O desaparecimento de uma dama no Robert-Houdin (título original em francês: Escamotage d'une dame chez Robert-HoudinO título original circula em duas formas nas fontes. A forma chez Robert-Houdin — adotada neste artigo — é a que consta no catálogo comercial da Star Film Company, documento de distribuição emitido pela própria empresa de Méliès, e é mantida pela Cinémathèque française em sua plataforma HENRI. A variante au théâtre Robert-Houdin foi introduzida pela tradição arquivística francesa a partir do Essai de reconstitution du catalogue français de la Star-Film (Malthête, 1981), que reconstruiu o catálogo com linguagem descritiva para uso acadêmico e historiográfico. A diferença é semântica: chez é uma expressão coloquial francesa ("no estabelecimento de"), enquanto au théâtre nomeia o local de forma explícita. Ambas as formas designam o mesmo filme e o mesmo lugar: o Théâtre Robert-Houdin, 8 boulevard des Italiens, Paris.) é um curta-metragem mudo francês de 1896, dirigido e produzido por Georges Méliès e lançado pela Star Film. Registrado sob o número 70 do catálogo Star Film, é o primeiro filme de trucagem conhecido de Georges Méliès.O termo francês escamotage designa, no vocabulário do ilusionismo, o ato de fazer desaparecer um objeto ou pessoa pela mão, sem recurso a aparatos visíveis — a essência do truque de prestidigitação. O título PT-BR adotou "desaparecimento" por ser imediatamente compreensível ao leitor brasileiro, preservando o sentido do efeito sem exigir familiaridade com o jargão do ilusionismo francês do século XIX. É também um dos marcos fundadores do cinema de efeitos especiais. O filme mostra Méliès, no papel de mágico, fazendo sua assistente Jehanne d'Alcy desaparecer numa cadeira, ser substituída por um esqueleto e, em seguida, reaparecer. A ilusão é realizada através do stop trick — técnica de interrupção e retomada da filmagem —, cujo uso neste filme constitui o primeiro exemplo documentado de sua aplicação para fins mágicos no cinema. O filme sobreviveu e está disponível em arquivos cinematográficos e em domínio público.
Enredo
Um mágico (Georges Méliès) entra num cenário de palco decorado em estilo rococó e convida sua assistente (Jehanne d'Alcy) a sentar numa cadeira colocada sobre um jornal espalhado no chão. O jornal serve para demonstrar ao espectador que não há alçapão no piso. O mágico cobre a assistente com um xale e, ao retirá-lo, ela desapareceu. Em seu lugar surge um esqueleto sentado na mesma cadeira. O mágico cobre o esqueleto com o xale — e ao retirá-lo novamente, a assistente reaparece, sã e salva, para uma reverência final ao público.
Produção
O truque de Buatier de Kolta no palco
O filme é baseado num truque de ilusionismo criado pelo mágico franco-britânico Buatier de Kolta e estreado pela primeira vez em março de 1886, em Paris, no qual uma mulher sentada numa cadeira desaparecia subitamente diante da plateia. No palco, o truque exigia uma engenharia complexa: o jornal espalhado no chão era feito de borracha especial, que disfarçava e selava um alçapão; a cadeira era construída com assento desmontável e um flap embutido no próprio jornal de borracha, pelo qual a assistente se esquivava rapidamente para baixo; e o mágico distraía a plateia com o xale durante a fuga. A pequena estatura de Jehanne d'Alcy era ideal para a execução rápida dessa fuga. Méliès já encenavara o truque de Buatier de Kolta no Théâtre Robert-Houdin antes de filmá-lo — e foi exatamente esse conhecimento prático da ilusão que lhe permitiu reconhecer, de imediato, as possibilidades cinematográficas do stop trick quando o descobriu.
O stop trick: a jogada de mestre
Na versão filmada, Méliès eliminou inteiramente a maquinaria de palco — o jornal de borracha, o alçapão, o mecanismo de fuga — e substituiu tudo por paragens estratégicas da câmera. Neste filme, a câmera foi interrompida três vezes, obtendo respectivamente o desaparecimento da dama, a aparição do esqueleto e o reaparecimento da assistente. Entre cada paragem, Méliès reposicionava os elementos da cena mantendo a câmera fixa; ao retomar a filmagem, era necessária uma emenda (soudure) para eliminar os fotogramas superexpostos gerados pelo arranque e paragem do aparelho. Ao projetar o filme, o espectador via apenas as transformações instantâneas, sem qualquer rastro da manipulação. Essa técnica, conhecida como stop trick, é descrita em detalhe no artigo dedicado ao tema.
A vantagem cinematográfica sobre o truque de palco era dupla. Primeiro, Méliès não precisava mais de nenhum aparato físico especial — qualquer espaço com câmera fixa bastava. Segundo, e mais importante, o stop trick permitiu a Méliès expandir o truque original: no palco de Buatier de Kolta, o truque terminava com o reaparecimento da assistente. Na versão filmada, Méliès acrescentou o episódio do esqueleto — uma cena inteiramente nova, impossível de realizar com os meios de palco disponíveis —, transformando uma ilusão conhecida num espetáculo cinematográfico original.
A descoberta do stop trick e a independência de Méliès
A descoberta do stop trick por Méliès é narrada pelo próprio cineasta como um acidente. Nas suas próprias palavras: «Um bloqueio do aparelho que eu usava no início produziu um efeito inesperado num dia em que eu fotografava prosaicamente a Place de l'Opéra; um minuto foi necessário para desbloquear a película e colocar o aparelho em funcionamento novamente. Durante essa interrupção, vi subitamente um ônibus Madeleine-Bastille transformado num carro fúnebre e homens transformados em mulheres. O truque por substituição, dito 'truque de parada', estava descoberto.» O incidente ocorreu durante uma das filmagens de atualidade que Méliès realizava na Place de l'Opéra — local que aparece em pelo menos dois títulos do catálogo Star Film anteriores ao #70: o #10 e o #17, ambos perdidos, o que impede identificar em qual deles o momento da descoberta está registrado.The Cine-Tourist (thecinetourist.net) lista três Place de l'Opéra no catálogo de Méliès — números 10, 17 e 139. O #139 é bem posterior ao #70 e não pode corresponder à descoberta. Os candidatos plausíveis são portanto o #10 e o #17, ambos perdidos. Os detalhes específicos desta anedota são considerados por alguns historiadores como possivelmente embelezados pelo cineasta ao recontar a história — mas a essência da descoberta acidental é aceita como historicamente coerente, dado que Méliès dedicou seus primeiros meses de produção exclusivamente a filmes de atualidade sem qualquer trucagem.
O que torna a descoberta de Méliès singular é o contexto em que ocorreu: um único homem, operando sozinho sua própria câmera de projeção pública, no âmbito de um cinema destinado a plateias coletivas. Isso contrasta radicalmente com o único precedente técnico conhecido — o filme The Execution of Mary, Queen of Scots (1895), produzido pelo estúdio industrial de Thomas Edison nos Estados Unidos por uma equipe de técnicos e engenheiros, para o Kinetoscope, um aparelho de visualização individual por ocular, sem projeção pública e sem plateia. Tratam-se de tecnologias, contextos de produção e finalidades completamente distintos, que não permitem comparação direta. Foi Méliès quem descobriu, desenvolveu e estabeleceu o stop trick como linguagem criativa no cinema de projeção pública — e foi ele quem o transformou, a partir deste filme, no fundamento técnico do cinema de truques.
A homenagem a Robert-Houdin
A presença do nome Robert-Houdin no título não é casual. Méliès era proprietário e diretor do Théâtre Robert-Houdin desde 1888 e considerava o grande ilusionista francês sua principal inspiração artística — tanto como mágico quanto como cineasta. Ao nomear este filme em referência ao teatro que levava o nome do mestre, Méliès prestava uma homenagem explícita à tradição do ilusionismo francês da qual se sentia herdeiro, ao mesmo tempo que anunciava a fusão entre essa tradição e o novo meio cinematográfico. O paradoxo é elegante: o filme usa uma tecnologia radicalmente nova — a câmera cinematográfica — para realizar um truque que Robert-Houdin teria reconhecido imediatamente como seu, mas por meios que o velho mágico jamais poderia ter imaginado.
Jehanne d'Alcy
Jehanne d'Alcy (1865–1956) era atriz e performer do Théâtre Robert-Houdin, onde havia acumulado vasta experiência com o truque de palco de Buatier de Kolta, do qual se tornara especialista graças à sua pequena estatura. Foi a protagonista de vários filmes de Méliès e, anos mais tarde, tornou-se sua esposa. Sua presença neste filme não é meramente técnica: d'Alcy era uma performer experiente cuja familiaridade com o truque original tornava a execução cinematográfica mais precisa e eficaz.
Cenário e local de filmagem
O filme foi rodado no jardim da casa de Méliès em Montreuil-sous-Bois, num pequeno estrado ao ar livre decorado com painéis pintados que simulavam um interior em estilo rococó. A escolha do jardim não era arbitrária: em 1896, a iluminação artificial não era uma opção viável para filmagens. As lâmpadas da época não tinham potência suficiente para expor a película cinematográfica, e a eletricidade ainda não estava amplamente difundida. Toda a produção cinematográfica do período dependia exclusivamente da luz natural do dia — o que obrigava Méliès a construir seus cenários ao ar livre, orientando-os para captar o máximo de luz solar. O resultado é um paradoxo visual que se tornaria característico de Méliès: cenários claramente artificiais, pintados e teatrais, iluminados por luz natural difusa. Apenas em 1897 Méliès resolveria definitivamente essa limitação, construindo em Montreuil um estúdio envidraçado — uma estrutura de vidro e aço, semelhante a uma estufa, que permitia captar luz natural de forma controlada e protegida das intempéries, sem depender das condições climáticas do dia.
Vídeo
center|500px|thumbtime=5|O desaparecimento de uma dama no Robert-Houdin (1896), de Georges Méliès — versão disponível no Wikimedia Commons, domínio público
Contexto no catálogo
Registrado sob o número 70 do catálogo da Star Film, O desaparecimento de uma dama no Robert-Houdin é precedido por Place Saint-Augustin (#69) e seguido por Le Fakir (mystère indien) (#71). O número 70 marca uma virada decisiva no catálogo: os primeiros 69 filmes de Méliès eram exclusivamente cenas de atualidade, sem qualquer trucagem de câmera. A partir deste filme, o stop trick passou a ser incorporado progressivamente à produção da Star Film, inaugurando o período em que Méliès desenvolveria o vocabulário visual do cinema de truques.
Preservação
O filme sobreviveu em cópias de 35 mm em preto e branco conservadas na Cinémathèque française e em outros arquivos cinematográficos. Embora as cópias sobreviventes sejam em preto e branco, a Star Film comercializava versões coloridas à mão de seus filmes — processo artesanal em que operárias especializadas aplicavam tintas diretamente sobre cada fotograma da película, quadro a quadro, com pincéis finíssimos. Tratava-se de um trabalho de precisão extraordinária: um filme de um minuto contém cerca de 900 fotogramas, cada um pintado individualmente à mão. Em 1979, o especialista em Méliès Jacques Malthête reconstruiu uma versão colorida à mão deste filme, utilizando materiais e técnicas autênticos da época. Em 2017, a Cinémathèque française digitalizou sua cópia em preto e branco em resolução 4K, no laboratório Hiventy, a partir de um contratipo 35 mm em safety film. O filme está disponível em domínio público no Wikimedia Commons, no Internet Archive e na plataforma HENRI da Cinémathèque francesa.
Ver também
Georges Méliès Star Film Company Jehanne d'Alcy Buatier de Kolta Stop trick Cinema de truques Théâtre Robert-Houdin
Ligações externas
Categoria:Filmes da França de 1896 Categoria:Curtas-metragens de 1896 Categoria:Filmes mudos Categoria:Filmes em preto e branco Categoria:Filmes dirigidos por Georges Méliès Categoria:Filmes de trucagem