Marcelle Jaulent dos Reis (Montevidéu, Uruguai, 22 de setembro de 1892 - Rio de Janeiro, 1990), mais conhecida como pelo pseudônimo de Béatrix Reynal, foi uma intelectual, poeta, mediadora cultural e ativista política franco-uruguaia radicada no Brasil. Atuou nos meios literário, editorial e associativo, destacando-se por sua inserção em redes intelectuais franco-brasileiras e por seu engajamento no movimento da França Livre durante a Segunda Guerra Mundial.Muzart, Zahidé Lupinacci. (2009). Marcelle Jaulent dos Reis (Béatrix Reynal). In: Muzart, Zahidé Lupinacci. Escritoras brasileiras do século XIX: antologia. III. Florianópolis: Editora Mulheres. pp. 179-192GUEBERT, Caroline Aparecida. “Bandeira da França no sol do Brasil”: trajetória e memória de Béatrix Reynal (1910-1960). 2023. 322 f. Tese (Doutorado) - Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2023.
Biografia Nascida no Uruguai, Béatrix Reynal estabeleceu-se no Brasil no início do século XX, fixando residência no Rio de Janeiro. Sua trajetória foi marcada por uma intensa circulação transnacional de pessoas, ideias e bens culturais entre Brasil e França, especialmente entre as décadas de 1910 e 1960.
Se casa, em 1928, com José Maria dos Reis Junior, pintor mineiro. O casal constrói longa amizade com Osvaldo Goeldi, que deixa seu acervo como herança para Béatrix.
Ao longo desse período, Reynal construiu uma posição singular no meio intelectual carioca, inserindo-se em ambientes literários, artísticos e políticos caracterizados por forte presença da francofilia e da francofonia. Sua atuação permitiu observar dinâmicas de intercâmbio cultural não linear, mediadas por redes pessoais, instituições culturais e iniciativas editoriais.
Beatrix terminou sua vida em estado de pobreza e com saúde precária, recebendo um benefício concedido pelo governo.
Atuação cultural e intelectual Béatrix Reynal destacou-se como poeta e agente cultural, participando ativamente da vida intelectual do Rio de Janeiro. Entre meados da década de 1930 e meados da década de 1940, atuou como salonista, reunindo semanalmente artistas, intelectuais, diplomatas e políticos em sua residência em Ipanema, espaço reconhecido como um importante ponto de sociabilidade intelectual francófila. Entre os nomes dos frequentadores de sua casa na Av. Viera Souto estavam Eugênia e Álvaro Moreyra, Osvaldo Goeldi, Lúcio Cardoso, Augusto Frederico Schmidt, Rachel de Queirós, Heitor Villa-Lobos e Murilo Mendes.
Além dos salões, Reynal esteve envolvida em projetos editoriais, publicações na imprensa e iniciativas culturais voltadas à divulgação da cultura francesa no Brasil. Sua produção poética passou por transformações ao longo do tempo, deslocando-se de um repertório ligado à Provença - local onde passou parte da infância com o avô - e à identidade regional francesa para uma poesia de circunstância associada aos acontecimentos da guerra. Seu primeiro livro publicado, Tendresses mortes, em 1927, é elogiado pela escritora francesa Colette.
Paralelamente à sua atuação intelectual, Béatrix Reynal esteve envolvida em iniciativas filantrópicas articuladas entre associações civis, elites urbanas e o poder público. Sua participação inseriu-se em um contexto mais amplo de mobilização filantrópica feminina, no qual ações de assistência social funcionavam como formas de intervenção cívica e de afirmação simbólica no espaço público. Essas práticas estabeleceram conexões entre beneficência, cultura e política, reforçando a visibilidade social de seus agentes e sua inserção em redes de prestígio e sociabilidade.
Também doou peças ao Museu de Arte Moderna de São Paulo, como objetos de arte, móveis, quadros e tapetes.
Engajamento na França Livre Durante a Segunda Guerra Mundial, Béatrix Reynal engajou-se no movimento da França Livre no Brasil, integrando um circuito intelectual e político ligado ao gaullismo. Sua atuação ocorreu sobretudo no plano cultural e simbólico, por meio da organização de eventos, campanhas, emissões radiofônicas e da publicação de poemas e textos voltados à mobilização da opinião pública brasileira em defesa da libertação da França.
Entre 1940 e 1942, publicou poemas na imprensa brasileira que posteriormente foram reunidos em livro, e criou um programa de rádio dedicado à causa francesa, que contou com a participação de intelectuais brasileiros e franceses. Essas iniciativas inseriram-se em um esforço mais amplo de resistência cultural ao regime de Vichy e de afirmação dos valores republicanos franceses no exterior.
Reynal apresentou, entre 1943-1944, o programa de rádio Franceses, nós cremos em vós, junto à Rádio MEC.
Legado Béatrix Reynal é abordada pela historiografia como uma figura central para a compreensão das redes intelectuais franco-brasileiras do século XX, e principalmente do papel das mulheres na mediação cultural internacional. Esteve associada à construção de uma identidade pública fortemente vinculada à francofilia, à resistência cultural e ao engajamento político. Livros Publicados em francês:
Tendresses mortes. Paris: Grasset, 1937. Au fond du coeur. Préface de Fortunat Strowski. Rio de Janeiro: Pongetti, 1941. Poêmes de guerre, 1940-1942. Rio de Janeiro: Gráfica Perfecta, 1943. fólio, 34 p. La couleur des jours. Rio de Janeiro: Aurora, 1957.
Publicado em português:
Poemas de minha vida
Ligações externas Espólio de Beatrix Reynal no Museu Histórico Nacional
Categoria:Mulheres na literatura Categoria:Poetisas do século XX