O Partido Comunista da China (PCC ou PCCh) enquadra sua ideologia como o marxismo-leninismo adaptado ao contexto histórico da China, processo denominado , frequentemente expresso como socialismo com características chinesas. As principais contribuições ideológicas da liderança do PCC são classificadas como “Pensamento” ou “Teoria”, sendo que “Pensamento” possui maior peso político e histórico. Entre os conceitos influentes estão o Pensamento de Mao Zedong, a Teoria de Deng Xiaoping e o Pensamento de Xi Jinping. Outros conceitos importantes incluem a economia socialista de mercado, a Teoria das Três Representações de Jiang Zemin e a Visão Científica de Desenvolvimento de Hu Jintao.

Definição Nos primeiros anos do PCC, o nacionalismo e o populismo predominantes na China da década de 1910 desempenharam um papel importante na ideologia dos primeiros comunistas, como Li Dazhao e Mao Zedong. Por um lado, o marxismo representava uma utopia espiritual para esses primeiros comunistas; por outro, eles modificaram ou “sinizaram” (ou "chinizaram") algumas doutrinas da ideologia comunista de maneira realista e nacionalista para apoiar a revolução na China. No processo de estabelecimento do regime, da reforma agrária e da coletivização, essas sínteses ideológicas levaram ao surgimento de movimentos marcantes como o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural.

Nos últimos anos, tem-se argumentado, principalmente por comentaristas estrangeiros, que o PCC não possuiria uma ideologia, sendo a organização partidária pragmática e interessada apenas no que funciona. O PCC, contudo, afirma o contrário. Por exemplo, o secretário-geral do PCC Hu Jintao declarou em 2012 que o mundo ocidental estava “ameaçando nos dividir” e que “a cultura internacional do Ocidente é forte enquanto nós somos fracos... os campos ideológico e cultural são nossos principais alvos”.

O PCC não investiu grande esforço nas escolas partidárias nem na elaboração sistemática de sua mensagem ideológica. Antes da campanha “Prática é o único critério da verdade”, a relação entre ideologia e tomada de decisões era dedutiva, isto é, as políticas derivavam do conhecimento ideológico. Sob Deng Xiaoping, essa relação foi invertida, passando a ideologia a justificar as decisões, e não o contrário. Por fim, formuladores de políticas chineses acreditam que uma das razões para a dissolução da União Soviética foi a estagnação da ideologia partidária. Assim, consideram que a ideologia do partido deve ser dinâmica para salvaguardar o poder do PCC, diferentemente do Partido Comunista da União Soviética, cuja ideologia se tornou “rígida, pouco imaginativa, ossificada e desconectada da realidade”.

O arcabouço ideológico do PCC distingue ideias políticas descritas como “Pensamento” (como no Pensamento de Mao Zedong) ou como “Teoria” (como na Teoria de Deng Xiaoping). O “Pensamento” tem mais peso do que a “Teoria” e expressa a maior importância relativa da influência ideológica e histórica de um líder. O processo de formalização do pensamento político de um líder na tradição marxista é fundamental para estabelecer sua legitimidade ideológica.

Ideais e convicções No artigo “Revolutionary Ideals are Higher than Heaven-Studying Comrade Xi Jinping’s Important Elaboration concerning Strengthening Ideals and Convictions” (publicado em 2013), um autor que escreve sob o pseudônimo “Autumn Stone” apoia a política do secretário-geral do PCC Xi Jinping de fortalecer a convicção ideológica dos quadros do partido, uma vez que, conforme o mantra leninista, a unidade ideológica conduz à unidade partidária. O autor afirma que “ideais e convicções são as bandeiras espirituais da luta unida de um país, de uma nação e de um partido; a vacilação nos ideais e convicções é a forma mais nociva de vacilação”. A adesão aos ideais e convicções do partido cria um vínculo entre o partido e as massas, permitindo-lhe “alcançar vitórias onde quer que vá”. Desde a dissolução da União Soviética, os valores espirituais centrais dos membros tornaram-se mais importantes do que nunca, considerando a posição reforçada do capitalismo mundial. Xi Jinping acredita que a vacilação na convicção dos ideais do partido leva ao aumento da corrupção e de comportamentos indesejados. Membros exemplares existiram anteriormente, como Xia Minghan, que disse “não temo ser decapitado, desde que o meu ismo seja verdadeiro”; Yang Chao, com “o céu está cheio de chuva, vento e preocupação; pela Revolução, não é necessário temer perder a cabeça”; e Fang Zhimin, que afirmou que “o inimigo só pode cortar nossas cabeças, mas não pode abalar nossas crenças!”. O autor sugere que esses homens eram incorruptíveis porque carregavam os ideais e convicções do partido. A dissolução da União Soviética, segundo o autor, deveu-se em grande parte à vacilação ideológica dos funcionários, alegando inclusive que Mikhail Gorbachev, o último líder soviético, teria reconhecido em privado que os ideais comunistas haviam se tornado obsoletos para ele. A desintegração no campo ideológico pode levar a rupturas em outras áreas do edifício partidário, abrindo caminho para o colapso do partido.

Em 2006, na 16ª Sessão Plenária do 16º Comitê Central, a liderança do PCC sob o secretário-geral Hu Jintao expressou a necessidade de criar um novo sistema de valores, denominado Valores Socialistas Fundamentais. Em seu discurso, intitulado “Resolution on Major Issues Concerning the Building of a Socialist Harmonious Society”, Hu Jintao afirmou:

A ideologia orientadora do marxismo, o ideal comum do socialismo com características chinesas, o espírito nacional com o patriotismo como núcleo, o espírito da época com a reforma e a inovação como núcleo e o conceito socialista de honra e desonra constituem os conteúdos básicos do sistema de valores centrais socialistas. Devemos persistir em integrar o sistema de valores centrais socialistas em todo o processo da educação nacional e da construção da civilização espiritual, fazendo com que ele permeie todos os aspectos do processo de modernização.

Marxismo–leninismo e Pensamento de Mao Zedong

O marxismo-leninismo foi a primeira ideologia oficial do Partido Comunista Chinês, combinando o marxismo clássico (as obras de Karl Marx e Friedrich Engels) com o leninismo (o pensamento de Vladimir Lenin). Segundo o PCC, o marxismo-leninismo “revela as leis universais que regem o desenvolvimento da história da sociedade humana”. Para o partido, o marxismo-leninismo fornece uma visão das contradições da sociedade capitalista e da inevitabilidade de uma futura sociedade socialista e comunista. Marx e Engels criaram a teoria da construção partidária marxista, e Lenin a desenvolveu na prática antes, durante e após a Revolução Russa de 1917. A maior realização de Lenin ocorreu na construção do partido, por meio de conceitos como o partido de vanguarda da classe trabalhadora e o centralismo democrático.

O de 1929 foi importante para estabelecer o princípio do controle do partido sobre as forças armadas, que permanece como um princípio central da ideologia partidária. No curto prazo, esse conceito foi desenvolvido no Programa de Junho de 1930 para o Exército Vermelho do Quarto Corpo e nos Regulamentos Provisórios de inverno de 1930 sobre o trabalho político do Exército de Operários e Camponeses da China, que estabeleceram formalmente a liderança do partido sobre o Exército.

O Pensamento de Mao Zedong é o marxismo-leninismo adaptado ao contexto histórico da China, em especial à sua sociedade predominantemente agrária. O Pensamento de Mao Zedong foi concebido não apenas por Mao Zedong, então presidente do PCC, mas também por dirigentes importantes do partido. Seus textos fundamentais incluem o ensaio de Mao de 1937, Sobre a Contradição. Atualmente, o PCC interpreta a essência do Pensamento de Mao Zedong como “Buscar a verdade a partir dos fatos”: “devemos partir da realidade e colocar a teoria em prática em tudo. Em outras palavras, devemos integrar a teoria universal do marxismo-leninismo às condições específicas da China”.

Entre 1942 e 1944, o PCC instituiu o , que buscou eliminar diferenças ideológicas entre quadros e intelectuais e moldá-los como “novos homens” socialistas. Após essa campanha, a ideologia do partido consolidou-se em torno do pensamento de Mao Zedong. O conceito da linha de massas desenvolveu-se nesse contexto.

thumb|left|Monumento dedicado a Marx (à esquerda) e Engels (à direita) em Xangai, China Embora analistas geralmente concordem que o PCC rejeitou o marxismo-leninismo ortodoxo e o Pensamento de Mao Zedong (ou ao menos elementos básicos da ortodoxia), o próprio partido discorda. Alguns comentaristas ocidentais falam inclusive em uma “crise de ideologia” no interior do partido, acreditando que o PCC teria abandonado o comunismo. Wang Xuedong, diretor do Institute of World Socialism, respondeu: “Sabemos que há pessoas no exterior que pensam que temos uma ‘crise de ideologia’, mas não concordamos”. Segundo o ex-secretário-geral do PCC Jiang Zemin, o partido “jamais deve abandonar o marxismo-leninismo e o Pensamento de Mao Zedong”, pois, se o fizesse, “perderia sua base”. Ele acrescentou que o marxismo, como qualquer ciência, “precisa mudar à medida que o tempo e as circunstâncias avançam”. Alguns grupos argumentam que Jiang Zemin encerrou o compromisso formal do PCC com o marxismo ao introduzir a Teoria das Três Representações. O teórico do partido Leng Rong discorda, afirmando que Jiang “eliminou os obstáculos ideológicos a diferentes formas de propriedade [...] não abandonou o marxismo nem o socialismo, mas fortaleceu o partido ao oferecer uma compreensão moderna do marxismo e do socialismo — razão pela qual falamos em uma ‘economia socialista de mercado’ com características chinesas”. O marxismo, em seu núcleo, é para Jiang Zemin uma metodologia e o objetivo de uma futura sociedade sem classes, e não apenas uma análise de classes e de suas contradições.

Karl Marx argumentava que a sociedade atravessou diferentes estágios de desenvolvimento e acreditava que o modo de produção capitalista era o quarto estágio. Os estágios seriam: comunismo primitivo, escravidão, feudalismo, capitalismo, socialismo e o modo de produção comunista. A realização do “comunismo” pleno é descrita como o “objetivo final” do PCC e da China. Embora o partido afirme que a China se encontra na fase primária do socialismo, alguns teóricos sustentam que o estágio atual “se assemelha muito ao capitalismo”, enquanto outros defendem que “o capitalismo é o estágio inicial ou primeiro do comunismo”. Em pronunciamentos oficiais, a fase primária do socialismo é prevista para durar cerca de 100 anos, após os quais a China alcançaria outro estágio de desenvolvimento. Alguns descartam esse conceito como cinismo intelectual. Segundo o analista Robert Lawrence Kuhn, “quando ouvi essa justificativa pela primeira vez, achei mais cômica do que engenhosa — uma caricatura irônica de propagandistas medíocres vazada por cínicos intelectuais. Mas o horizonte de 100 anos vem de teóricos políticos sérios”.

Contradição