A Cinémathèque Méliès — Les Amis de Georges Méliès é uma associação francesa sem fins lucrativos, criada em maio de 1961 para localizar, reunir, preservar e promover a obra do cineasta Georges Méliès (1861–1938) e reconstituir um patrimônio cultural francês que, em 1945, era considerado praticamente perdido.Cinémathèque Méliès. "Qui sommes-nous?". meliesfilms.com. Acessado em 17 de janeiro de 2026. Fundada pela neta de Méliès, Madeleine Malthête-Méliès, e seu marido, o Dr. René Malthête, a associação foi registrada oficialmente no *Journal Officiel* francês em 16 de junho de 1961, sob o número 61/570 (atual W751177613).Répertoire des associations. "CINEMATHEQUE MELIES - LES AMIS DE GEORGES MELIES". Ministério do Interior da França. Acessado em 17 de janeiro de 2026. Ao longo de mais de seis décadas, a associação reuniu cerca de 200 filmes de Méliès e os promoveu por meio de conferências, ciné-concerts, exposições e publicações em todo o mundo, contribuindo decisivamente para que a obra de Méliès seja hoje uma das mais bem preservadas entre os pioneiros do cinema.Centre national du cinéma et de l'image animée. "Madeleine Malthête-Méliès, la mémoire d'un grand-père". cnc.fr. Acessado em 17 de janeiro de 2026.

Contexto e origens

Em 1923, arruinado financeiramente, Georges Méliès fundiu os negativos de grande parte de seus aproximadamente 520 filmes para recuperar a prata contida na emulsão.Malthête, Jacques; Mannoni, Laurent (2008). L'oeuvre de Georges Méliès. Paris: Éditions de La Martinière. . Uma parte do que restava de sua obra — desenhos, fotografias de cena, objetos mágicos — foi roubada em junho de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial.Malthête-Méliès, Madeleine (2011). Georges Méliès l'enchanteur. Grandvilliers: La Tour Verte. . Em 1945, o patrimônio cinematográfico de Méliès era considerado quase integralmente perdido: apenas 9 de seus filmes haviam sido exibidos na França.Cinémathèque Méliès. "Les Amis de Georges Méliès". cinemathequemelies.eu. Acessado em 17 de janeiro de 2026.

A reconstituição do acervo começou ainda antes da fundação formal da associação. A partir de 1949, Madeleine Malthête-Méliès — neta de Georges Méliès, que havia vivido com o avô de 1928 até a morte dele em 1938 — iniciou conferências internacionais com o apoio do marido e do Ministério das Relações Exteriores da França.Malthête-Méliès, Madeleine (1994). "La Cinémathèque Méliès : son histoire et ses activités". Journal of Film Preservation, nº 48. . A primeira conferência realizou-se na Suécia, onde o historiador Einar Lauritzen presenteou Madeleine com La Fée Carabosse ou le Poignard fatal (1906), um filme colorido à mão — o primeiro título da futura coleção. A partir da década de 1950, o filho de Georges Méliès, André Méliès, também passou a realizar conferências e sessões de cinema no mesmo espírito.

Fundação

Em março de 1961, ano do centenário do nascimento de Georges Méliès, realizou-se a primeira reunião fundadora da associação, com 113 membros presentes. Entre os fundadores figuravam atores como Françoise Rosay, Noël-Noël e Pierre Blanchar, o historiador do cinema Georges Sadoul, o presidente Albert Sarraut e o ministro Henri Ulver, além de diversas cinematecas internacionais e da Federação Francesa de Magia. O cineasta René Clair tornou-se presidente honorário da associação.

A associação foi registrada oficialmente no *Journal Officiel* em 16 de junho de 1961. Naquele mesmo ano, contribuiu para a grande exposição realizada na Cinémathèque française em celebração ao centenário de Méliès. Ao final de 1961, a associação já dispunha de 18 cópias de filmes adquiridas pelo Dr. Malthête junto ao British Film Institute, a artistas itinerantes, colecionadores e descendentes de mágicos, com mais 16 títulos esperados de cinematecas internacionais parceiras.

Atividades e expansão do acervo

Décadas de 1960 e 1970

Em 1962, durante uma tournée pelos Estados Unidos, o Dr. Malthête e Madeleine Malthête-Méliès localizaram 31 filmes de Méliès depositados como *paper prints* na Biblioteca do Congresso em Washington. A associação estabeleceu relações duradouras com arquivistas de todo o mundo, incluindo Ernest Lindgren e David Francis no British Film Institute (Londres), Margareta Akermak e Eileen Bowser em Nova York, e Paul Spehr na Biblioteca do Congresso.

Em 1977, a viúva de Leon Schlesinger autorizou a Blackhawk Films a restaurar e copiar parte da coleção Schlesinger: 49 novos filmes foram incorporados ao acervo. Em 1979, a Biblioteca do Congresso adquiriu a coleção Schlesinger integralmente, permitindo à associação obter mais 8 títulos.

Décadas de 1980 e 1990

Em 1981, a associação organizou em Cerisy-la-Salle o primeiro colóquio internacional dedicado a Georges Méliès, liderado por Madeleine Malthête-Méliès. A ocasião reuniu pesquisadores e entusiastas franceses e internacionais, e permitiu a exibição integral dos 140 filmes então no acervo.Malthête-Méliès, Madeleine (dir.) (1984). Méliès et la naissance du spectacle cinématographique. Paris: Éditions Klincksieck. . A convite dos Archives françaises du film do CNC, a associação catalogou todos os dados disponíveis sobre os filmes de Méliès conservados na França, resultando na publicação Essai de reconstitution du catalogue français de la Star Film.

Em 1982, a associação passou a publicar um boletim bimestral depositado na Bibliothèque nationale de France (ISSN 0758-539X), substituído em 2000 por um informativo periódico. Em 1986, publicou 158 scénarios de films disparus de Georges Méliès, compilação de 158 roteiros de filmes perdidos organizada por Jacques Malthête, que permitiu a pesquisadores identificar filmes em arquivos e coleções privadas. Em 1988, o nome *Cinémathèque Méliès* foi incorporado oficialmente à denominação da associação.

Em 1996, um segundo colóquio realizou-se em Cerisy-la-Salle, liderado por Jacques Malthête e Michel Marie, com 167 filmes no acervo. A ocasião gerou parceria com o canal Arte, resultando num box set com documentário e sessão musical de 15 filmes. Ao longo dos anos, filmes foram reencontrados em locais inesperados: na sede do Partido Comunista Francês, na Nova Zelândia, na Austrália e na Filmoteca de Catalunha.

Década de 2000

Em 2002, a Cinémathèque Méliès tornou-se parceira oficial da exposição Méliès, Magie et Cinéma, organizada pela EDF e pela Cinémathèque française, realizando cerca de cem ciné-concerts no EDF Espace Electra e produzindo um documentário de 25 minutos sobre a exposição.

Em 2004, a coleção não-fílmica pertencente a Madeleine Malthête-Méliès — adquirida ao longo de décadas com o Dr. René Malthête — foi confiada ao CNC e transferida para a guarda da Cinémathèque française. O acervo inclui 459 desenhos originais, fotografias de cena, cartas manuscritas, figurinos e objetos.La Cinémathèque française. "Georges Méliès par ses archives, portrait d'un homme-orchestre". cinematheque.fr. Acessado em 17 de janeiro de 2026.

Em 2008, a Cinémathèque française organizou uma grande exposição sobre Méliès e acolheu os ciné-concerts da associação por mais de um ano. Naquele mesmo ano, a Cinémathèque Méliès lançou dois DVDs com 30 filmes, em parceria com a Studio Canal e a Fechner Productions.

Décadas de 2010 e 2020

Em 2009, a associação havia preservado 211 filmes de Méliès — representando metade de sua produção em metragem, uma das coleções mais bem preservadas de um pioneiro do cinema.

Em 2011, em celebração ao 150º aniversário do nascimento de Méliès — inscrito pelo Estado francês nas Célébrations Nationales —, a associação co-organizou o terceiro colóquio em Cerisy-la-Salle (*Méliès, carrefour des attractions*, liderado por André Gaudreault e Laurent Le Forestier) e lançou um terceiro DVD com a Studio Canal, com filmes inéditos em formato digital. Naquele mesmo ano, Madeleine Malthête-Méliès doou à Cinémathèque française os nitratos e elementos de tiragem de 77 filmes em 35mm, enquanto a associação doou outros 144 títulos à mesma instituição — listas que se sobrepõem parcialmente.

Em 2014, diante das dificuldades crescentes de manter as condições adequadas de temperatura e umidade para a preservação das películas, a associação doou à Cinémathèque française 441 elementos fílmicos em 16mm (positivos e negativos) correspondentes a 145 títulos distintos. Em todos os casos, as transferências envolveram os elementos originais — negativos, nitratos e elementos de tiragem —, e não cópias, consolidando a custódia física do patrimônio nas mãos de instituições do Estado francês.

Em 2023, a associação realizou nova doação de 140 filmes ao CNC, ampliando ainda mais o acervo público disponível para pesquisa e preservação.

Ciné-concerts

Uma das marcas mais duradouras da Cinémathèque Méliès é a prática dos ciné-concerts — sessões de filmes de Méliès acompanhadas ao vivo por piano, narração e efeitos sonoros, reconstituindo as condições das exibições originais do início do século XX. Os programas são apresentados por Marie-Hélène Lehérissey (bisneta de Georges Méliès) na função de narradora, e por Lawrence Lehérissey na composição e execução musical ao piano.Cinémathèque Méliès. "Ciné-concerts Méliès". georgesmelies.jimdoweb.com. Acessado em 17 de janeiro de 2026. Os ciné-concerts foram realizados em França e no exterior, incluindo tournées pelas Américas, África, Ásia e Europa.

Publicações

Ano Título Autoria Editora 1961 Georges Méliès, créateur du spectacle cinématographique Associação Com apoio do Clube de Cinema de Montreuil e da Câmara Municipal 1981 Méliès et la naissance du spectacle cinématographique Madeleine Malthête-Méliès (dir.) Éditions Klincksieck () 1981 Essai de reconstitution du catalogue français de la Star Film Jacques Malthête Archives du Film, CNC () 1982– Boletim bimestral (ISSN 0758-539X) Associação Depósito na BnF; substituído por informativo a partir de 2000 1985 Méliès l'enchanteur (reed.) Madeleine Malthête-Méliès Associação () 1986 158 scénarios de films disparus de Georges Méliès Jacques Malthête Associação () 1988 Le voyage autour du monde de la G. Méliès Manufacturing Company Gaston Méliès; Jacques Malthête Associação () 1996 Analyse descriptive des films de Georges Méliès rassemblés entre 1981 et 1996 Madeleine Malthête-Méliès; Jean-Paul Combe Cinémathèque Méliès (ISSN 0758-539X) 2011 Georges Méliès l'enchanteur (reed. revisada) Madeleine Malthête-Méliès La Tour Verte ()

Presidentes e secretários-gerais

Cargo Nome Período Presidente honorário René Clair 1961–? Presidente Jacques Peyrou 1961–2005 Presidente Mathilde Delamotte 2006–atual Secretário-geral Dr. René Malthête 1961–1978 Secretária-geral Anne-Marie Quévrain 1979–atual

Legado

A doação progressiva do acervo fílmico e não-fílmico à Cinémathèque française e ao CNC entre 2004 e 2023 formou a base da coleção permanente do Musée Méliès, inaugurado em 2021 na Cinémathèque française com 800m² de exposição e mais de 300 peças originais.La Cinémathèque française. "Musée Méliès, La Magie du cinéma". cinematheque.fr. Acessado em 17 de janeiro de 2026. O trabalho de pesquisa e catalogação desenvolvido pela associação ao longo de seis décadas tornou-se a principal referência bibliográfica sobre a obra de Méliès, sintetizada na obra L'oeuvre de Georges Méliès (2008), de Jacques Malthête e Laurent Mannoni.

Ver também

Georges Méliès Madeleine Malthête-Méliès Star Film Company Cinémathèque française Musée Méliès Filmografia de Georges Méliès

Ligações externas

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