O fator de iniciação da tradução eucariótica 4E, também conhecido como eIF4E, é uma proteína em humanos codificada pelo gene EIF4E. O eIF4E desempenha um papel central na iniciação da tradução e está envolvido na regulação da síntese proteica. Sua atividade influencia uma série de processos biológicos e estados patológicos, tornando-se um alvo importante para o desenvolvimento terapêutico, particularmente em distúrbios caracterizados pela produção aberrante de proteínas.
Descoberta O eIF4E foi descoberto como uma proteína citoplasmática de ligação ao cap que atua na tradução por Witold Filipowicz et al. em 1976. Dois anos mais tarde, em 1978, Sonenberg et al. confirmaram as descobertas de Filipowicz et al. repetindo os mesmos experimentos e adicionando um produto químico de ligação cruzada para aumentar a estabilidade do complexo mRNA-proteína. Esse foi o alicerce para a nossa compreensão da iniciação da tradução dependente de cap em eucariotos. Essas descobertas foram confirmadas por diversos cientistas e revisadas em vários artigos.
Estrutura thumb|left|160px|EIF4E com 7MetGTP thumb|left|160px|4EBP (vermelho) ligado às hélices alfa (ciano) do eIF4E A maioria dos mRNAs celulares eucarióticos está bloqueada em suas extremidades 5' com a estrutura 7-metil-guanosina cap 5', m7GpppX (onde X é qualquer nucleotídeo). O eIF4E é um que se liga especificamente a essa estrutura cap. É um polipeptídeo de 24 kD que existe tanto na forma livre quanto como parte do complexo de pré-iniciação . As outras subunidades do eIF4F são um polipeptídeo de 47 kD, denominado , que possui atividades de ATPase e RNA helicase, e um polipeptídeo de arcabouço de 220 kD, . O eIF4E é encontrado no núcleo de muitos tipos de células de mamíferos, bem como em outras espécies, incluindo leveduras, drosófilas e humanos. O eIF4E é encontrado em corpos nucleares, alguns dos quais se co-localizam com corpos nucleares PML, e também aparece de forma difusa no nucleoplasma.
Função
Iniciação da tradução dependente de cap O fator de iniciação da tradução eucariótica eIF4E desempenha um papel central no direcionamento de ribossomos para a estrutura cap 5' dos mRNAs, facilitando assim a síntese proteica eficiente. Ele é frequentemente considerado o componente limitante da taxa do aparato de tradução eucariótico. Muitos mRNAs celulares dependem do eIF4E para serem traduzidos em proteína. Nessa função, o eIF4E atua como parte do complexo eIF4F, recrutando o eIF4G e outros fatores necessários para a iniciação da tradução. No entanto, certos vírus contornam esse mecanismo clivando o eIF4G para remover o domínio de ligação ao eIF4E, permitindo assim a tradução independente do cap de RNAs virais. De forma semelhante, alguns mRNAs celulares — como aqueles que codificam proteínas de choque térmico — utilizam estratégias alternativas de iniciação da tradução, incluindo (IRES) ou ligação direta por outros fatores de iniciação, como eIF3d.
Em contextos onde o eIF4E é contornado ou inibido, outras proteínas de ligação ao cap, como eIF3D, eIF3I, PARN e o complexo de ligação ao cap nuclear (CBC), podem mediar vias de tradução especializadas.
Exportação de mRNA Além de suas funções citoplasmáticas, o eIF4E tem papéis bem definidos no núcleo. Ele facilita a exportação de mRNAs específicos contendo um elemento de sensibilidade ao eIF4E (4ESE) de 50 nucleotídeos em suas UTRs 3'. Esse mecanismo de exportação depende da capacidade de ligação ao cap do eIF4E, da via de exportação CRM1/XPO1 e da proteína adaptadora LRPPRC, que faz a ponte entre o eIF4E e os transcritos contendo o 4ESE.
Processamento de RNA O eIF4E nuclear também influencia eventos de processamento de RNA, incluindo o splicing alternativo, a clivagem da extremidade 3' e a adição do cap m7G. A atividade elevada do eIF4E nuclear tem sido associada à reprogramação oncogênica em diversos cânceres, particularmente na leucemia mieloide aguda (LMA). Através de seus papéis combinados na exportação e tradução de RNA, o eIF4E atua como um regulador global da expressão gênica, às vezes chamado de proteína "cap-chaperone".
Regulação
Repressão da tradução
O fator de iniciação da tradução eIF4E é estritamente regulado pela proteína do retardo mental do cromossomo X frágil (`), que controla a tradução de mRNAs específicos nas sinapses. A FMRP interage com a , que se liga diretamente ao eIF4E em um domínio estruturalmente análogo àqueles encontrados em proteínas canônicas de ligação ao 4E, como EIF4EBP1, EIF4EBP2 e EIF4EBP3. Essa interação inibe competitivamente a ligação do eIF4G, bloqueando a montagem do complexo de iniciação da tradução eucariótica e reprimindo a tradução. O complexo FMRP–CYFIP1–eIF4E é ainda mais estabilizado por RNAs não codificantes localizados dendriticamentes, como o BC1, que aumentam as interações FMRP-CYFIP1 e mediam o recrutamento de mRNAs alvo específicos.
Esse complexo repressivo é responsivo à estimulação neuronal. A atividade sináptica promove a dissociação do CYFIP1 do eIF4E, permitindo assim que o eIF4G se ligue e inicie a tradução. Esse mecanismo possibilita a regulação dinâmica e dependente de atividade da síntese proteica na sinapse, contribuindo para processos como a plasticidade sináptica e o aprendizado.
Uma vez que o eIF4E é um fator de iniciação de abundância relativamente baixa, o eIF4E pode ser controlado em vários níveis. A regulação do eIF4E pode ser alcançada nos níveis de transcrição, estabilidade de RNA, fosforilação, localização subcelular e proteínas parceiras.
Expressão gênica e estabilidade do RNA
Os mecanismos responsáveis pela regulação transcricional do eIF4E não são totalmente compreendidos. Contudo, diversos relatórios sugerem uma correlação entre os níveis de myc e os níveis de mRNA do eIF4E durante o ciclo celular. A base para essa relação foi posteriormente estabelecida pela caracterização de dois locais de ligação de myc (repetições E box CACGTG) na região promotora do gene eIF4E. Este motivo de sequência é partilhado com outros alvos in vivo para myc e as mutações nas repetições E box do eIF4E inativaram a região promotora, diminuindo assim a sua expressão.
Estudos recentes mostraram que os níveis do eIF4E podem ser regulados ao nível transcricional por NFkB e C/EBP. A transdução de células de LMA primárias com IkB-SR resultou não apenas na redução dos níveis de mRNA do eIF4E, mas também na relocalização da proteína eIF4E. A estabilidade do mRNA do eIF4E também é regulada pelas proteínas HuR e TIAR. A amplificação do gene do eIF4E foi observada num subconjunto de amostras de câncer de cabeça e pescoço e de mama.
Fosforilação
Estímulos como hormônios, fatores de crescimento e mitógenos que promovem a proliferação celular também aumentam as taxas de tradução ao fosforilar o eIF4E. Embora a fosforilação do eIF4E e as taxas de tradução não estejam sempre correlacionadas, padrões consistentes de fosforilação do eIF4E são observados ao longo do ciclo celular; nos quais é vista baixa fosforilação durante a fase G0 e M e nos quais é vista alta fosforilação durante a fase G1 e S. Essa evidência é adicionalmente suportada pela estrutura cristalina do eIF4E que sugere que a fosforilação no resíduo de serina 209 pode aumentar a afinidade do eIF4E pelo mRNA com cap.
A fosforilação do eIF4E também está relacionada à sua capacidade de suprimir a exportação de RNA e ao seu potencial oncogênico, como mostrado primeiramente em linhagens celulares.
Proteínas parceiras
A montagem do complexo eIF4F é inibida por proteínas conhecidas como proteínas de ligação ao eIF4E (4E-BPs), que são pequenas proteínas termoestáveis que bloqueiam a tradução dependente do cap. As 4E-BPs não fosforiladas interagem fortemente com o eIF4E, impedindo a tradução; enquanto que as 4E-BPs fosforiladas se ligam fracamente ao eIF4E e, portanto, não interferem no processo de tradução. Além disso, a ligação das 4E-BPs inibe a fosforilação da Ser209 no eIF4E. É importante observar que a 4E-BP1 é encontrada tanto no núcleo quanto no citoplasma, indicando que ela também provavelmente modula as funções nucleares do eIF4E. Um estudo recente mostrou que a 4E-BP3 regula a exportação nucleocitoplasmática do mRNA dependente do eIF4E. Há também muitos reguladores citoplasmáticos do eIF4E que se ligam ao mesmo local que a 4E-BP1.
Muitas outras proteínas parceiras foram encontradas e podem tanto estimular quanto reprimir a atividade do eIF4E, como proteínas contendo domínios de homologia (homeodomínios), incluindo HoxA9, Hex/PRH, Hox 11, Bicoid, Emx-2 e Engrailed 2. Enquanto a HoxA9 promove as atividades de exportação e de tradução do mRNA do eIF4E, a Hex/PRH inibe as funções nucleares do eIF4E. A RNA helicase DDX3 liga-se diretamente ao eIF4E, modula a tradução e possui potenciais funções nos corpos P (P-bodies) e na exportação do mRNA.
Os domínios RING também se ligam ao eIF4E. A proteína da leucemia promielocítica PML é um potente supressor tanto da exportação de RNA nuclear quanto das atividades oncogênicas do eIF4E, por meio do qual o domínio RING da PML se liga diretamente ao eIF4E na sua superfície dorsal, suprimindo a atividade oncogênica do eIF4E; e além disso, um subconjunto de corpos nucleares de PML e eIF4E colocalizam-se. Complexos RNA-eIF4E nunca são observados em corpos PML, o que é consistente com a observação de que a PML suprime a função de ligação ao cap m7G do eIF4E. Estudos estruturais mostram que uma proteína finger RING relacionada ao arenavírus, a proteína Z da febre de Lassa, pode igualmente se ligar ao eIF4E na superfície dorsal.
A entrada nuclear do eIF4E é mediada por suas interações diretas com a Importina 8, onde a Importina 8 se associa ao local de ligação ao cap m7G do eIF4E. De fato, a redução nos níveis de Importina 8 reduz o potencial oncogênico de células com superexpressão de eIF4E e sua função de exportação de RNA. A Importina 8 liga-se ao local de ligação ao cap do eIF4E e compete com o excesso de análogos de cap m7G conforme observado por RMN. O eIF4E também estimula a exportação de RNA do RNA da Importina 8, produzindo assim mais proteína Importina 8. Podem existir outras importinas que desempenham esse papel, dependendo do tipo celular. Embora um estudo inicial tenha sugerido que a proteína transportadora do eIF4E, 4E-T (eIF4ENIF1), facilitava a entrada nuclear, estudos posteriores mostraram que, na verdade, esse fator altera a localização do eIF4E para corpos de processamento citoplasmáticos (P-bodies) e reprime a tradução.
A proteína ligada ao genoma viral do potyvírus (VPg) foi encontrada ligando-se diretamente ao eIF4E em seu local de ligação ao cap. A VPg está covalentemente ligada ao seu RNA genômico e esta interação permite que a VPg atue como um "cap". A VPg do potyvírus não tem nenhuma homologia de sequência ou estrutural com outras VPg's, tais como aquelas do poliovírus. In vitro, os conjugados de VPg-RNA foram traduzidos com eficácia semelhante aos RNAs com cap m7G, indicando que a VPg se liga ao eIF4E e envolve a maquinaria de tradução; enquanto a VPg livre (na ausência de RNA conjugado) compete com sucesso por todas as atividades dependentes de cap do eIF4E na célula inibindo a tradução e a exportação de RNA.
Localização celular