JJ Gonçalves (Pampilhosa da Serra, 19 de janeiro de 1929 - Cascais, 23 de janeiro de 2023), nome pelo qual José Júlio Gonçalves era conhecido, sobretudo no meio universitário, foi um professor catedrático, sociólogo e antropólogo cultural português, que iniciou a sua formação superior no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, onde depois foi docente, tendo sido percursor da sociologia da informação e da comunicação em Portugal, com vasta obra científica publicada nestes domínios, defensor da necessidade de formação ao nível superior dos jornalistas, sendo, ao 25 de abril de 1974, subdiretor do jornal "A Capital". Após a «revolução dos cravos», foi fundador e docente da Universidade Livre de Lisboa e fundador e reitor da Universidade Moderna, bem como, enquanto especialista em comunicação social, colaborou com o Estado Maior do Exército, tendo sido ainda um dos idealizadores dos serviços de informações militares. Biografia Formação Em 1954, concluiu, no Escola Superior Colonial, o Curso de Administração Colonial, e, em 1957, no já então Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, o Curso de Altos Estudos Coloniais, tendo sido ainda aluno da Universidade de Lisboa no final da década de 1950. Doutorou-se em antropologia e sociologia, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina e, em 1959, em Ciências Políticas, pela Faculdade de Ciências Políticas e Económicas da Universidade Complutense de Madrid . Docência Em 1959, foi Assistente do Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, tendo, em 1961, sido aprovado no concurso para Professor auxiliar daquele estabelecimento de ensino. Em 1967 tomou posse como Professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina, onde regeu de várias disciplinas até à sua reforma e no qual foi também viria Presidente do Conselho Científico, quando aquele estabelecimento de ensino se passou a designar por Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas Em 1977, foi fundador, impulsionador e professor catedrático da Universidade Livre de Lisboa, onde se manteve até ao início da década de 1980, regendo a cadeira de Introdução ao estudo do Direito. Finalmente, na década de 1990 e início do século XXI, foi fundador, docente e reitor da Universidade Moderna, tendo sido presidente da direção de 1997 a 1999<ref name=Coimbra/Professores in Livro de curso - Direito 1978/1983 da Universidade Livre; Lisboa; 1983; e na documentação, constante no espólio da Universidade Livre de Lisboa, arquivada e consultável na Direcção-Geral do Ensino Superior.

Outras atividades Considerado uma persona controversa e muito criativa, relevam ainda da sua vida os seguintes dados: participou nos trabalhos de revisão da edição portuguesa da Classificação decimal universal, publicada, em 1954, pelo Instituto de Alta Cultura; foi membro da Secção de estudos Luso-Árabes da Sociedade de Geografia de Lisboa; foi membro do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa; foi diretor do Centro Português de Estudos Europeus; colaborou com a Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura; no dia 25 de abril de 1974 era subdiretor do jornal "A Capital" e fez sair para as "ruas da Revolução", contra ordens superiores, a edição daquele jornal vespertino; em 1975-1976, especialista em comunicação social e em matérias de propaganda, colaborou com o Estado Maior do Exército quando este foi chefiado pelo general António Ramalho Eanes; em 1984, foi um dos conceptores dos serviços de informações; em 1984, participou, com Marcelo Rebelo de Sousa, Santana Lopes, José Miguel Júdice e Durão Barroso, no quadro do Partido Social Democrata (Portugal), na moção da Nova Esperança, que se afirmou como alternativa ao grupo encabeçado por Francisco Pinto Balsemão e Mota Amaral; pertenceu à Maçonaria; durante o Estado Novo foi o mais frutífero estudioso do jornalismo, dando-lhe tratamento científico. Ao arrepio da tese prevalecente à época, de que era uma atividade profissional cuja aprendizagem devia ocorrer unicamente em meio laboral, pugnou pela premência e imperatividade da formação universitária dos jornalistas. Como escreveu Jorge Pedro Sousa em “Sociologia da comunicação: o trabalho pioneiro de José Júlio Gonçalves em Portugal” (trabalho produzido no âmbito do projeto de pesquisa “Teorização do Jornalismo em Portugal: Das Origens a Abril de 1974”, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (Portugal) e publicado na revista Comunicação & Sociedade, ano 31, n.º 53, p. 123-144, janeiro/junho 2010):

Vida pessoal JJ Gonçalves nasceu a 19 de janeiro de 1929, na Pampilhosa da Serra, distrito de Coimbra, sendo o mais velho de uma fratria de treze. Após o falecimento do pai, quando contava doze anos de idade, mudou-se com a mãe e os doze irmãos para o Porto, onde trabalhou nos Correios, como carteiro, estudando ao mesmo tempo (ensino liceal).

Rumou à capital e, sempre estudando e trabalhado de carteiro em Lisboa, formou-se no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa.

Próximo de Adriano Moreira, de quem foi assistente, em setembro de 1961, pouco depois da guerra colonial portuguesa ter começado, fez parte da comitiva daquele na sua visita oficial às províncias ultramarinas, enquanto ministro do Ultramar, ocasião em que, em Angola, ao governante, foi, no Hospital Central de Luanda, presente uma criança do sexo masculino, aparentando ter três anos de idade, que nem sabia dizer o seu nome e se pensava ser órfão de guerra, e que este trouxe para Portugal para ser adotada, como o foi, por Almerindo Lessa, em cumprimento de pedido por este previamente formulado a Adriano Moreira. Sendo necessário dar-lhe identidade e proceder ao seu registo Adriano Moreira deu-lhe o nome próprio de “João” e o apelido “de Mucaba”, localidade em cujos escombros foi encontrado ferido, entre mortos. José Júlio Gonçalves e a alferes enfermeira paraquedista Maria Ivone Reis foram os padrinhos (testemunhas do registo civil) da criança, que cresceu com o nome de João de Mucaba de Carvalho Lessa e foi técnico de 1.ª classe de análises clínicas e saúde pública no Centro Hospitalar de Lisboa Central.

São seus filhos: João Braga Gonçalves e José Braga Gonçalves.

Faleceu em Cascais, a 24 de janeiro de 2023, tendo o seu corpo sido cremado no Centro Funerário de Cascais, em Alcabideche, no dia 27 desse mês. Obra publicada Ao longo da sua extensa carreira académica escreveu dezenas de livros na área da Ciência política, Sociologia, Antropologia cultural e Comunicação, sendo de destacar: ’‘O Mundo Arabo-Islâmico e o Ultramar Português’‘; Lisboa; Junta de Investigações do Ultramar, Centro de Estudos Políticos e Sociais; 1958 (com 2ª edição em 1962); ISBN 9780321249265 ’‘As “elites” e o ultramar português’‘, Lisboa; Junta de Investigações do Ultramar; 1958 ’‘Protestantismo em África’‘, Vol 38; Junta de Investigações do Ultramar; 1960 ’‘Bibliografia Antropológica do Ultramar Português’‘, Lisboa, 1961 ’‘Técnicas de Propaganda: Elites, Estados e outros estudos’‘; Lisboa; Junta de Investigação do Ultramar; 1961 ’‘O Islamismo na Guiné Portuguesa’‘, Lisboa, 1961 ’‘Criação e reorganizações do Instituto Superior de Estudos Ultramarinos 1906-1961’‘; Iseu- Ultramar - Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina; 1962; ISBN 9788575111277 ’‘Sociologia da Informação’‘; 1963; ISBN 9788474080186 ’‘Política de Informação: Ensaios’‘; Lisboa; Junta de Investigação do Ultramar; 1963 ’‘Informação em Angola: Elementos para o Seu Estudo’‘; Lisboa; ISCSPU - Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina; 1964; ’‘Leis da Informação: Portugal: 1627-1965’‘; Braga; Pax; 1965; ’‘A Informação em Moçambique: Contribuição para o seu estudo’‘; Lisboa; Companhia Nacional Editora, 1965, bem como em Portuguese Colonialism and Islam Mozambique and Guinea, 1930 –1974: From Repression to Religious Seduction, de Mário Artur Machaqueiro, Liverpool University Press, 2023, ISBN 9781837643943 ’‘A Informação na Guiné, em Cabo Verde e em São Tomé e Príncipe’‘; Lisboa; ISCSPU - Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina; 1966; ’‘A Informação nas Províncias do Oriente: Elementos para o seu estudo’‘; Lisboa; Junta de Investigações do Ultramar/Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU); 1967; ’‘Síntese Bibliográfica de Goa’‘, II Volume; Agência-geral do Ultramar; 1967 ’‘Portugueses dispersos pelo mundo - síntese estatística’‘, Lisboa, Agência-geral do Ultramar, 1971 ’‘Os meios de comunicação social à luz da sociologia’‘; Lisboa; Academia Internacional da Cultura Portuguesa; 1972; ’‘ Alguns aspectos e problemas da evolução e condicionamento da imprensa em Portugal’‘; Lisboa; Academia Internacional da Cultura Portuguesa; 1972; ’‘Efeitos dos modernos meios de comunicação nas sociedades plurais’‘; Bissau; Boletim Cultural da Guiné Portuguesa; 1972; ’‘Os Portugueses e a introdução da imprensa em África’‘; Paris; Fundação Calouste Gulbenkian; 1972 Outros textos relevantes ’‘O Dialecto Crioulo de Cabo Verde’‘, Cabo Verde, 1958 ’‘Os missionários e o desenvolvimento da Antropologia’‘ ’‘Portugal no Mundo’‘; Lisboa; Sociedade de Geografia de Lisboa; 1967

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