Djalma Cunha dos Santos, Samanta ou também conhecido como Djalma do Alegrete (Alegrete, 1931 - Porto Alegre, 1994), foi um artista plástico, designer, figurinista, carnavalesco, cenógrafo, ilustrador, professor e poeta brasileiro. Ficou conhecido por seu modo singular de vestir e por sua atuação marcante no meio artístico. Multiartista, “o pintor da negritude”, inspirava-se em lendas negras afro-brasileiras, obras a partir das quais passou a ser identificado como mensageiro artístico de Oxalá. Foi considerado pela crítica especializada como “a expressão máxima das artes plásticas dentro da negritude brasileira”.

Biografia Em 1957, Djalma foi o primeiro negro a formar-se pela Escola de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), tendo como professores os pintores Ado Malagoli, Aldo Locatelli e Ângelo Guido. Na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), completou a formação em Didática e também frequentou o curso de Jornalismo.

Negro, homossexual e de baixa renda, era retratado como “travesti, showperson, ex-ovelha negra da família”. Nascido em Alegrete, município marcado por uma forte estrutura agrária, Djalma desde cedo desenhava pelas calçadas da cidade, onde também enfrentou episódios de discriminação ao longo de sua vida, incluindo agressões físicas decorrentes ao racismo e homofobia. A partir de 1956, passou a se destacar como pintor e figurinista, adotando o nome artístico Djalma do Alegrete para evitar confusão com o jogador de futebol homônimo Djalma dos Santos (1929–2013).

Entre 1957 e 1962, Djalma trabalhou no setor de Recreação Pública da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, onde passou a utilizar seus conhecimentos artísticos de forma profissional, criando figurinos e cenários para montagens teatrais realizadas no estado. Em 1963, idealizou o traje "Exaltação aos Pampas", inspirado na Revolução Farroupilha. O figurino, composto por botas e bombacha, recebeu o prêmio nacional de figurinos folclóricos e foi utilizado por Iêda Maria Vargas — Miss Rio Grande do Sul, Miss Brasil e Miss Universo — em desfiles realizados no Rio de Janeiro e em Miami, obtendo, respectivamente, o primeiro e o segundo lugares.“[...] apesar do prestígio que consegui, sou marginal por ser homossexual e negro.”

Djalma do Alegre, O Globo, 06/11/1988. A estreia dele nas artes ocorreu em 1962, com exposições no Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano e na Assembleia Legislativa de Porto Alegre, com a mostra "As Deusas de Djalma". Após esse período, aprofundou suas pesquisas no candomblé, nos ritmos, e em outros elementos ligados à cultura negra, incorporando essas referências à sua produção artística, marcada pela busca de comunicação direta com o público.

Em sua produção artística, Djalma desenvolveu a representação dos chamados “cavalos dos orixás” como figuras humanas, dialogando com referências de pintura renascentista e pré-renascentista, em especial com estudos associados à obra de Leonardo da Vinci. Para essa elaboração, realizou pesquisas sobre esses períodos da história da arte e produziu rascunhos e esboços, que posteriormente eram filtrados até a execução da obra final, articulando essas referências às concepções simbólicas do candomblé. Em 1967, uma mostra de seus retratos na Casa das Molduras lhe trouxe reconhecimento como retratista. Nesse período, foi também responsável pelo cenário e figurino do espetáculo "O Santo Inquérito", encenado no Teatro de Arena. Participou ainda de diversas exposições coletivas no estado e em outras regiões do país, além de atuar como figurinista em carnavais de rua e na criação de fantasias para desfiles no Teatro Municipal, trabalhos pelos quais recebeu prêmios. Foi pentacampeão gaúcho (1959–1963) em concursos de vestimentas de blocos carnavalescos.

Em 1968, mudou-se para o Vila Kennedy, Rio de Janeiro, onde passou a atuar como professor de desenho e pintura no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC), após já ter lecionado por dois anos em São Lourenço, onde sofreu humilhações e ameaças por ser negro e homossexual. Nesse período, dedicou-se com maior intensidade ao retrato e realizou exposições individuais no Instituto Cultural Brasileiro-Norte-Americano, bem como nas galerias Pancetti (1967) e Movei Studio (1968), em Porto Alegre. No Rio de Janeiro, aproximou-se do movimento negro, contexto no qual afirmou ter assumido publicamente sua identidade negra.

Em 1974, realizou uma exposição no Teatro de Câmara, apresentando retratos de figuras da sociedade. No mesmo período, expôs pinturas, retratos e desenhos no Mercadão do Beco das Artes.

APOLOGIA A MIM MESMO

“Sei que nasci para a luta das grandes causas mundiais... Que vibro pela luta. Por minha auto-afirmação e, pela negação das coisas impostas. Por isso adoro diálogos inteligentes Com pessoas de qualquer sexo, idade, religião e Q.l. Que podem me levar ao encontro da verdade ABSOLUTA. Às vezes, como pásssaro travesso eu vou ao encontro do meu mundo cósmico... Outras vezes, rastejo como um réptil inquieto à cavernas primitivas. Onde aliado a Deus. Vislumbro as origens de minha essência. I mperceptivelmente, eu percebo, um templo, guardando meu destino num cofre colorido. Com tatuagens feitas do sangue de meus ancestrais... Lá escondo minha riqueza espiritual, meu magnitismo e fragmentos de uma infância frustrada. Hoje, santifico-me para alcançar o Amor Equilibrado numa Fé incontrolável. Busco sempre o BEM e O MAL, de uma maneira correta, convicta, atuante. Sou um ser contente, apesar de tudo e vivo em eterno extase comigo mesmo. Tão comigo mesmo, que meu erotismo vibra sexualmente... Quando digo meu nome: "DJALMA"

Porto Alegre, 07/07/77, Djalma do Alegrete Em 1978, Djalma publicou seu primeiro livro de artes, "Djalma no Panthéon Africano", lançado durante uma exposição individual realizada na Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro. Celebrando uma nova identidade: "Djalma dos Santos, antes. Hoje, Djalma do Alegrete", “o marginal magnífico”. Traduzindo nessa mudança de nome, uma nova fase da sua vida e principalmente, uma nova fase da sua pintura, a fase negra, onde retrata o culto e os deuses do Panteon Africano.

Em março de 1979, concedeu uma entrevista ao jornal Lampião da Esquina, na qual dialogou com Alceste Pinheiro, Aguinaldo Silva e Francisco Bittencourt. A entrevista foi publicada sob o título “Djalma Santos: nosso homem em Vila Kennedy”. No conteúdo, Djalma abordou influências da cultura africana em sua trajetória, detalhando aspectos de sua religiosidade, ao se identificar como “filho de Xangô, com a cabeça feita por Mãe Sara de Iansã, de Porto Alegre”. A entrevista também tratou de sua homossexualidade, onde relata que convidado a participar de um congresso sobre religião de matriz africana em Uruguaiana, se apresentou à noite como Samanta, personagem performática associada à sua atuação artística, onde descreveu episódios vividos em espaços de sociabilidade noturna da cidade e questões relacionadas à expressão de gênero e à sexualidade.

Ainda em 1979, com a supervisão de sua madrinha espiritual, a ekédi Maria Celeste Silva, lançou um livro "Lendas Negras do Afro-Brasileiro" durante sua segunda exposição individual no Rio de Janeiro, realizada nas Faculdades Integradas Simonsen, intitulada "Força Baiana, Força Africana, Força Divina', fundamentadas em pesquisas etnológicas sobre a criação do mundo segundo as tradições nagô-iorubás. Nos anos seguintes, realizou exposições em Juiz de Fora, em Minas Gerais, na Galeria Ouro Preto, e em Salvador, na Bahia, no Museu de Arte Negra, em 1984. Tornou-se amplamente conhecido como retratista, tendo produzido retratos de figuras públicas como Maria Della Costa, Mário Quintana e Benedita da Silva, entre outros.

Djalma estudou autores como Roger Bastide, Edison Carneiro, Nina Rodrigues e Pierre Verger. Desde o final da década de 1950, no Rio Grande do Sul, aproximou-se de praticantes e estudiosos das religiões afro-brasileiras, aprofundando-se em seus fundamentos simbólicos e rituais. Frequentou festas públicas em terreiros e comunidades religiosas, iniciando-se posteriormente em uma religião de matriz africana.

Em 1988, escreveu sua autobiografia intitulada “O impacto vem do Sul”. No livro, o artista abordou aspectos de sua vida pessoal, incluindo relações afetivas, episódios de alcoolismo, períodos de sofrimento emocional e múltiplas tentativas de suicídio. Atuou também como figurinista e designer, tendo desenvolvido trabalhos para a escola de samba Portela, no Rio de Janeiro, onde foi premiado pelo enredo "Pomba da Paz". Em Porto Alegre, foi homenageado pela comunidade da Restinga e recebeu os títulos de cidadão emérito (Resolução nº 1143 de 13/04/1992) do vereador Wilton Araújo.

Em 1991, utilizou o lema “Preto é cor, negro é consciência” no material de divulgação de uma de suas exposições, em diálogo com pautas do movimento negro unificado. Sua produção desse período incorporou referências simbólicas das liturgias das religiões afro-brasileiras, integradas à sua linguagem artística. As obras de Djalma integra acervos públicos e privados no Brasil e no exterior. Faleceu em 1994, em decorrência de insuficiência respiratória relacionada à AIDS.

Obras

Exposições

1957 - Salão dos Novos, promovido pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre — 1° Prêmio de Pintura. 1957 - Mostra Coletiva dos Formandos da Escola de Arte da URGS, em Caxias do Sul. 1958 - Exposição Coletiva do IX Salão de Artes Plásticas da Associação Francisco Lisboa, Porto Alegre.

1958 - Mostra Coletiva de Artes Plásticas no Congresso dos Hoteleiros em Passo Fundo. 1962 - Exposição Individual de Pintura no Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano, Porto Alegre. 1967 - Exposição Individual de Retratos na Galeria Pancetti, Porto Alegre. 1967 - Exposição Individual de Retratos na Sociedade Orfeu em São Leopoldo. 1967 - Exposição Individual de Retratos na Sociedade Cassino em Alegrete. 1968 - Exposição Individual de Retratos na Galeria Movei Studio em Porto Alegre. 1968 - Mostra Coletiva de Arte Gaúcha no Leme Palace Hotel no R io de Janeiro. 1971 - Exposição Individual de Retratos na Galeria Oca-Moraanti em Porto Alegre. 1974 - Exposição Individual "Destaques 74" na Galeria de Arte do Teatro de Câmara da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. 1974 - Exposição de Pintura — Beco das Artes Epatur, Porto Alegre. 1974 - Exposição de Retratos do Elenco Artístico da peça "Hair" — Galeria Edelwais em Porto Alegre. 1975 - Exposição Coletiva de Arte Sacra, Rio Pardo, RS. 1975 - Exposição Individual: "As deusas de Djalma" — Pinturas e Retratos na Assembléia Legislativa do Estado (Porto Alegre, RS). 1976 - Exposição Individual de Pintura no "Clube dos Artistas", da Televisão ' Tupi (São Paulo). 1976 - Exposição Coletiva de Arte Sacra (Rio Grande do Sul), na cidade de Rio Pardo — 1° Prêmio de Pintura. 1976 - Exposição Coletiva de Artes Plásticas, no Saguão do Salão de Atos da Reitoria da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. 1977 - Exposição Retrospectiva "Vinte anos de Arte" no Gay Room do New Flower City, em Porto Alegre. 1979 - Lendas Negras do Afro-Brasileiro — na Universidade Santa Ursula, Botafogo, Rio de Janeiro. 1979 -  Exposição individual “Força Baiana, Força Africana, Força Divina” no Rio de Janeiro, nas Faculdades Integradas Simonsen. 1980 -  Exposição pretos velhos da série “Conscientização" em homenagem ao Zumbi dos Palmares, no Rio de Janeiro. 1983 - Exposição Individual de Pintura e Desenho, "ÁFRICA NEGRA NO BRASIL". 1984 - Exposição na Caixa Econômica de Volta Redonda. 1991 - Exposição no Museu de Arte do Rio Grande do Sul ( MARGS). 1993 - Exposição de arte poliédrica no Espaço Novos Meios da Casa de Cultura Mario Quintana.

Prêmios

1959 - pentacampeão gaúcho de vestimentas de blocos carnavalescos, prêmio conquistado pela qualidade dos figurinos que criou para o carnaval em Porto Alegre.