miniaturadaimagem|Ludovico Lazzarelli conversando com sua Musa. Miniatura de um manuscrito dos Fasti christianae religionis criados por Lazzarelli para o rei de Nápoles, Fernando de Aragão (Beinecke MS 391, fólio 5 verso, 1494) Ludovico Lazzarelli (4 de fevereiro de 1447 – 23 de junho de 1500) foi um poeta, filósofo, cortesão, humanista, hermetista, adivinho e difusor de temas da magia natural no início do Renascimento.
Nascido em San Severino Marche, teve contato com muitos pensadores importantes de sua época e, sobretudo, com o controverso pregador messiânico e hermetista Giovanni Mercurio da Correggio, do qual foi discípulo por um tempo. Ele próprio um seguidor do hermetismo, Lazzarelli também traduziu o Corpus Hermeticum, uma tradução que segue e amplia os textos herméticos previamente vertidos e compilados por Marsilio Ficino.
É notório o sincretismo de suas obras, mesclando, dentre outros, elementos do platonismo, hermetismo, Cabala e cristianismo, o que se vê, por exemplo, em sua particular interpretação da capacidade (alegada por ele) que os seres humanos teriam de criar almas.
Segundo Hanegraaff, Lazzarelli foi a figura mais exemplar do hermetismo cristão. Apesar de ele não ser tão conhecido quanto Ficino e Pico, teve impacto à sua época na formação do conhecimento humanista e hermético.
Biografia O documento mais importante para a reconstrução da biografia de Lazzarelli é a Vita Lodovici Lazzarelli Septempedani poetae laureati per Philippum fratrem ad Angelum Colotium, escrita por Filippo, irmão de Lazzarelli. Este texto, dirigido ao humanista Angelo Colocci, foi escrito imediatamente após a morte de Lazzarelli. A Vita caracteriza-se por um tom hagiográfico e dedica especial atenção aos esforços literários do autor, silenciando aspectos importantes da sua carreira, como o seu interesse pelas artes mágicas. Este documento, contudo, fornece evidências importantes sobre a cronologia, de outra forma incerta, de Lazzarelli.Seu texto pode ser lido em M. Meloni,"Lodovico Lazzarelli umanista settempedano e il De Gentilium deorum imaginibus, in Studia picena, 66 (2001):114 ff.
Graças a este documento, por exemplo, sabemos que Lazzarelli nasceu em 1447 e recebeu sua educação literária inicial em Teramo. Nesta cidade, Alessandro Sforza, o senhor de Pesaro, concedeu um prêmio a Ludovico aos 13 anos, por um poema sobre a batalha de San Flaviano em 1460. A família de Lazzarelli havia se mudado para Teramo após a morte do pai, mas Ludovico nasceu em San Severino Marche (em latim Septempeda, daí o apelido humanista de Lazzarelli, "Septempedanus").G. Arbizzoni, "Lazzarelli, Ludovico," Dizionario Biografico degli Italiani p. 180
miniaturadaimagem|Gravura de Saturno no poema De gentilium deorum imaginibus, em que Lazzarelli fornece explicações alegóricas e evemeristas, como no caso do deus Saturno: "Pois a estátua o representava lento em seus passos, frio como gelo e triste pela velhice. Com sua aparência rústica, ele devora seus filhos com a boca; com a cabeça velada e coberta por um manto azul-esverdeado, segura em sua mão uma foice e uma serpente enrolada em círculo. Outrora regente, agora Saturno será a personificação do Tempo, ora uma estrela no céu que muitos danos causa na Terra." Em 1468, Lazzarelli declamou a oração De laudibus poesis et de dignitate poetica frente ao imperador Frederico III, que estava em visita. O imperador ficou impressionado e o laureou. Logo após isso, Lazzarelli começou a escrever a primeira edição de De gentilium deorum imaginibus, que continha écfrases explicativas sobre as imagens dos tarôs de Mantegna. Houve também alguns acadêmicos que propuseram que, na verdade, esses tarocchi teriam se originado do próprio Lazzarelli, o qual teria veiculado suas ideias herméticas e humanistas por meio das cartas.
Sabemos também que Lazzarelli foi discípulo de Giovanni Mercurio da Correggio (nome latino: Iohannes Mercurius de Corigio; 1451-?), um pregador itinerante italiano, hermetista e alquimista que D. P. Walker descreveu como "um mago milagreiro, que havia ele próprio, como Lazzarelli nos diz, sido regenerado por Hermes Trismegisto".
Por volta de 1481, Lazzarelli se converteu como seguidor de Correggio, que andava por Roma vestindo uma coroa de espinhos e pregando um cristianismo místico. O poeta escreveu uma carta sobre seu encontro com o pregador, em que o próprio Lazzarelli se chamou de "Enoque" e afirmou-se como "outrora um poeta, mas agora, por meio de novo renascer, um filho da verdadeira sabedoria" (ou seja, acreditando-se como uma reencarnação de Enoque). Ele também afirmou que Mercurio da Correggio era "o Segundo Mercúrio", um retorno de Hermes Trimegisto.
Por volta de 1482, o poeta obteve e traduziu tratados da Hermetica que Marsilio Ficino não tivera acesso, e as publicou em uma edição completa do Corpus Hermeticum. Lazzarelli os apresentou e dedicou-os a Correggio. É possível que fora Lazzarelli quem introduziu o hermetismo a Correggio. A tradução completa do Corpus por Lazzarelli recebeu publicação póstuma anos mais tarde, por Symphorien Champier.
O evento notório que consolidou Correggio como um profeta apocalíptico e alegado messias foi o retorno a Roma no Domingo de Ramos em 1484. Com alguns seguidores, Correggio estava vestido como o Cristo, com um manto branco ensanguentado, montado sobre um asno branco, com sapatos alados, coroa de espinhos com uma lua crescente acima e usando uma placa na qual estava escrito: "Este é o meu servo Pimandro, a quem escolhi... para expulsar demônios e proclamar o meu julgamento e a minha verdade aos pagãos". Ele também carregava caixas azuis e pretas nas quais estava escrito: "vacua vacuis, plena plenis". Havia seguidores que vestiam túnicas azul-celeste e carregavam um crânio humano, uma espada e um livro. Lazzarelli descreveu esse evento todo em sua Epistola Enoch.Faivre, Antoine (2016). «Renaissance Hermetism». In: Magee, Glenn Alexander. The Cambridge Handbook of Western Mysticism and Esotericism. [S.l.]: Cambridge University Press
Seu retorno representou a culminância da união de cristianismo e hermetismo: nas escadarias frente ao Palácio Papal, durante uma reunião de cardeais, Correggio pregou para que se arrependessem e fez um discurso em que se afirmou como o "Anjo da Sabedoria, Poimandres, no mais alto e maior êxtase do Espírito de Jesus Cristo". Sobre isso, numa dedicatória, Lazzarelli escreveu sobre o mestre: "Somente tu atravessaste as cavernas secretas do pai Hermes, por caminhos desconhecidos por todos, e de lá retornaste". Tais ações levaram Correggio a ser preso diversas vezes e, a partir de então, houve uma ruptura de Lazzarelli para com ele.
alt=Lazzarelli|direita|miniaturadaimagem|265x265px|Lodovico Lazzarelli (através de sua musa) apresenta o manuscrito de Fasti christianae religionis a Fernando I de Aragão, rei de Nápoles e da Sicília (Beinecke MS 391, f.6v)
Lazzarelli estabeleceu-se depois na corte do rei Fernando I, que mantinha um círculo humanista-platônico. Lá foi onde ele escreveu seu diálogo Crater Hermetis.
Características das obras Lazzarelli realizava intenso sincretismo de hermetismo, cristianismo, platonismo e Cabala. Em suas obras, encontram-se citações a escritos que ele tinha acesso, mas atualmente não encontradas em obras sobreviventes, como no corpus enoquiano e Séfer Yetzirá.
No seu esforço sincrético, também foram instrumentais os conhecimentos da alquimia: o Manuscrito Riccardiana 984, que Lazzarelli escreveu em colaboração com o alquimista Johannes Rigaud, foi considerado o principal contribuinte na difusão do corpus pseudo-lulliano. Embora Lazzarelli rejeitasse a magia astral defendida por outros humanistas como Ficino, ele elogiava a magia natural e celeste. Lazzarelli preferia interpretações alegóricas dos rituais. Sua contribuição fez parte do círculo de florentinos: mesmo que estes privilegiassem pensamentos simbólicos da filosofia e misticismo antigos, eles possuíam interesse no progresso material e em invenções técnicas em torno de Florença, que contribuiriam à revolução científica futuramente.
Os comentários editados e escritos por Lazzarelli sobre muitas das obras do Corpus Hermeticum frequentemente davam continuidade ao trabalho de hermetistas anteriores, como Marsilio Ficino. Assim, ele escreveu uma dedicatória à tradução de Ficino do Poimandres e do Asclepius. Ele próprio escreveu uma tradução das Defitiones Asclepii, sendo sua obra mais significativa o Crater Hermetis. Como observa Walker:"O diálogo de Lazzarelli, o Crater Hermetis, culminou em um mistério, revelado em um hino, que se baseava nos deuses feitos pelo homem no Asclepius ... o qual foi uma das principais fontes da magia no De Vita coelitus camparanda [de Ficino]"... A obra é um diálogo entre Lazzarelli e o rei Fernando de Aragão, a quem Lazzarelli está iniciando em "um mistério que é ao mesmo tempo cristão e hermético". No início do diálogo Lazzarelli diz-lhe: 'Christianus ego sum o Rex: et Hermeticum simul esse non pudet'...". Usando hinos órficos, o rei é preparado para "a revelação final do mistério".
A “cratera” aqui é a krater platônica, idealizada tanto por Platão quanto pelos neoplatônicos como o crisol cósmico no qual todas as almas foram criadas, e que também foi representada na narrativa cristã do Santo Graal. Como o objetivo da iniciação era revelar "o reino de Israel (que os poetas chamam de Idade de Ouro), pelo qual Jesus Cristo ensinou seus discípulos a orar", há aqui uma tentativa de sincretizar a magia e o ritual órfico-herméticos com a mensagem cristã. Lazzarelli associou os daimones que invocava durante o ritual a "fragmentos separados do Espírito Santo, ou do espírito de Cristo" e "interpretou a atração de daimones por Hermes para os ídolos como sendo idêntica à inspiração dos Apóstolos por Cristo". Assim, Walker associa firmemente Lazzarelli à tradição da magia neoplatônica e órfica, a teurgia e ritualística que surgiu durante o século XV na Itália renascentista e que foi amplamente debatida entre intelectuais e teólogos da época.
De fato, a referência à Idade de Ouro, que era um poderoso motivo pitagórico, também usado por muitos místicos ascéticos do período helênico, também foi uma tentativa de sincretização. Na verdade, Lazzarelli vai além, associando anjos e daimones neoplatônicos a anjos cristãos, o amor de Deus ao amor órfico e a piedade cristã à piedade hermética. Assim, sua obra fazia parte de uma tentativa mais ampla de enfatizar as raízes e crenças comuns a todas as religiões, incluindo o islamismo e o judaísmo, que caracterizaram o Renascimento. Ele tinha a intenção de proclamar uma regeneração universal, e o retorno de uma Idade de Ouro envolvia a unificação religiosa.Hanegraaff, Wouter J.; Bouthoorn, Ruud M. (2005). Lodovico Lazzarelli (1447-1500). Arizona Center for Medieval and Renaissance Studies. ISBN 978-0-86698-324-2. p. 98
Com isso, Walker afirma que "Da Cabala, Lazzarelli cita uma alegoria, que ele diz estar no Sefer Yezira". A intenção era conectar o uso cabalístico de letras hebraicas na adivinhação com sua própria "teoria mágica da linguagem", na qual "ele acredita que as palavras têm uma conexão real, não convencional, com as coisas e podem exercer poder sobre elas": outro aspecto significativo do misticismo hermético que tinha suas raízes na crença pitagórica e neoplatônica, e que ele desejava integrar à mensagem cristã.