miniaturadaimagem|Maurício Nabuco em 1938 Maurício Hilário Barreto Nabuco de Araújo (Londres, 10 de maio de 1891 – Rio de Janeiro, 8 de agosto de 1979) foi um diplomata brasileiro. Filho de Joaquim Nabuco, construiu carreira de quase quatro décadas no Itamaraty, ocupando postos como embaixador nos Estados Unidos (1948–1951), representante junto à Santa Sé (1944–1948), chefe da missão no Chile (1937–1939) e secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores (1939–1942). Nos anos 1930, liderou iniciativas de modernização da máquina estatal que o consagraram como um dos precursores da reforma administrativa no Brasil. Após deixar a diplomacia, presidiu o Conselho Curador da Fundação Getulio Vargas.
Origens familiares
Maurício Nabuco nasceu na capital britânica, onde seu pai, Joaquim Nabuco, se encontrava em missão diplomática. Joaquim Nabuco notabilizou-se como uma das figuras centrais do movimento abolicionista e da defesa da monarquia brasileira, além de ter exercido mandatos como deputado-geral no Império. Pelo lado materno, sua mãe, Evelina Torres Ribeiro, pertencia à família do barão de Inoã, com propriedades rurais na região de Maricá, no Rio de Janeiro.
Na linhagem paterna, seu avô José Tomás Nabuco de Araújo acumulou ao longo do Império os cargos de senador, conselheiro de Estado e titular da pasta da Justiça em quatro gabinetes ministeriais. Entre seus irmãos, destacou-se a escritora Carolina Nabuco, autora da biografia A Vida de Joaquim Nabuco (1929) e do romance A Sucessora (1934). O casamento de outro irmão, José Tomás, criou laços de parentesco com Virgílio de Melo Franco, cuja biografia foi redigida por Carolina.
Formação
Educado na Europa por preceptores particulares, Maurício Nabuco matriculou-se em 1910 no curso de Direito da Universidade de Bonn, na Alemanha. O falecimento de Joaquim Nabuco naquele mesmo ano — ocorrido em Washington, D.C. — interrompeu seus estudos.
Carreira diplomática
Primeiros anos (1913–1925)
Nabuco ingressou no serviço exterior em 1913, como adido na Secretaria de Estado do Itamaraty. Logo em seguida, acompanhou a viagem do chanceler Lauro Müller aos Estados Unidos. Ao retornar, recebeu a incumbência de servir como guia e assessor do ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt, que percorreu o Brasil em visita particular entre o final de 1913 e meados de 1914.
Alcançou o posto de terceiro-oficial em junho de 1914 e permaneceu lotado no país ao longo de toda a Primeira Guerra Mundial. Elevado a segundo-oficial em maio de 1918, foi designado no mês seguinte para servir junto à missão especial britânica à América do Sul, chefiada por Maurice de Bunsen. No final daquele ano, fez parte da representação brasileira na Conferência de Versalhes. Foi durante as negociações de paz que o chefe da delegação, Epitácio Pessoa, recebeu a notícia de sua eleição à presidência da República, em decorrência da morte de Rodrigues Alves. Com a assinatura do Tratado de Versalhes, Nabuco seguiu na comitiva presidencial em visitas a Estados Unidos, Inglaterra e Portugal.
De volta ao país, passou a auxiliar de gabinete do chanceler José Manuel de Azevedo Marques. Primeiro-oficial a partir de abril de 1920, manteve-se na Secretaria de Estado até meados de 1925.
No governo Washington Luís (1926–1930)
Sob a presidência de Washington Luís, Nabuco integrou o gabinete do chanceler Otávio Mangabeira e atuou como seu representante na recepção ao presidente eleito dos Estados Unidos, Herbert Hoover, em passagem pelo Brasil. Também exerceu funções como responsável por concursos de inglês do Itamaraty e pela condução de trabalhos de reestruturação interna do ministério. Em fevereiro de 1930, chegou ao cargo de diretor de seção.
Pós-1930: do Governo Provisório à Era Vargas
Embora contrário à Revolução de 1930, Nabuco não foi afastado pelo novo regime. Em janeiro de 1931, recebeu promoção a ministro plenipotenciário de segunda classe — nomeação que ele próprio atribuiu ao que chamou de favoritismo de Getúlio Vargas. Passou por comissão no Ministério da Viação, sob José Américo de Almeida, e organizou as cerimônias de recepção ao príncipe de Gales. Em setembro de 1931, foi designado para chefiar os serviços políticos e diplomáticos do Itamaraty.
Ao longo de 1932 e 1933, atuou na Comissão de Promoções e Remoções do ministério e recebeu a tarefa de sistematizar a legislação aplicável ao corpo diplomático. Ainda em 1933, estudou o temário da VII Conferência Internacional Americana, sediada em Montevidéu.
No biênio 1933–1935, exerceu mandatos nos conselhos consultivos do Distrito Federal e de Petrópolis, colegiados que, sob o regime vigente, substituíam as câmaras municipais.
Reforma administrativa e a "subcomissão Nabuco"
Ministro plenipotenciário de primeira classe desde fevereiro de 1934, Nabuco dirigiu no ano seguinte o setor de arquivo, biblioteca e mapoteca do Itamaraty. A partir de maio de 1935, sua trajetória ganhou nova dimensão com o ingresso na Comissão Mista de Reforma Econômico-Financeira. Presidida pelo ministro da Fazenda Artur de Sousa Costa e integrada por membros dos poderes Executivo e Legislativo, a comissão tinha como missão revisar a estrutura tributária, propor cortes de gastos e elaborar um plano geral de reorganização das finanças públicas, inclusive dos salários do funcionalismo.
Nabuco relatou a subcomissão encarregada de reformular os quadros do funcionalismo civil federal. Em setembro, levou ao plenário da comissão um conjunto de propostas para tornar a administração pública mais racional e eficiente, o que lhe rendeu a reputação de precursor das reformas administrativas no país. Tamanha foi sua marca nesse processo que o grupo de trabalho passou a ser chamado informalmente de "subcomissão Nabuco". O projeto, no entanto, foi recusado pelo plenário. Após a rejeição, o ministro da Fazenda determinou que a tiragem de dois mil exemplares já impressos fosse destruída, e uma segunda subcomissão foi criada para apresentar alternativa de menor impacto fiscal.
Os dois projetos — o original e o substitutivo — foram remetidos a Getúlio Vargas, que instituiu uma Comissão de Reajustamento para arbitrar entre as propostas. O resultado foi a Lei do Reajustamento (Lei nº 284, de 28 de outubro de 1936), parcialmente vetada pelo presidente, mas que permaneceu vigente até 1960. A lei incorporou a espinha dorsal do plano de Nabuco, sobretudo a organização do funcionalismo em carreiras estruturadas, adaptando-a a uma forma politicamente mais viável. Esse diploma legal é apontado pela historiografia como um dos alicerces da modernização da administração pública federal, antecedendo a criação do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP) em 1938.
Embaixador no Chile (1937–1939)
Em novembro de 1936, Nabuco coordenou os preparativos para a visita do presidente norte-americano Franklin Roosevelt ao Brasil. Assumiu em junho de 1937 a chefia da embaixada no Chile, sucedendo Gilberto Amado, que fora declarado persona non grata pelas autoridades chilenas. Permaneceu em Santiago até agosto de 1939.
Secretário-geral do Itamaraty (1939–1942)
Em setembro de 1939, ascendeu ao posto de secretário-geral do Itamaraty, posição de maior hierarquia na carreira diplomática profissional brasileira. Nessa função, substituiu interinamente o chanceler Osvaldo Aranha entre janeiro e fevereiro de 1940, e novamente em duas ocasiões ao longo de 1941. Em julho de 1940, liderou a delegação brasileira à III Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores das Repúblicas Americanas, em Havana.
Embaixador no Vaticano (1944–1948)
Nomeado em outubro de 1944 como representante do Brasil junto à Santa Sé, exerceu a função até março de 1948.
Embaixador nos Estados Unidos (1948–1951) miniaturadaimagem|Maurício Nabuco na cerimônia de incorporação do cruzador Barroso à Marinha do Brasil, em 1951 A partir de maio de 1948, chefiou a embaixada brasileira em Washington, permanecendo no cargo até dezembro de 1951. Nesse período, firmou acordo de cooperação cultural com os Estados Unidos e negociou junto ao Banco Mundial o primeiro financiamento para a hidrelétrica de Paulo Afonso, na Bahia, cujos recursos acabaram redirecionados para outras finalidades. Em agosto de 1951, presidiu a cerimônia de incorporação do cruzador Barroso, transferido pela Marinha dos Estados Unidos à Marinha do Brasil no âmbito da Lei de Assistência Mútua.
Defensor de uma política externa ancorada no alinhamento com Washington, Nabuco entendia que fatores geográficos e econômicos tornavam essa relação incontornável, e criticava o que via como pretensões autonomistas incompatíveis com a realidade brasileira. Durante sua gestão na embaixada, recusou os repetidos pedidos norte-americanos de envio de contingente militar brasileiro à Guerra da Coreia.
Aposentadoria e atividades posteriores
Deixou o serviço diplomático em fevereiro de 1952 e transferiu-se para o setor privado, dirigindo por doze anos a companhia de cigarros Souza Cruz, no Rio de Janeiro. Foi também presidente do Conselho Curador da Fundação Getulio Vargas, posto que manteve até a morte.
Integrou a Sociedade Brasileira de Direito Internacional e recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade de Vermont.
Morreu no Rio de Janeiro em 8 de agosto de 1979.
Obras
A reorganização dos arquivos do Ministério das Relações Exteriores (relatório, 1930)
Resposta ao deputado José Bernardino (1935)
Drinkologia dos estrangeiros (1941)
Algumas reflexões sobre diplomacia (1955)
Reminiscências sérias e frívolas (1969)
Ver também
Joaquim Nabuco
Carolina Nabuco
Departamento Administrativo do Serviço Público
Embaixada do Brasil em Washington
Notas e referências
Referências
Bibliografia
Ligações externas
Verbete no DHBB/CPDOC
Registro na Base Arch — Fiocruz
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