Arrivée d'un train gare de Vincennes (em português: A Chegada de um Trem à Estação de Vincennes) é um curta-metragem francês de filme mudo e documentário de 1896, dirigido e produzido por Georges Méliès.Frazer, John (1979). Artificially Arranged Scenes: The Films of Georges Méliès. Boston: G. K. Hall & Co. p. 241. . Distribuído pela companhia de Méliès, a Star Film, o filme é registrado com o número 8 em seu catálogo. É um actuality film inspirado diretamente em L'Arrivée d'un train en gare de La Ciotat (1895), dos Irmãos Lumière, um dos títulos mais influentes do cinema nascente.Malthête, Jacques; Mannoni, Laurent (2008). L'oeuvre de Georges Méliès. Paris: Éditions de La Martinière. . Atualmente, o filme é considerado presumidamente desaparecido, sem nenhum fragmento conhecido por ter sobrevivido."Arrivée d'un train, gare de Vincennes (1896)". Silent Era — Progressive Silent Film List. Acessado em 17 de janeiro de 2026.

Contexto histórico

Em 28 de dezembro de 1895, Georges Méliès assistiu à primeira exibição pública do Cinematógrafo dos Irmãos Lumière no Salon Indien do Grand Café, em Paris. Impressionado com a novidade, tentou adquirir um aparelho dos irmãos Lumière, que recusaram a venda. Recorreu então ao inventor britânico Robert W. Paul, de quem obteve em fevereiro de 1896 um projetor Animatograph por mil francos. Após estudar o funcionamento do equipamento, Méliès adaptou a máquina para que pudesse também funcionar como câmera filmadora.

Em maio de 1896, Méliès rodou seus primeiros filmes no jardim de sua propriedade em Montreuil, começando a exibi-los em seu Théâtre Robert-Houdin, em Paris. Naquele mesmo ano, ao lado de Lucien Reulos, fundou a Star Film, registrada formalmente em 2 de dezembro de 1896. O catálogo da companhia numerava cada título de acordo com a ordem de produção, sendo que cada número correspondia a aproximadamente 20 metros de negativo — o comprimento-padrão dos rolos utilizados pela câmera artesanal que Méliès operava naquele período."Filmographie de Georges Méliès". MélièsFilms.com. Acessado em 17 de janeiro de 2026.

O filme

Arrivée d'un train gare de Vincennes foi o oitavo título produzido por Méliès, inserido entre Les blanchisseuses (nº 7) e Une bonne farce (nº 9) no catálogo. O filme integra a longa série de actuality films que Méliès produziu nos primeiros meses de atividade, antes de sua transição para os efeitos especiais e os trick films pelos quais se tornaria famoso.

A chegada de trens a estações era um dos temas prediletos do cinema das origens. O modelo canônico havia sido estabelecido pelos Irmãos Lumière com L'Arrivée d'un train en gare de La Ciotat (1895), cuja exibição inaugural teria provocado no público a sensação de que o trem avançava em sua direção. Era prática corrente entre os cineastas do período recriar temas de concorrentes — o que, na ausência de um regime sistemático de direito autoral aplicado ao cinema nascente, era amplamente tolerado. Méliès recorreu à mesma prática em outros títulos da fase inicial, como L'Arroseur (nº 6), recriação da célebre gag dos Lumière em L'Arroseur arrosé (1895). A versão de Vincennes seria, segundo os dados catalográficos disponíveis, uma variação sobre o mesmo tema ferroviário, filmada nos arredores de Paris.

Estado de conservação

Arrivée d'un train gare de Vincennes é considerado um filme totalmente perdido: nenhuma cópia ou fragmento é conhecido por ter sobrevivido. A destruição da maior parte da filmografia de Méliès é atribuída a múltiplos fatores: a fragilidade e alta inflamabilidade das películas de nitrato de celulose da época e, sobretudo, a decisão do próprio diretor em 1923 de fundir os negativos de grande parte de sua coleção para recuperar a prata contida na emulsão, em meio à ruína financeira.

Em 2013, o animador sul-americano Bernhard Richter chamou atenção para um flipbook publicado por volta de 1900 pelo fabricante parisiense Léon Beaulieu, mostrando a chegada de um trem a uma estação, e levantou a hipótese de que poderia tratar-se de um fragmento sobrevivente de Arrivée d'un train gare de Vincennes.Lecointe, Thierry; Fouché, Pascal; Byrne, Robert; Hutchinson, Pamela (2020). Discovering Lost Films of Georges Méliès in Fin-de-siècle Flip Books (1896–1901). Londres: John Libbey Publishing. . A hipótese atraiu atenção de historiadores e arquivistas: o preservacionista Serge Bromberg e o arquivista Jan-Christopher Horak, da UCLA, manifestaram ceticismo, apontando que inúmeros filmes de chegada de trens foram produzidos no período e que a identificação não era sustentada por evidências suficientes.Khatchatourian, Maane (24 de julho de 2013). "George Melies Flip Book Sets off Crowdsourcing". Variety. Acessado em 17 de janeiro de 2026. A bisneta-bisneta de Méliès, Pauline Méliès, sugeriu em declaração pública que o flipbook poderia ser de outro filme da mesma época, o Arrivée d'un train gare de Joinville (nº 35).

A questão foi resolvida em 2020 pelo pesquisador francês Thierry Lecointe, após anos de investigação descritos no livro Discovering Lost Films of Georges Méliès in Fin-de-siècle Flip Books. Lecointe identificou o flipbook como derivado do filme nº 35 — Arrivée d'un train gare de Joinville — com base em evidências que incluíam o posicionamento das sombras, o mobiliário da plataforma documentado em postais da época e visitas presenciais às estações.Lecointe, Thierry (2020). "Léon Beaulieu's Pocket Cinematograph". San Francisco Silent Film Festival. Acessado em 17 de janeiro de 2026. O filme nº 8, portanto, permanece sem nenhum fragmento identificado, distinguindo-se como um dos títulos mais precocemente e definitivamente perdidos da filmografia de Méliès.

Ver também

Georges Méliès Star Film Company Filme perdido L'Arrivée d'un train en gare de La Ciotat Arrivée d'un train gare de Joinville

Referências

Ligações externas

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