Amoreiras é uma zona urbana de Lisboa, em Portugal. Situa-se na área ocidental da cidade, em torno da Praça das Amoreiras, do Jardim das Amoreiras, do Reservatório da Mãe d'Água das Amoreiras e do Complexo das Amoreiras. Embora não corresponda a uma divisão administrativa autónoma, o topónimo identifica uma área histórica da cidade associada ao eixo do Rato, à antiga Real Fábrica das Sedas, ao Aqueduto das Águas Livres e, desde o final do século XX, a uma centralidade comercial, habitacional e de serviços marcada pelo centro comercial e pelas torres das Amoreiras. Localização e enquadramento urbano esquerda|miniaturadaimagem|281x281px|Jardim das Amoreiras As Amoreiras localizam-se na parte ocidental do centro de Lisboa, numa área de contacto entre as actuais freguesias de Santo António, Campo de Ourique e Campolide. O núcleo histórico do topónimo concentra-se em torno da Praça das Amoreiras e do Jardim das Amoreiras, junto ao antigo conjunto manufactureiro da Real Fábrica das Sedas e ao Reservatório da Mãe d'Água. A designação alargou-se, no uso urbano contemporâneo, à zona envolvente do Complexo das Amoreiras, situado na Avenida Engenheiro Duarte Pacheco.
A zona constitui uma charneira entre áreas urbanas de formação e carácter distintos: a cidade setecentista ligada ao Rato e à expansão pombalina para ocidente; o tecido residencial de Campo de Ourique; os eixos de circulação associados à Avenida Engenheiro Duarte Pacheco e ao acesso às Amoreiras; e a frente urbana moderna marcada pelo centro comercial, escritórios e habitação em altura.
A Rua das Amoreiras liga actualmente o Largo do Rato à Avenida Engenheiro Duarte Pacheco, atravessando a zona histórica das Amoreiras. Até 1920, era designada por Rua dos Arcos das Águas Livres, topónimo associado ao troço terminal do Aqueduto das Águas Livres e ao arco triunfal que assinala a entrada da água na cidade. Origem do nome
O topónimo deriva das amoreiras plantadas na zona no contexto do fomento da indústria da seda em Lisboa. O actual Jardim das Amoreiras, também conhecido como Jardim Marcelino de Mesquita, foi idealizado e inaugurado em 1759 por iniciativa do Marquês de Pombal, com plantação de amoreiras destinada a estimular a indústria portuguesa das sedas. A documentação patrimonial da Real Fábrica das Sedas refere igualmente a existência, no conjunto urbanístico associado à fábrica, de um jardim de amoreiras plantado em 1771 para fornecer a unidade fabril.
A presença destas árvores relacionava-se com a criação do bicho-da-seda, uma vez que as folhas de amoreira constituem o seu alimento. A designação das Amoreiras ficou, assim, ligada à política setecentista de desenvolvimento manufactureiro e à instalação, nas proximidades do Rato, de estruturas produtivas e habitacionais dependentes da Real Fábrica das Sedas.
História miniaturadaimagem|248x248px|Fachada da Real Fábrica das Sedas
Antecedentes e formação urbana
Antes da consolidação do topónimo das Amoreiras, a área integrava os arrabaldes ocidentais de Lisboa, numa posição intermédia entre o Rato, São Bento, Campolide e o território que viria a ser urbanizado como Campo de Ourique. A sua transformação acelerou-se no século XVIII, em particular após a reorganização manufactureira e urbanística conduzida no período pombalino.
A Real Fábrica das Sedas teve origem numa proposta apresentada pelo tecelão francês Robert Godin em 1727, tendo a sua fundação sido autorizada por alvará régio de 13 de fevereiro de 1734, durante o reinado de D. João V. O edifício da fábrica, situado no Rato, encontrava-se concluído em 1741.
A Real Fábrica das Sedas e o Bairro das Águas Livres esquerda|miniaturadaimagem|363x363px|Edifício da Real Fábrica das Sedas, ao rato Após o terramoto de 1755, o Estado reformulou o regimento e os estatutos da fábrica, que passou a designar-se Real Fábrica das Sedas do Rato a partir de 1757. A intervenção não decorreu apenas da destruição sísmica, já que a zona do Rato era considerada uma das áreas mais seguras da cidade; integrou-se sobretudo numa política de fomento industrial e de reordenação urbana.
A remodelação da área incluiu o desenvolvimento de uma nova zona urbanística designada por Bairro das Águas Livres, planeada por Carlos Mardel e Eugénio dos Santos, junto à fábrica. Em torno da praça foram abertas ruas e edificados prédios de estrutura pombalina, destinados a habitação e trabalho dos fabricantes ligados à fiação da seda. Estes fabricantes funcionavam como pequenos empresários dependentes da fábrica, dispondo de casa, oficina e equipamentos próprios; os aprendizes residiam também na mesma área.
Do conjunto subsistem edifícios na Praça das Amoreiras, incluindo o imóvel onde se encontra instalada a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, e o bloco de edifícios da Travessa da Fábrica das Sedas. A este núcleo pertencia igualmente a capela de Nossa Senhora de Monserrate, ligada à comunidade manufactureira.
Com o afastamento do Marquês de Pombal do governo, em 1777, a Real Fábrica das Sedas entrou em declínio, embora a actividade tenha conhecido tentativas posteriores de recuperação. As dificuldades económicas agravaram-se no primeiro quartel do século XIX, e a unidade fabril do Rato foi vendida em hasta pública em 1835. A produção privada de sedas manteve-se ainda durante algum tempo, mas os edifícios foram progressivamente adaptados a novos usos comerciais e particulares. miniaturadaimagem|308x308px|Reservatório da Mãe d'Água
O Aqueduto e a Mãe d'Água
A história das Amoreiras está igualmente associada ao abastecimento de água de Lisboa. O Aqueduto das Águas Livres, construído no século XVIII, conduzia a água até à Mãe d'Água das Amoreiras, grande reservatório terminal destinado a receber e distribuir a água transportada pelo sistema.
O Reservatório da Mãe d'Água foi concebido pelo arquitecto húngaro Carlos Mardel e concluído em 1834, já no reinado de D. Maria II. O edifício, de grande monumentalidade interior, integra o conjunto do Aqueduto das Águas Livres, classificado como monumento nacional, e é actualmente visitável como parte do Museu da Água.
O troço final do aqueduto chegava à Mãe d'Água junto às Amoreiras, sendo a entrada da água em Lisboa assinalada pelo Arco das Amoreiras, construído por Carlos Mardel entre 1746 e 1748 na actual Rua das Amoreiras.
Séculos XIX e XX
Ao longo do século XIX, a área das Amoreiras conservou marcas da sua origem manufactureira, mas foi perdendo a centralidade industrial que tivera no período pombalino. A antiga Real Fábrica das Sedas sofreu novas utilizações e alterações, tendo um incêndio, em agosto de 1897, destruído grande parte do edifício, posteriormente reconstruído com manutenção da traça exterior, mas com adaptação do interior a novos ocupantes. esquerda|miniaturadaimagem|303x303px|Complexo das Amoreiras O crescimento urbano de Lisboa para ocidente e a consolidação dos bairros vizinhos modificaram o enquadramento da zona. As Amoreiras passaram a articular a memória setecentista da fábrica, do jardim e do aqueduto com novas infra-estruturas viárias e equipamentos urbanos. No século XX, a zona tornou-se também um espaço de transição entre o tecido residencial tradicional e as novas formas de urbanização terciária e comercial.
O Complexo das Amoreiras
A transformação contemporânea da zona foi marcada pela construção do Complexo das Amoreiras, projectado pelo arquitecto Tomás Taveira. O estudo que definiu a estrutura do complexo foi aprovado em 1978; Taveira assumiu o projecto em 1980, e a construção arrancou em 1981. O conjunto foi inaugurado em 27 de setembro de 1985 e abriu ao público no dia seguinte.
O Complexo das Amoreiras integrou centro comercial, escritórios e habitação, tornando-se um dos símbolos da arquitectura pós-moderna em Portugal e uma das imagens urbanas mais reconhecíveis da Lisboa dos anos 1980. Em 1993, o conjunto recebeu o Prémio Valmor, tendo sido destacado o uso inovador da cor e a singularidade conferida à cidade.
A abertura do centro comercial contribuiu para deslocar para as Amoreiras uma nova centralidade de consumo e serviços, anterior à vaga de grandes centros comerciais periféricos e metropolitanos que se afirmaria nas décadas seguintes. Apesar da concorrência de espaços posteriores, como o Centro Colombo, o Complexo das Amoreiras manteve relevância comercial e simbólica na cidade.
Património e imóveis notáveis
Jardim das Amoreiras miniaturadaimagem|273x273px|Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva O Jardim das Amoreiras, oficialmente Jardim Marcelino de Mesquita, constitui um dos elementos centrais da identidade histórica do sítio. Foi criado no século XVIII no contexto da política pombalina de fomento da seda, com plantação de amoreiras destinadas a alimentar o bicho-da-seda. O jardim mantém relação directa com a antiga Real Fábrica das Sedas, com a Praça das Amoreiras e com o conjunto da Mãe d'Água.
Real Fábrica das Sedas
A Real Fábrica das Sedas foi uma das principais manufacturas régias portuguesas do século XVIII. O conjunto, classificado como imóvel de interesse público, inclui vestígios arquitectónicos e urbanísticos ligados à fábrica e ao Bairro das Águas Livres, como edifícios da Praça das Amoreiras e da Travessa da Fábrica das Sedas. A fábrica desempenhou papel relevante na política económica pombalina e na organização de formas protoindustriais de produção urbana.
Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva
A Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva encontra-se instalada num edifício da antiga Fábrica de Tecidos de Seda, integrado no conjunto urbanístico da Real Fábrica das Sedas. O imóvel conserva a memória da ocupação manufactureira das Amoreiras e acolhe um museu dedicado aos pintores Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva.
Reservatório da Mãe d'Água das Amoreiras
O Reservatório da Mãe d'Água das Amoreiras é um dos principais monumentos da zona. Concebido por Carlos Mardel e concluído em 1834, funcionava como reservatório terminal do Aqueduto das Águas Livres, recebendo e distribuindo água para a cidade. O seu interior monumental, organizado em torno de um grande tanque, é actualmente utilizado como espaço museológico e cultural. miniaturadaimagem|274x274px|Arco das Amoreiras
Arco das Amoreiras O Arco das Amoreiras, também referido como arco da Rua das Amoreiras, assinala a entrada em Lisboa do Aqueduto das Águas Livres. Foi realizado pelo arquitecto Carlos Mardel entre 1746 e 1748, no troço terminal do sistema hidráulico que conduzia a água até ao Reservatório da Mãe d'Água das Amoreiras.
A estrutura é descrita pelo SIPA como um arco triunfal integrado no troço das Amoreiras do Aqueduto das Águas Livres, composto por segmentos em cantaria de lioz aparente. O antigo nome da actual Rua das Amoreiras, Rua dos Arcos das Águas Livres, conservava a memória desse elemento monumental do aqueduto.
Complexo das Amoreiras
O Complexo das Amoreiras, ou Torres das Amoreiras, é constituído por centro comercial, escritórios e habitação. Projectado por Tomás Taveira e inaugurado em 1985, tornou-se uma referência da arquitectura pós-moderna portuguesa e um marco da paisagem urbana lisboeta.
Acontecimentos notáveis
Entre os acontecimentos e marcos associados às Amoreiras destacam-se a criação da Real Fábrica das Sedas no século XVIII; a plantação das amoreiras para apoio à indústria da seda; a conclusão da Mãe d'Água das Amoreiras em 1834; o incêndio de 1897 na antiga Real Fábrica das Sedas; a inauguração do Complexo das Amoreiras em 1985; e a atribuição do Prémio Valmor ao complexo em 1993.
Em 1999, o centro comercial esteve envolvido numa polémica pública devido a uma campanha natalícia em que uma alface surgia no colo de Maria e José; após protestos de grupos católicos, a administração substituiu a imagem pelo Menino Jesus. Entre 2003 e 2007, as obras do túnel do Marquês provocaram perturbações significativas no trânsito e no acesso à zona, afectando igualmente o fluxo de clientes do centro comercial.