A Fonte Santa de Quarteira é uma fonte termal situada nas imediações da cidade de Quarteira, na região do Algarve, em Portugal.

Descrição Segundo os estudos feitos em 1929, a nascente da Fonte Santa emergia a partir de uma rocha calcária, atravessando depois uma camada de areia com cerca de dois a três metros de espessura. A água atingia por vezes um grande volume, tendo sido descrito pelo engenheiro Silva Carvalho como «um caudal de água mineral da ordem dos 5 litros por segundo saindo à superfície em bulhões». O professor Charles Lepierre descreveu a água da Fonte Santa em 1928: «Água hipossalina. A mineralização desta água é quase o dobro da água de Benémola. É isento de contaminação de origem suspeita. Por isso é própria para uso interno. Como bicarbonatada cálcica e cloretada sódica, fraca, pode encontrar aplicações interessantes no tratamento do reumatismo e outras formas de artritismo, tal como acontece com águas congéneres». Por seu turno, o médico termalista Ascenção Contreiras descreveu a água em 1930 como sendo «uma nascente hypertermal, hipossalina, cloretada sódica, bicarbonata cálcica levemente magnésica; consequentemente dela se pode tirar proveitoso resultado nos reumatismos crónicos e sub-agudos. Pelos efeitos estimulantes sobre a circulação periférica mostra-se útil ainda nas adenopatias e escrofulose. O seu predomínio de iões bicarbonatos; com propriedades dissolventes, e o seu conteúdo em cálcio assegura-lhe sobre o rim uma triplice acção: diurética, hemostática e anti-albuminurica. Em 1964, Ascensão Contreiras referiu os resultados de uma análise à água feita pelo professor Herculano de Carvalho, descrevendo-a como uma «fonte bicabornatada cálcica, cloretada sódica que, com os oligoelementos do seu enleio iónico alterando o metabolismo confere valor terapêutico dominante nas enfermidades reumáticas - de que goza proverbial crédito, bem como mostra eficiência nas anciloses, no neuroartritismo e no linfatismo». Em comparação com outras fontes termais, referiu que era equivalente «aos caudais espanhóis da Fonte Capuchina (Lanjarón), aos de Jaraba, Artejo e Solares», e que era também «semelhante aos veios hidrotermais franceses de Biarritz, às nascentes italianas de Oliveto e aos bolhões da estação balnear de Bex, na Suíça». Sobre a sua aplicação, relatou que «administrada em bebida, promove efeito estimulante gastrointestinal por aumento de secreções, mercê do qual cessam estados dispépticos e hepatopatias», acrescentando que «intensifica os fenómenos respiratórios correlativos à actividade das combustões orgânicas e purificação sanguínea.»

Com efeito, serviam tradicionalmente para aliviar as dores e as doenças de pele e acelerar a cicatrização das feridas. O próprio nome de Fonte Santa remete para as suas qualidades curativas, que eram popularmente reconhecidas como milagrosas. Muito perto da fonte encontra-se uma área húmida, conhecida como Almargem. Era igualmente muito usada pelas lavadeiras de Quarteira, que limpavam ali as roupas. O nome de Fonte Santa foi colocado numa rotunda situada nas proximidades, que foi decorada com várias esculturas de lavadeiras.

História Antiguidade A nascente terá sido utilizada pelos romanos e cartagineses, tendo sido encontrados os vestígios de um complexo termal, com canalizações em pedra «em que parece ter havido uma tubagem de chumbo, que se dirigia de Loulé Velho às águas medicinais da Fonte Santa, mais a Norte». Foram igualmente identificados os traços de uma estrada romana ligando a Fonte Santa a Loulé.

Século XX A Fonte Santa foi afamada a nível nacional e mesmo mundial pelas suas capacidades terapêuticas, sendo principalmente visitada nos dias das festas de Santa Rosa de Lima, em Agosto, e São Tiago, em Julho, sendo este último considerado padroeiro da fonte. O médico Ascensão Contreiras descreveu como se fazia tradicionalmente o processo de cura, embora tenha referido que a nascente era principalmente usada durante as celebrações de São João e de Santiago: «curioso no tocante ao folclore, será de citar o pitoresco de forasteiros à Fonte Santa, que ali ocorrem em romaria, nomeadamente nos dias de São João e de Santiago, a tomar três banhos na arreigada crendice de ser o suficiente para efeito curativo.»

Na década de 1920 foi feita uma tentativa para explorar as águas da Fonte Santa, tendo José da Costa Ascenção e José Joaquim Soares ordenado a realização de análises em 27 de Janeiro de 1928, mas estas revelaram que tinha um teor muito elevado de calcário, sendo por isso interdita ao consumo humano. Além disso, apurou-se que a área da Almargem era uma forte origem de contaminação da água. Foi depois feita por uma nova análise pelo professor Charles Lepierre, cujo relatório descreveu as capacidades curativas da nascente da Fonte Santa. Baseados nestes resultados, José Ascenção e José Soares registaram a nascente na Câmara Municipal de Loulé em 28 de Novembro de 1928. A coordenação técnica dos trabalhos foi entregue ao engenheiro Ricardo Esquivel Teixeira Duarte, que propôs a construção de um hotel com trinta quartos. No entanto, este empreendimento encontrou graves dificuldades, tendo o engenheiro J. Silva Carvalho apontado entre os principais motivos a falta de capacidade financeira, e a ausência de planeamento no sentido de criar uma zona de defesa bacteriológica, como exigido pela legislação. Assim, foi só devido à intervenção do Dr. Ascenção Contreiras junto à Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos que o processo continuou. O engenheiro Santos Segurado fez uma missão de reconhecimento no local, tendo o seu relatório de Maio de 1930 apontado várias deficiências no proposto estabelecimento termal, e defendido a necessidade de proteger a nascente das cheias que sucediam na Almargem, e que fosse construído um lavadouro público aproveitando as águas que sobrassem. Na sequência deste documento, foi necessário apresentar um novo plano para as termas, do qual foi encarregado o engenheiro Freire de Andrade. O seu relatório deu entrada na Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos em 3 de Junho de 1931, e preconizava um novo sistema para a captação das águas. O edifício foi desenhado pelo arquitecto Cottinelli Telmo, e teria um balneário com três corpos de um só piso, com doze cabines de banho, sendo no estilo de influência islâmica. com telhado mourisco e arcos duplos em ogiva. Contaria igualmente com uma buvete, uma oficina para engarrafamento, e um balneário público. Desta forma, os interessados desistiram da ideia de construir um hotel termal, mas passaram a querer um centro para engarrafamento da água, equipamento que seria muito dispendioso devido à maquinaria necessária.

A Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos reservou uma área de concessão de cinquenta hectares, cujo alvará foi publicado no Diário do Governo n.º 116, Série II, de 20 de Maio de 1932. Devido ao elevado investimento necessário, os concessionários criaram a Sociedade da Fonte Santa e Benémola, para a qual foi transferido o alvará. Porém, as obras nunca chegaram a arrancar, embora a sociedade tenha continuado a pagar os impostos da concessão durante várias décadas. Com efeito, num diploma publicado no Dário do Governo n.º 220, Série II, de 19 de Setembro de 1958, refere-se a presença de duas fontes termais no Algarve: a de Monchique e a da Fonte Santa, sendo esta última descrita como estando na posse da Sociedade da Fonte Santa e Benémola, que pagava um imposto anual ao estado.

Em 14 de Agosto de 1959, J. Silva Carvalho proferiu uma conferência sobre a Fonte Santa no Casino de Quarteira, onde defendeu a sua exploração e valorização. Nesta comunicação criticou a falta de estruturas de apoio aos banhistas, descrevendo a forma como eram forçados a montar barracas junto à fonte para se alojarem durante os banhos. Denunciou a forma como a lavagem de roupa tinha poluído as águas, embora não lhes tenha retirado completamente as capacidades terapêuticas, sendo ainda usadas pelos doentes das redondezas. Afirmou igualmente que a Junta de Turismo de Quarteira estava interessada em aproveitar a fonte, que então estava já numa situação de abandono, embora esperando que os banhistas ficassem alojados nas pensões já existentes perto da praia. Com efeito, a Junta pretendia evitar a construção de quaisquer hotéis junto da fonte, alegando que caso os doentes ficassem nas unidades de alojamento na Praia de Quarteira, isto seria benéfico para eles próprios, onde poderiam gozar do dinamismo daquele destino balnear, e ao mesmo tempo combater a falta de procura durante o Inverno.

Em 16 de Setembro de 1964, a Gazeta dos Caminhos de Ferro» transcreveu um artigo publicado no Boletim de Minas, onde se mencionou que estavam «praticamente terminados os trabalhos desta nascente que tiveram como trabalho primordial a realização de sondagens. Foram abertos três furos de sonda que no conjunto deram caudais na ordem dos 200 m³ por hora (apenas por artesanianismo). A empresa concessionária pretende criar no local da concessão dois centros termais, uma para as classes menos abastadas e outro de luxo, este último situado já próximo da praia da Quarteira. Realizadas as obras previstas, a nascente FONTE SANTA tornar-se-á numa das principais estações termais do País». Em 1 de Novembro desse ano, a Gazeta dos Caminhos de Ferro publicou uma comunicação do Dr. Ascenção Contreiras sobre termalismo no Congresso Nacional de Turismo, onde referiu que tinham sido feitos «recentes estudos geohidrológicos» na nascente, no sentido de «alargar o âmbito dos seus expressivos dotes hidrominerais - com forte fomento do turismo», e acrescentou que «procura-se, com a captação do manancial, seja aberta em breve prazo à industrialização a Fonte Santa, dotada de alojamentos condignos». Nesta época já Quarteira estava em pleno desenvolvimento, com a presença de várias pensões, e estava planeada a construção de hotéis e a abertura de uma estrada melhorando as ligações ao Aeroporto de Faro. Em 1965, Ascenção Contreiras escreveu o artigo As Maravilhosas Termas do Algarve para a Gazeta dos Caminhos de Ferro», onde voltou a mencionar os planos para a construção do estabelecimento do termal: «Pretende-se erguer nessa estância de clima tonificante uma obra de elevada escala europeia. Na linha da iniciativa sobressai a oferta de um Balneário ao Municipio, destinado à assistência social.''»

Século XXI Em Julho de 2021, a Associação de Moradores e Empreendedores da Fonte Santa organizou uma cerimónia naquele local, dedicada a São Tiago, tendo o pároco de Quarteira, Padre Joaquim Campôa, abençoado uma imagem do santo, e foi inaugurada uma placa comemorativa. Este evento também teve como finalidade divulgar a Fonte Santa, para combater o estado de esquecimento quase total em que se encontrava, tendo o Padre Joaquim Campôa alertado igualmente para a necessidade da obras de restauro dos azulejos. Também em 2021, o colunista Manuel da Silva Costa denunciou que as águas estavam fortemente poluídas, devido aos efeitos de uma pocilga anexa à fonte, e recordou que em 2018 tinham sido feitas descargas de lixiviados nas linhas de água perto daquele local, que corriam para a área húmida da Almargem. Segundo Silva Costa, as descargas terão sido feitas pelo Aterro Sanitário da Cortelha, ao qual se juntavam outras origens poluentes, com a lavagem dos veículos automóveis e uma estação de abastecimento de combustíveis.

Ver também Património edificado no concelho de Loulé Caldas de Monchique Água Santa da Herdade de Santa Maria Termas de São João do Deserto

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