Real Fábrica da Bica do Sapato, também conhecida como Fábrica da Bica do Sapato, foi uma fábrica portuguesa de faiança e cerâmica ativa em Lisboa entre o final do século XVIII e o início do século XIX. Fundada em 1796 por Luís Soares Henriques, localizava-se junto à Bica do Sapato, defronte do Cais do Tojo, e integrou o conjunto de oficinas cerâmicas lisboetas que se desenvolveram após as reformas industriais da segunda metade do século XVIII.

A cronologia da fábrica apresenta pequenas variações nas fontes. O Museu Quinta das Cruzes refere a sua fundação em 1796 e destruição por incêndio cerca de 1820, enquanto o Museu de Lisboa identifica a Real Fábrica da Bica do Sapato como unidade fabril ativa entre 1796 e cerca de 1823. João Pedro Monteiro, ao enquadrar a expansão portuguesa da produção cerâmica, refere o início da atividade da Fábrica da Bica do Sapato em 1801. A fábrica é conhecida sobretudo através de peças museológicas atribuídas à sua produção e pela sua inserção na história da faiança portuguesa neoclássica.

História

Fundação e localização A Real Fábrica da Bica do Sapato foi fundada em 1796 por Luís Soares Henriques. A fábrica situava-se em Lisboa, defronte do Cais do Tojo, junto à Bica do Sapato, zona oriental da cidade associada a atividades portuárias, industriais e oficinais.

O seu aparecimento deve ser entendido no contexto do desenvolvimento da indústria cerâmica portuguesa na segunda metade do século XVIII. Entre a fundação da Fábrica de Louça de Massarelos, no Porto, em 1763, e o início da atividade da Fábrica da Bica do Sapato, em Lisboa, surgiram vários centros de fabrico que contribuíram para uma forte expansão da produção cerâmica em Portugal, como o Juncal, Viana, Miragaia, Cavaquinho, Santo António de Vale de Piedade, Estremoz e Coimbra.

Esta expansão inscreveu-se nas medidas de fomento da indústria e do comércio promovidas na segunda metade do século XVIII, destinadas a contrariar a dependência externa e a incentivar o fabrico nacional de produtos até então importados. Embora a Real Fábrica de Louça do Rato tenha sido o principal centro lisboeta de modernização da faiança em contexto pombalino, a Bica do Sapato destacou-se como outra produção cerâmica lisboeta relevante no mesmo período.

Atividade produtiva A produção da Fábrica da Bica do Sapato é conhecida sobretudo por atribuição museológica e por peças conservadas em coleções públicas. O Museu de Lisboa identifica um gomil em faiança como produção da Real Fábrica da Bica do Sapato e associa a peça à atividade da unidade fabril entre 1796 e cerca de 1823. O Museu Quinta das Cruzes conserva um bebedouro em faiança atribuído à Real Fábrica da Bica do Sapato, datado do final do século XVIII ou início do século XIX, e refere a fábrica como uma das produções cerâmicas lisboetas que se distinguiram no período.

A produção atribuída à fábrica inclui faiança pintada manualmente e vidrada a branco estanífero, aproximando-se das tipologias decorativas e utilitárias da faiança portuguesa de finais de Setecentos.

A designação "Real Fábrica" sugere a existência de privilégio, proteção ou estatuto régio, comum a várias unidades fabris portuguesas do período.

Incêndio e encerramento Segundo o Museu Quinta das Cruzes, a Real Fábrica da Bica do Sapato foi consumida por um incêndio cerca de 1820. A ficha do Museu de Lisboa, por sua vez, apresenta a cronologia da unidade fabril como 1796–c. 1823, o que pode apontar para continuidade, reorganização ou sobrevivência residual da atividade após o incêndio referido por outras fontes.

A extinção da fábrica insere-se num período difícil para a cerâmica portuguesa, marcado pelas invasões francesas, pela abertura do mercado ultramarino às exportações inglesas, pelos decretos de 1808 e 1810 e, depois, pela instabilidade da Guerra Civil Portuguesa. Estes fatores afetaram várias oficinas cerâmicas portuguesas e contribuíram para a quebra de muitos estabelecimentos produtivos antes da reindustrialização da segunda metade do século XIX.

Fábrica Roseira Algumas fontes secundárias e museológicas referem a Fábrica Roseira como sucessora ou continuação da antiga Bica do Sapato. O roteiro do Museu de Cerâmica identifica a Fábrica Roseira como "antiga Bica do Sapato", com fundação em Lisboa em 1833. No entanto, investigação posterior sobre azulejaria oitocentista sustenta que a Fábrica Roseira, fundada em 1832 por Victor Rosembaum, naturalizado Roseira, não teve origem na da Bica do Sapato e se instalou noutro local, no Palácio Cova, na Calçada dos Cesteiros.

Produção e peças atribuídas A Real Fábrica da Bica do Sapato é conhecida por peças de faiança atribuídas à sua produção, conservadas em museus e coleções públicas. Entre os exemplos museológicos identificados contam-se um gomil do Museu de Lisboa e um bebedouro do Museu Quinta das Cruzes. O Catálogo Coletivo de Museus dos Açores identifica igualmente objetos atribuíveis à Real Fábrica da Bica do Sapato, incluindo peças de produção portuguesa não marcada, datadas do final do século XVIII, cerca de 1796–1800.

As peças atribuídas à fábrica integram o universo da faiança portuguesa de transição entre o século XVIII e o século XIX, numa fase em que coexistiam influências da produção do Rato, modelos neoclássicos, motivos florais, decoração polícroma e soluções utilitárias destinadas a consumo doméstico.

A fábrica é também mencionada em estudos gerais sobre cerâmica portuguesa como uma das unidades relevantes do ciclo de expansão iniciado no século XVIII. José Queirós incluiu a Real Fábrica da Bica do Sapato entre as fábricas portuguesas de louça e cerâmica que marcaram a história da produção nacional.

Notas

Bibliografia

Ligações externas Gomil produzido na Real Fábrica da Bica do Sapato, Museu de Lisboa Bebedouro atribuído à Real Fábrica da Bica do Sapato, Museu Quinta das Cruzes Objetos atribuídos à Real Fábrica da Bica do Sapato, Catálogo Coletivo dos Museus dos Açores

Categoria:Fabricantes de cerâmica extintas de Portugal Categoria:Empresas extintas sediadas em Lisboa Categoria:Fundações em Portugal em 1796 Categoria:Extinções em Portugal no século XIX Categoria:História de Lisboa Categoria:Século XVIII em Portugal Categoria:Século XIX em Portugal Categoria:Faiança