o interesse político no poder naval. Alguns recursos extraordinários ainda foram providos por conta de tensões fronteiriças com a Argentina e do rearmamento chileno. A esquadra em 1888 consistia em dezessete navios: três encouraçados, três encouraçados fluviais, três monitores, duas corvetas de casco de madeira e cinco cruzadores híbridos (ora denominados cruzadores, ora corvetas encouraçadas). Onze eram nacionais. Ainda era uma força considerável e com infraestrutura extensa.

O corpo de oficiais da Marinha, aristocrático, isolado e pouco influenciado pelo positivismo, divergia socialmente do corpo de oficiais do Exército. Foi o Exército que tomou a iniciativa de proclamar a República num golpe militar em 15 de novembro de 1889. A República começou com duas Revoltas da Armada, em 1891 e 1893–1895, lideradas pelos almirantes Custódio de Melo e Saldanha da Gama contra os presidentes-marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. A primeira teve sucesso, e a segunda foi derrotada por uma "esquadra de papel", comprada a regime de emergência. A anistia pós-guerra civil não apagou de imediato os rancores entre os comandantes navais contrários e favoráveis ao movimento. Daquele momento em diante, o Exército teria a hegemonia política na República.

Primeira República miniaturadaimagem|Encouraçado Minas Gerais, capitânia da "Esquadra de 1910", que inaugurou a era dos grandes canhões no Brasil, deflagrou uma corrida armamentista naval e durou em serviço até a Segunda Guerra Mundial A última década do século XIX viu uma progressiva desmobilização e a sucessão de quatro ministros da Marinha em apenas seis anos. A construção naval praticamente parou, e assim permaneceria por muitas décadas. No equilíbrio estratégico continental, que girava em torno dos três "países ABC", Argentina e Chile tinham larga superioridade qualitativa sobre o Brasil. A decadência do poder naval tornou-se objeto de debate público entre políticos, jornalistas e oficiais. Repercutiam pensadores como o americano Mahan e os franceses da Jeune École.

A consolidação da República Oligárquica, a alta dos ciclos do café e da borracha e o interesse do ministro das Relações Exteriores, o Barão do Rio Branco, pelo poder naval enquanto instrumento de política externa foram as condições políticas para a "Esquadra de 1910". Encomendada em estaleiros britânicos, ela foi composta dos dreadnoughts Minas Gerais e São Paulo, os cruzadores Bahia e Rio Grande do Sul e dez contratorpedeiros da classe Pará. O mesmo programa ainda incorporou três submersíveis da classe F em 1913 e navios auxiliares.