O "caso de Pernambuco" foi um período de violência política após as eleições ao governo de Pernambuco em 27 de maio de 1922. Os partidários de ambos os candidatos a governador, José Henrique Carneiro da Cunha, da situação, e Eduardo de Lima Castro, da oposição, declararam vitória e se defrontaram nas ruas do Recife. Carneiro da Cunha foi reconhecido no cargo pelo Congresso estadual em 7 de julho, mas não tomou posse por um acordo entre os dois grupos que levou ao poder o juiz Sérgio Loreto. A repercussão nacional do caso foi antecedente da Revolta dos 18 do Forte.

O governo Pernambucano juntou-se à oposição federal, a Reação Republicana, na eleição presidencial de 1922. A morte do governador José Bezerra em 27 de março abriu uma disputa pela sucessão. A candidatura de Carneiro da Cunha era organizada pelo senador Manuel Borba. Os "borbistas" abrangiam a maioria dos deputados estaduais, os coronéis do interior, os partidários da Reação Republicana e trabalhadores organizados pelo professor Joaquim Pimenta. Contra eles, os "coligados" de Lima Castro tinham a maioria dos deputados federais e simpatias do governo federal. O presidente Epitácio Pessoa era acusado de ferir a autonomia estadual e favorecer os coligados. Ele tinha ligações de parentesco aos Pessoa de Queirós, que apoiavam Lima Castro, e ao coronel Jaime Pessoa da Silveira, por ele nomeado comandante da 6.ª Região Militar (6.ª RM) do Exército, sediada no Recife.

Nos dias antes da eleição, o coronel Silveira chamou tropas federais de outros estados ao Recife, a pretexto de defender a guarnição federal de cangaceiros e anarquistas. No final de maio e ao longo de julho, ambos os lados trouxeram milhares de cangaceiros à capital estadual. O governo pernambucano expandiu a Força Pública. Tiroteios esporádicos ameaçavam escalar a uma guerra civil aberta, que poderia se alastrar aos estados vizinhos, e a uma intervenção federal. As violências repercutiam pelo país, notavelmente no caso do dentista Tomás Coelho Filho, morto por uma patrulha do Exército em 29 de maio. Muitos militares repudiavam a função que haviam recebido.

A pacificação era de interesse dos políticos mais pragmáticos, dos comerciantes e mesmo do governo federal. Em julho, os cangaceiros foram retirados e novas eleições foram marcadas para 5 de setembro. No Rio de Janeiro, um telegrama enviado pelo presidente do Clube Militar, o marechal Hermes da Fonseca, aos militares do Recife foi interpretado pelo governo federal como incitação à desobediência. Os eventos se desdobrariam na prisão do marechal, fechamento do Clube e deflagração de planos de longa data para uma revolta militar em 5 de julho, o primeiro episódio do tenentismo.

Contexto No arranjo político da Primeira República Brasileira, Pernambuco era um dos estados de segunda grandeza. Sua capital, o Recife, era a principal metrópole portuária do Nordeste do país, projetando influência sobre toda a região. Pernambuco era também epicentro de agitação política liberal e personalizada, conflitos sociais e ativismo operário, cujos representantes mantinham contato com a elite política e intelectual. Intervenções federais e choques entre policiais, milicianos e capangas e capangas deram à capital o apelido de "Recife sangrento".

Tal como em outros estados, o resultado das eleições estaduais era frequentemente contestado pelas vias legais e pelas armas. Ambos os lados pediam a intervenção de tropas federais. O presidente da República em 1922, Epitácio Pessoa, já havia enfrentado crises do tipo na Bahia e no Espírito Santo em 1920. Mas é em Pernambuco que o conflito foi mais grave, por envolver a sucessão presidencial, o militarismo e a questão social.

O presidente do Estado (governador) era José Rufino Bezerra Cavalcanti, mas por doença do titular, o governo era exercido interinamente por Severino Marques de Queirós Pinheiro., COIMBRA, Estácio, p. 5. Na eleição presidencial federal de 1922, Bezerra disputou com o governador da Bahia, José Joaquim Seabra, a candidatura a vice-presidente na chapa situacionista do mineiro Artur Bernardes. Epitácio Pessoa preferiu um candidato de conciliação, sendo escolhido o maranhense Urbano Santos, mas nenhum dos dois estados ficou satisfeito. Quando Borges de Medeiros, governador do Rio Grande do Sul, rompeu com a candidatura Bernardes, os governos baiano e pernambucano alinharam-se a ele e aderiram à candidatura do fluminense Nilo Peçanha, formando a chapa oposicionista da Reação Republicana. Não era a primeira insurgência de oligarquias estaduais contra a dominância do eixo Minas-São Paulo., REAÇÃO REPUBLICANA, p. 11.

A Reação alimentou a inimizade das Forças Armadas com Bernardes e os políticos situacionistas em geral. A classe política estava desprestigidada e o nilismo era popular nos estados do Nordeste. Artur Bernardes e Urbano Santos venceram o pleito, realizado em 1.º de março, e a oposição continuou a fomentar a insatisfação militar., PESSOA, Epitácio, p. 14. Alastrava-se a insubordinação. Em abril, o governo do Maranhão foi brevemente deposto pela polícia, com a conivência das forças federais, e um plano de revolta foi sufocado nos navios da Armada na capital federal, o Rio de Janeiro.

A eleição ao governo estadual Para firmar sua pretensão á Vice-Presidência, Bezerra unificara sob sua liderança as correntes políticas estaduais em uma facção, denominada "Paz e Concórdia". Ele morreu em 27 de março. Não se chegou a um acordo para escolher seu sucessor nas eleições ao governo estadual, marcadas para 27 de maio. Em 11 de abril, chegavam do Rio de Janeiro ao Recife os deputados federais Estácio Coimbra (líder da bancada), Dantas Barreto e Manuel Francisco de Sousa Filho. O senador Manuel Borba lançou a candidatura do senador e usineiro José Henrique Carneiro da Cunha. Borba era o chefe do partido situacionista e dominava o Congresso estadual e a máquina eleitoral, pelo qual os coronéis do interior podiam manipular os resultados. Em 25 de abril, uma coligação do Partido Republicano Conservador e Partido Democrático lançaram outra candidatura, a do prefeito do Recife, Eduardo de Lima Castro. O presidente da República sugeriu os nomes do Barão de Suassuna e do desembargador Silva Rego, sem conseguir aceitação.

A política estadual cindiu-se em dois campos, os borbistas de Carneiro da Cunha e os coligados de Lima Castro, os primeiros, da situação, e os segundos, da oposição. O governador interino dizia-se neutro. O situacionismo era uma coalizão de interesses diversos, contando com coronéis do interior, simpatia popular e a maioria dos deputados estaduais. A oposição, com a maioria dos deputados federais e a impatia de Epitácio Pessoa. O grande estrategista do situacionismo era Manuel Borba. Seus aliados eram Francisco de Assis Rosa e Silva, os partidários da Reação Republicana e os seguidores do líder trabalhista Joaquim Pimenta. Pimenta era professor adjunto na Faculdade de Direito do Recife, conhecido por sua retórica virulenta e seguido por estudantes e trabalhadores.

Pimenta era membro da elite intelectual pernambucana e tinha conexões entre os militares (como o tenente Cleto Campelo), a elite política e os comícios operários, onde aparecia com a capa e boina de bolchevista. Representante de um socialismo reformista, tinha boas relações com os comunistas locais, apesar da diferença dos seus projetos. Os comunistas recusaram-se a aderir às campanhas de Nilo Peçanha e Carneiro da Cunha, sem, porém, romper com Pimenta. Este queria alinhar os operários ao borbismo para prepará-los a uma eventual revolta armada. Em 24 de novembro de 1921 ele fora ferido num atentado a tiros quando discursava num comício contra a proibição imposta por Epitácio Pessoa à manifestação política coletiva de oficiais militares. O pistoleiro trabalhava para o clã Pessoa de Queirós, ricos usineiros e parentes do presidente da República.

A oposição agregava Estácio Coimbra, Dantas Barreto e Francisco Pessoa de Queirós e seu clã. Em 23 de maio, Epitácio nomeou Estácio Coimbra ao Ministério da Agricultura, cargo no qual não chegaria a tomar posse. A nomeação foi interpretada em Pernambuco como simpatia pela candidatura de Lima Castro., COIMBRA, Estácio, p. 6. Os deputados Pessoa de Queirós e Sousa Filho retornaram ao Rio, de onde mantiveram contato telegráfico permanente com Estácio Coimbra., COIMBRA, Estácio, p. 5-6.

Tensões armadas O governador interino sofreu pressão federal, com a transferência de funcionários federais civis e militares, dentre eles o comandante da 6.ª Região Militar (6.ª RM) do Exército, sediada no Recife. O general Mena Barreto foi substituído pelo coronel Jaime Pessoa da Silveira, parente distante do presidente Epitácio Pessoa, e os dois não se conheciam. Silveira chamou reforços de outros estados em reação ao que denominou de "preparativos de guerra" do governo pernambucano. No final de maio, vieram tropas da Paraíba, Ceará, Alagoas e Bahia. Os reforços foram chamados sem a chancela do ministro da Guerra. Epitácio Pessoa foi informado através de Severino Pinheiro e interpelou o comandante. A resposta foi que os deslocamentos eram necessários para responder à presença de anarquistas e cangaceiros pró-governo dispostos a "aniquilar a guarnição federal". O historiador Hélio Silva menciona que o coronel tinha "uma caderneta de assentamentos pontilhada de repreensões, de suspensões de serviços e mesmo prisões, devidas ao caráter irascível e à índole impulsiva".

A eleição para governador, a 27 de maio, foi surpreendentemente calma, embora tropas federais já estivessem nas ruas. Como era de praxe na Primeira República, ambos os lados declararam vitória. O importante era o reconhecimento dos eleitos pelo Legislativo estadual, a ser realizado em 7 de junho. Conflitos armados iniciaram-se em pleno centro do Recife. No final de maio e em todo o mês de junho, os eventos subsequentes à eleição ameaçavam desembocar numa guerra civil aberta e se alastrar aos estados vizinhos.

Acumulação de forças Do lado situacionista, o governador em exercício aumentou o efetivo da Força Pública de 1 726 para 2 234 homens, possivelmente alcançando três mil homens ao final de junho. A tropa regular foi reforçada por três a quatro mil cangaceiros recrutados, armados e pagos pelo governo estadual, e um número indeterminado de trabalhadores. Estes últimos só receberiam suas armas por volta de 1. de julho, com o que sobrava depois de expandir a Força Pública ao máximo. A presença federal não ultrapassou os dois mil homens. Do lado da oposição havia irregulares de um Tiro de Guerra (o "Tiro 666") e talvez mil cangaceiros. Um contratorpedeiro (o Pará, Sergipe ou Mato Grosso em rodízio) ancorou permanentemente ao largo do Recife.

Quase todas as unidades da 6.ª Região Militar se fizeram presentes no Recife. Um pelotão do Exército aguardava em frente ao Palácio do Governo. O "Tiro 666" era constituído de trabalhadores de uma fábrica dos Pessoa de Queirós, "paisanos" e agregados, num total de cerca de duzentos homens, supridos, alegava-se, pela guarnição federal. O Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, falou num "pequeno exército de jagunços numa das capitais mais cultas do Brasil". Num dos deslocamentos em 22 de junho, sessenta cangaceiros desembarcaram na estação de Cinco Pontas e foram encaminhados aos aquartelamentos do "Tiro 666" em Santo Amaro, na fazenda dos Pessoa de Queirós. No dia seguinte, duas seções da 1.ª Companhia de Metralhadoras, do Rio de Janeiro, embarcaram para o Recife.