A Igreja da Misericórdia da Batalha é templo de influência maneirista e barroca edificado entre os séculos XVIII e XIX no centro histórico da referida vila, no distrito de Leiria, em Portugal. Sita num espaço contíguo à Igreja Matriz, destaca-se pela sua fachada de verga abatida e pelo seu rico recheio artístico interior.

História

Origens A génese deste monumento remonta ao século XV, precedendo a actual configuração arquitectónica. A 19 de Outubro de 1427, foi lavrado o Compromisso da Confraria do Hospital de Santa Maria da Vitória. Esta fundação contou com a intervenção directa de oficiais ligados à construção do Mosteiro da Batalha e de funcionários judiciais e administrativos do concelho, sob a égide pastoral e jurisdicional do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Figuras como o ouvidor Martim Vasques e o escrivão João Lourenço, juntamente com as testemunhas Gonçalo Vasques, João Domingues, Afonso Lopes e Rodrigo Eanes, estabeleceram uma irmandade vocacionada para a caridade entre confrades, o auxílio a órfãos e peregrinos, e a assistência aos "pobres envergonhados".

No ano seguinte à fundação, em 1428, documentos referenciam já a existência física do hospital no sítio da "Mouraria", uma localização estratégica face às vias de acesso orientais da vila. A instituição cresceu através de doações sucessivas, como a de Pêro Eanes Maqueijo em 1449 e a do clérigo Rui Vasques em 1485, que doou duas herdades.

Mais tarde, a 13 de Dezembro de 1493, Lourenço Pires e sua mulher Catarina Martins venderam ao hospital uma terra na Batalha, situada junto a uma horta da Capela de São João. Já no século XVI, o edificado foi alvo de escrutínio eclesiástico, tendo os regedores da Canónica incumbido em 1506 o bacharel D. Fernando de Oliveira de comissionar o cónego D. Fernão de Paiva para visitar a instituição.

Em 1518, durante uma visitação canónica, o cónego D. Diogo Dias, provisor dos hospitais do priorado crúzio, instou o juiz da confraria — cargo então ocupado pelo célebre arquitecto Diogo Boitaca — a inspeccionar semanalmente o tratamento dos doentes. Nesta época, o edifício não era muito grande: cerca de 22 metros de comprimento por 8,8 metros de largura. O imóvel albergava aposentos para o hospitaleiro, enfermaria e uma capela.ALMEIDA, Álvaro Duarte de; BELO, Duarte (2007). Portugal Património: Guia-Inventário. VI. Lisboa: Círculo de Leitores. p. 41

Campanhas dos séculos XVI e XVII Sobre a antiga capela, as visitações de 1518 ordenavam que se levantasse o altar "bem feito", e que se colocasse uma cortina de linho que cobrisse "o arco de fundo acyma". O próprio Mestre Boitaca, descrito como alguém que "tinha muito carrego e desejos de acrescentar as cousas" da confraria, ofereceu azulejos para a obra. Ao longo do séculos XVI e XVII, registaram-se intervenções de diversos artífices: o carpinteiro Diogo Rodrigues, de Cela (aldeia na freguesia da Batalha), trabalhou no forro da capela em 1530; entre 1595 e 1605, o pintor António Taca concebeu em Leiria o retábulo de Nossa Senhora; e entre 1615 e 1616, registaram-se pagamentos ao mestre de obras António Carreira e ao pedreiro Pero Neto pelas obras no alpendre.

A transição formal para Misericórdia foi um processo moroso. Embora tentada em 1537 e novamente entre 1627 e 1636 pelo Bispo D. Dinis de Melo e Castro a resistência local ou inércia adiaram a mudançaO Couseiro ou Memórias do Bispado de Leiria, Braga, 1868. Apenas a 2 de Agosto de 1714, por carta régia de D. João V, a Confraria foi reformada e instituída como Casa da Misericórdia, adoptando os estatutos da congénere de Lisboa. Foi neste período setecentista, e prolongando-se pelo século XIX, que a igreja adquiriu a sua feição actual, com a execução do retábulo-mor e as ampliações da nave.

Século XIX No século XIX, a instituição mantinha uma actividade assistencial regular, sustentada por um quadro de pessoal remunerado: está documentado que em 1821, "o médico tinha o partido anual de 30$000 rs [réis], o cirurgião, 9$600 rs, o sangrador 9$500 rs, o capelão tinha de côngrua 50$000 rs, e o sacristão o ordenado de 36 alqueires de trigo; ao enfermeiro dava-se anualmente 24 alqueires de trigo e 18$000 rs, a um procurador letrado 4$800 rs, a um agente 28$800 rs".

Regista-se que, a 10 de Janeiro de 1880, a Misericórdia da Batalha herdou vários imóveis da capital (entre eles os números 86 a 96 da Rua dos Correeiros e 25 a 31 da Travessa da Vitória). Assim ditou o testamento do industrial lisboeta António Cândido da Encarnação, casado em segundas núpcias com Matilde Pereira Moniz. O legado tinha o encargo de esta edificar uma escola para ambos os sexos — "deixando para o professor o ordenado anual de 200$000 rs e para o da professora 150$000 rs, mais 90$000 rs para as despesas anuais" — e distribuir "60 esmolas de 4$500 rs anualmente para pobres mais necessitados da freguesia da Exaltação de Santa Cruz da Batalha", por via do pároco e Junta da Paróquia.

Já na década de 1920, o hospital da confraria foi extinto, o que motivou novas obras de adaptação no imóvel, tendo a estrutura sofrido intervenções de restauro mais recentes em 1993, nomeadamente no frontal de altar da capela lateral.

Descrição

Exterior

Arquitectura e enquadramento O conjunto edificado apresenta uma planta rectangular composta, integrando a igreja de nave única e presbitério, a que se adossam corpos laterais: à esquerda, a sacristia e anexos; à direita, um nártex lateral e a Casa do Despacho. A volumetria é escalonada, com coberturas diferenciadas de duas e quatro águas.

Em frente à fachada da igreja, há um adro pavimentado a calçada à portuguesa, onde se implanta um cruzeiro. Este elemento possui uma base quinhentista, embora a estrutura superior — fuste liso e cruz assente em representação do Monte Gólgota — seja possivelmente oitocentista. O espaço envolvente, parcialmente murado e gradeado, articula a Igreja da Misericórdia com a vizinha Matriz e os edifícios civis adjacentes.

Fachadas O exterior prima por uma sobriedade de linhas, caiado de branco com cunhais apilastrados.

A fachada principal, orientada a Noroeste, é o elemento de maior distinção arquitectónica. Rematada em empena com cornija e cruz pétrea, exibe ao centro um portal de verga abatida assente em falsas pilastras com decoração geométrica. Imediatamente sobre este, interligada por um friso de cantaria, rasga-se uma janela de varandim, de moldura idêntica, ladeada por brincos de concheados e encimada por um frontão de volutas que é interrompido pelo brasão nacional coroado. Este eixo central concentra a decoração tardo-barroca e rococó, contrastando com a nudez e sobriedade das restantes paredes.

A fachada lateral direita, onde se rasga uma porta de verga recta simples, apresenta um corpo adossado com galeria (nártex) no piso térreo, cujo acesso se faz por dois vãos mainelados suportados por pilastra toscana.

O corpo da Casa do Despacho é rasgado frontalmente por duas janelas rectangulares jacentes e gradeadas, erguendo-se sobre o cunhal uma sineira em arco de volta perfeita. A fachada posterior da capela é cega e terminada em empena.

Interior

Nave No interior, a nave é coberta por um tecto de madeira em masseira, formando caixotões, ostentando ao centro o brasão nacional em talha polícroma. O pavimento é em lajes de cantaria.

Do lado do Evangelho, destaca-se uma capela lateral de arco abatido, cujo intradorso em cantaria alberga um altar com frontal esculpido a imitar brocado e o monograma "AM". Segundo indícios materiais, este espaço poderá integrar elementos de um templo anterior, nomeadamente um arcossólio com colunelos manuelinos e uma imagem da Virgem com o Menino datável dos séculos XIV ou XV. No mesmo lado, abre-se a porta de acesso à sacristia, de verga curva alteada ao centro, que integra na própria porta um confessionário.

Do lado da Epístola, ergue-se o púlpito semicircular, com base em cantaria decorada com motivos vegetalistas e guarda de balaústres de madeira.

Coro-alto O coro-alto possui um sub-coro com guarda-vento de madeira, onde se encostam à parede fundeira duas amplas arcas de madeira. O retábulo-mor, encostado à parede testeira, é uma peça de talha polícroma (vermelho, verde, bege e dourado) de planta convexa. Estrutura-se em três eixos definidos por colunas coríntias e pilastras ornadas com concheados. A tribuna central, de perfil curvo, exibe um trono de três degraus decorados com almofadas delimitadas por filete dourado de cantos recortados, e um tecto com cartela recortada, sendo o conjunto rematado por um ático com fragmentos de frontão e um resplendor central. O estilo rococó domina a composição, visível na profusão de concheados e aletas. Na zona posterior do retábulo, existe um vão rectangular com ilhargas possuindo pintura mural a imitar mármores embrechados.

Sacristia A sacristia possui um lavabo maneirista de espaldar rectangular e bacia de bordo curvo, além de um arcaz pintado a marmoreados fingidos. É neste espaço que se conservam algumas imagens antigas, incluindo um Cristo do século XVI.

Casa do Despacho A Casa do Despacho, acessível pelo nártex ou interiormente, desenvolve-se em dois pisos, contendo a sala do Arquivo e um salão nobre no piso superior com tecto de madeira em gamela.