Milton Alves da Silva, mais conhecido como Salvador (Porto Alegre, 16 de outubro de 1930 - São Paulo, abril de 1972),Fernandão e mais dez (dezembro de 2006). Placar n. 1301-B. São Paulo: Editora Abril, pp. 48-49 foi um futebolista brasileiro que jogava como volante, no início da carreira, e zagueiro, ao final. Foi o primeiro brasileiro a vencer a Copa Libertadores da América: venceu precisamente a edição inaugural, com o Peñarol, além de entrar nas estatísticas da competição também como um dos jogadores presentes na primeira partida da história do torneio.

Também é um dos maiores ídolos do Internacional, eleito por três vezes para o time colorado dos sonhos, em eleições promovidas pela revista Placar em 1982, em 1994 e em 2006. Ganhou o apelido ainda em jogos colegiais, por marcar gols descritos como "salvadores".Salvador (abril de 2009). Placar n. 1329-A. São Paulo: Editora Abril, p. 49 Ele, porém, se consagraria como volante, ou centromédio, como a posição também era chamada. O Peñarol o contratou para que sucedesse precisamente Obdulio Varela nessa posição do campo.

Dotado de fôlego equiparado ao de um maratonista, Salvador era elogiado por lançamentos "perfeitos" (na descrição de Carlitos) e pela capacidade de organizar o jogo. Gradualmente, passou a ser escalado de modo mais recuado, como zagueiro, posição em que já atuava quando venceu aquela Copa Libertadores de 1960.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1960. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 108-113

Carreira Início

Nativo do bairro porto-alegrense do Menino Deus, começou a praticar futebol no Pão dos Pobres, colégio em que estudou dos oito aos dezoito anos e onde formou-se como impressor de tipografia. Foi ali que, destacando-se em partidas interclasses até contra alunos mais velhos, obteve o apelido de Salvador. Na versão mais difundida, pela frequência de gols "salvadores". Em outra versão, por "carregar nas costas" a equipe colegial; em outra, por alguma semelhança física com alguém que já teria o mesmo apelido.

Após deixar o colégio, ele inicialmente seguiu praticando futebol de modo recreativo, em jogos de várzea, nas folgas de seu trabalho. Foi assim prospectado pelo Força e Luz, em 1949, época em que este clube ainda se chamava Corinthians. O treinador era Otto Bumbel.

Segundo o próprio jogador, não ganhou muito dinheiro no Força e Luz, mas, em compensação, muita experiência. Foi no "Forcinha" que o apelido de Salvador se disseminou definitivamente, diante do temor dele de que ser noticiado pelo nome real pudesse lhe causar problemas no emprego que possuía em paralelo ao esporte. Ele gostava da alcunha, como contou em 1953 para O Cruzeiro: "muita gente não gosta de apelido. Comigo dá-se o contrário. Sei que Milton foi um grande poeta inglês, mas o Salvador foi muito mais, redimiu o mundo. E, às vezes, quando o meu time vence e escrevem que joguei tão bem que fiz jus ao meu nome de guerra, sinto-me tremendamente envaidecido".

Internacional e seleções thumb|right|350px|Último em pé pelo Internacional em 1953. Vindo do Força e Luz, chegou ao Internacional a tempo de obter o campeonato gaúcho de 1950. O título de 1950 foi o primeiro de quatro títulos estaduais seguidos do chamado "Rolinho", como era apelidada aquela geração colorada sucessora do "Rolo Compressor" da década de 1940. Salvador esteve em todo o tetracampeonato, declarando que "juntava o útil ao agradável", pois atuava no clube pelo qual torcia.

A conquista estadual de 1952 incluiu gol dele, seu único em Grenais, em goleada de 5-1 (no antigo estádio dos Eucaliptos) em 7 de dezembro, pela fase citadina do certame.Em cada jogo, uma guerra (maio de 2005). Placar Especial 35 Anos - Coleção de Aniversário n. 2, "Os Grandes Clássicos". Editora Abril, pp. 90-97 Naquele mesmo ano, começou a participar também da Seleção Gaúcha, defendendo-a no Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais daquele ano, quando o certame era valorizado. Na edição de 1952, o Rio Grande foi semifinalista.

Já a ocasião que Salvador considerava como sua maior alegria como jogador colorado foi o honroso empate em 1-1 dentro do estádio Centenario frente a Seleção Uruguaia, então campeã do mundo, em 23 de março de 1953. A Celeste utilizou na ocasião Roque Máspoli, Matías González, Víctor Rodríguez Andrade, Julio Pérez, Óscar Míguez e Juan Alberto Schiaffino, todos presentes no Maracanaço,GEHRINGER, Max (dez. 2005). Os campeões. Placar - A Saga da Jules Rimet, fascículo 4 - 1950 Brasil. São Paulo: Editora Abril, pp. 40-41 bem como William Martínez, reserva naquele título e futuro companheiro do próprio Salvador na defesa do Peñarol. Um ano depois daquela vitória, comentou que "naquele dia eu senti que algo de grandioso nós tínhamos conquistado".

Também em 1953, passou a ser considerado pela Seleção Brasileira, figurando entre os pré-convocados ao Copa América daquele ano, embora não tivesse oportunidade "porque Danilo, Ely e Bauer, em grande forma, não davam chance a ninguém", segundo palavras dele próprio para a revista O Cruzeiro. Anos depois, para a Manchete Esportiva, complementou que era visto como ainda jovem demais. Nas eliminatórias da Copa do Mundo FIFA de 1954, ocorridas entre fevereiro e março do próprio ano de 1954, ele não chegou a entrar em campo, mas esteve entre os convocados aos jogos contra Chile e Paraguai.

Sua única partida pelo Brasil deu-se precisamente em 1954, em 9 de maio, em amistoso pré-Copa contra um combinado da Colômbia. O Brasil venceu por 2-0, com Salvador entrando no decorrer do jogo para substituir Brandãozinho, no Maracanã. Integrou a lista de pré-convocados à Copa do Mundo FIFA de 1954, mas terminou não mantido para a convocação final. A própria possibilidade de sua presença, no contexto da época, era um logro raríssimo para jogadores de fora de Rio de Janeiro ou São Paulo, tardando-se até a Copa do Mundo FIFA de 1966 para que o Brasil levasse a um Mundial um futebolista que atuasse no Rio Grande do Sul (Alcindo). Uma lesão, porém, o teria atrapalhado, assim como a preocupação da comissão em satisfazer a todos do Eixo Rio-São Paulo a ponto de rigorosamente metade dos 22 convocados ser de algum dos quatro grandes cariocas e a outra metade ser oriunda do trio paulistano acrescido da Portuguesa. Nas primeiras semanas depois do corte, Salvador, em junho, descrevia o momento com sua maior tristeza no futebol, embora declarasse respeitar a opção do treinador Zezé Moreira e desejasse sorte aos convocados. Um ano depois, mais resignado, afirmava que sua presença entre os pré-convocados era sua principal alegria, juntamente com aquele empate contra o Uruguai.

Ainda em 1954, em 20 setembro, ele participou de Grenal amistoso, mas dos mais recordados: foi válido pelas festividades de inauguração do estádio Olímpico Monumental e terminou com goleada de 6-2 sobre os anfitriões.Que visita... (abril de 2009). Placar n. 1329-A. São Paulo: Editora Abril, p. 56 O clássico também lhe trouxe questionamentos: o centromédio chegou a polemizar por fraturar a perna do adversário Xisto em outro Grenal, lance que chegou a rotular Salvador como um jogador violento. Ao todo, Salvador disputou por 22 vezes o clássico, sendo derrotado em apenas duas.

O passo do tempo voltou a reconhecê-lo como um futebolista de jogadas limpas e habilidosas, mas Salvador chegou mesmo a ter até mesmo sua importância contestada; em maio de 1955, pouco após a saída dele, um comentarista já alertava: "vi muitos torcedores e técnicos de café dizerem que Salvador não jogava nada, que quem jogava era o Oreco, o Odorico e etc e ele jogava nas costas dos outros. Salvador foi e os outros ficaram e o Internacional não se acerta". A venda coincidiu com o início de longo período de pouquísimos títulos: o Inter pôde terminar campeão estadual de 1955, mas dali até o ano de 1969 só venceu o certame de 1961, intercalando um pentacampeonato e um heptacampeonato gremista. Salvador não permaneceu para o título de 1955, realizando ainda em 9 de janeiro daquele ano seu último Grenal (vitória de 2-1); nove dias depois, já fazia sua primeira partida pelo Peñarol.

O negócio com o Peñarol foi, na época, a contratação mais cara envolvendo um futebolista do Rio Grande do Sul, girando em torno de um milhão de cruzeiros. Ao todo, Salvador tem conhecidas 187 partidas e quatorze gols como jogador do Internacional. Foi incluído entre os cem maiores ídolos dos primeiros cem anos do clube, em edição especial preparada pela revista Placar comemorativa ao centenário colorado, em 2009.

A revista Placar também elegeu por três vezes Salvador para o time dos sonhos do Inter, escalando-lhe no meio-campo juntamente com Carpegiani e Falcão nessas três ocasiões, em 1982, 1994 e 2006. Em nova eleição promovida em 2025 pela revista, os eleitores já preferiram inserir Andrés D'Alessandro junto aos outros dois.

Peñarol thumb|right|180px|Em 1957, ano em que foi cogitado para a Copa do Mundo FIFA de 1958. Salvador foi contratado em 1955 pelo Peñarol, com a finalidade de substituir Obdulio Varela, que ia parar de jogar.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1955. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 100-10 1 Já em 18 de janeiro o brasileiro foi testado pela primeira vez, em vitória amistosa por 2-0 contra o Estrela Vermelha, que visitava o estádio Centenario. Nessa ocasião, porém, ainda não estava transferido definitivamente: Peñarol e Internacional seguiam acertando a negociação ao longo de fevereiro, aguardando-se o desfecho do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais para a transferência se efetivar; a Seleção Gaúcha foi eliminada já em março nas semifinais. Com isso, o segundo jogo de Salvador pelo novo clube tardou até abril, em derrota de 3-2 para o Flamengo.

Obdulio fez sua última partida em 14 de maio daquele ano, contra o Danubio. Curiosamente, quatro dias depois, em 18 de maio, houve jogo entre Inter e Peñarol, fazendo com que Salvador enfrentasse a ex-equipe. Em empate encerrado em 3-3 no Centenário, entrou no decorrer do jogo, a partir do intervalo.

Ele não foi o primeiro a ter defendido Internacional e Peñarol, já havendo o antecedente do também brasileiro Pirillo na década de 1940. O intercâmbio, contudo, se tornou mais numeroso depois da estadia de Salvador: o argentino Elio Montaño chegou a jogar nos dois clubes já em 1959. Alfredo Lamas e o chileno Elías Figueroa foram alguns dos nomes seguintes, entre o final da década de 1960 e o início da de 1970; no início da década de 1980, as duas diretorias trocaram o brasileiro Jair por Rubén Paz no mesmo negócio. Diego Aguirre também jogou por ambos naquela década, tornando a defendê-los como treinador já na década de 2010, em que Jorge Fossati também treinou as duas equipes. Óscar Aguirregaray, Nicolás Freitas, Diego Forlán, Ronaldo Conceição (brasileiro) e Abel Hernández foram outros atletas que desde a década de 1990 apareceram em comum, em relação de amizade que se consolidou entre os dois clubes e suas torcidas.