Astyanax turmalinensis, popularmente referido como lambari, é uma espécie de peixe caraciforme da família dos acestrorranfídeos (Acestrorhamphidae), subfamília dos acestrorranfíneos, pertencente ao gênero Astyanax. É endêmica de Minas Gerais, no Brasil. Foi descrita em 2003 a partir de exemplares coletados na bacia do rio Jequitinhonha, sendo atualmente conhecida também das bacias dos rios Pardo, Doce e São Francisco, em áreas dos domínios da Mata Atlântica e do Cerrado. Habita riachos e pequenos cursos de água de águas claras, geralmente com fundo pedregoso ou arenoso e vegetação ripária relativamente preservada.

A espécie apresenta corpo moderadamente alongado e comprimido lateralmente, distinguindo-se de congêneres pela combinação de caracteres merísticos e morfológicos, incluindo 20 a 24 raios na nadadeira anal, 34 a 36 escamas perfuradas na linha lateral, um ou dois dentes maxilares e uma mancha escura característica no pedúnculo caudal prolongada anteriormente por uma faixa lateral. Também possui mancha umeral conspícua, focinho relativamente delgado e dentição pré-maxilar organizada em duas fileiras. Os exemplares conhecidos atingem pouco mais de cinco centímetros de comprimento padrão.

As informações sobre sua biologia permanecem limitadas, embora a espécie seja considerada frequente e abundante nas localidades onde foi registrada. Foi observada em simpatria com diversas outras espécies de peixes de riachos do leste de Minas Gerais. Devido à sua ampla distribuição regional, abundância aparente e ausência de ameaças significativas conhecidas, foi classificada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) como menos preocupante (LC). Parte de sua distribuição encontra-se protegida por unidades de conservação como o Parque Nacional da Serra do Cipó, a Área de Proteção Ambiental do Morro da Pedreira, a Estação Ecológica de Acauã e o Parque Estadual de Grão Mogol.

Etimologia

O nome popular lambari, segundo o Dicionário Histórico das Palavras Portuguesas de Origem Tupi (DHPT), tem origem controversa. Provavelmente originou-se do tupi arawe'ri, o nome dado a vários peixes da família dos caracídeos, através araberi > *arambari > *alambari > lambari. Foi registrado em 1749 como lambare, em 1914 como lambarys e 1928 como lambarí. O nome genérico Astyanax deriva de Astíanax, filho de Heitor na mitologia grega. O epíteto específico turmalinensis faz referência ao município de Turmalina, em Minas Gerais, onde os primeiros exemplares da espécie foram coletados.

Taxonomia e sistemática

Astyanax turmalinensis é uma espécie de peixe caraciforme atualmente alocada na família dos acestrorranfídeos, subfamília dos acestrorranfíneos, pertencente ao gênero Astyanax, grupo popularmente conhecido no Brasil como lambaris. Foi descrita em 2003 por Mauro L. Triques, Volney Vono e Emmanuelle V. Caiafa, com base em exemplares coletados na bacia do rio Jequitinhonha, em Minas Gerais. À época, foi tratada como parte dos caracídeos, subfamília dos , classificação então usada para diversos caraciformes neotropicais posteriormente reorganizados em diferentes linhagens. No mesmo período, o gênero Astyanax reunia cerca de uma centena de espécies e subespécies amplamente distribuídas pela região neotropical, mas a ictiofauna do Jequitinhonha ainda era considerada pouco estudada. Antes da descrição de A. turmalinensis, eram atribuídas à bacia apenas algumas espécies do gênero, como A. brevirhinus, A. fasciatus jequitinhonhae e A. taeniatus. O holótipo, depositado na coleção ictiológica do Departamento de Zoologia da Universidade Federal de Minas Gerais (DZUFMG), foi coletado em maio de 1989 no córrego Divisão, tributário da margem direita do rio Jequitinhonha, na vila de Peixe-Cru, município de Turmalina, Minas Gerais. Os parátipos foram coletados na mesma localidade entre 1989 e 1990. Outros exemplares examinados procederam da localidade-tipo e do ribeirão do Gigante, tributário da margem esquerda do Jequitinhonha, no município de Botumirim, também em Minas Gerais.

Diagnóstico

Astyanax turmalinensis distingue-se das demais espécies conhecidas do gênero pela combinação de 20 a 24 raios na nadadeira anal, 34 a 36 escamas perfuradas na linha lateral, uma ou duas fileiras dentárias no maxilar, maior altura corporal situada na origem da nadadeira pélvica e presença de uma mancha oval no pedúnculo caudal, alongada horizontalmente, que se prolonga pelos raios medianos da nadadeira caudal. Essa mancha continua anteriormente como uma faixa escura lateral no corpo, estreitando-se até um ponto ligeiramente anterior à metade do comprimento padrão. A espécie também apresenta uma mancha umeral preta, truncada anteriormente e geralmente arredondada posteriormente, estendendo-se em direção anteroventral. Essa mancha é seguida por uma área clara e, em seguida, por uma área escura verticalmente alongada, formada por cromatóforos esparsamente agrupados. O focinho é delgado e aproximadamente do mesmo comprimento que o diâmetro do olho; há quatro dentes na fileira externa do pré-maxilar; a fileira interna pode apresentar quatro ou cinco dentes; e a margem posterior da nadadeira anal é anteriormente côncava. Revisões posteriores também corrigiram dados morfométricos da descrição original, demonstrando que a profundidade da cabeça corresponde a 94,6–110,1% do comprimento cefálico.

Descrição

O corpo de Astyanax turmalinensis é moderadamente alongado e comprimido lateralmente. O comprimento padrão dos parátipos examinados varia de 15,2 a 56,7 milímetros, enquanto o holótipo mede 48,3 milímetros. A cabeça representa cerca de um quarto do comprimento padrão, e a maior altura corporal situa-se na origem da nadadeira pélvica, ligeiramente à frente da origem da nadadeira dorsal. O perfil dorsal da cabeça é convexo da extremidade anterior do focinho até a região da narina posterior, tornando-se aproximadamente reto e inclinado para cima até a região mediana do olho, e depois ligeiramente côncavo ou reto até a extremidade posterior do supraoccipital. O perfil dorsal pós-cefálico é convexo até a origem da nadadeira adiposa e levemente côncavo dessa região até o pedúnculo caudal. O perfil ventral é convexo da extremidade anterior da mandíbula até a origem da nadadeira pélvica, quase reto até a origem da nadadeira anal e levemente côncavo sob o pedúnculo caudal.

O focinho tem comprimento aproximadamente igual ao diâmetro do olho. A região ventral do corpo, da mandíbula até a nadadeira pélvica, é arredondada, tornando-se plana até a origem da nadadeira anal; o pedúnculo caudal é arredondado ventralmente. A região dorsal do corpo é quilhada até a origem da nadadeira dorsal e arredondada posteriormente até a inserção da nadadeira caudal. A origem da nadadeira dorsal situa-se pouco atrás do ponto médio do comprimento padrão e ligeiramente atrás da base da nadadeira pélvica. A nadadeira adiposa origina-se a cerca de dois terços da distância entre a origem da nadadeira dorsal e a inserção do raio dorsal da nadadeira caudal. A nadadeira caudal é bifurcada, com lobos simétricos. A nadadeira peitoral possui i+12 raios e margem posterior ligeiramente convexa; a nadadeira dorsal possui ii+9 raios e margem posterior reta; a nadadeira pélvica possui i+7 raios e margem posterior convexa; e a nadadeira anal possui ii–iii+18–21 raios, com margem posterior ligeiramente côncava anteriormente. Os raios anteriores da nadadeira anal são os mais longos, medindo pouco mais que o dobro do comprimento do último raio anal. A nadadeira caudal apresenta i+9 raios no lobo superior e i+8 no lobo inferior.

A dentição inclui quatro dentes anteriores grandes e quatro dentes posteriores pequenos no dentário. Os dentes grandes são pentacuspidados, com a cúspide mediana muito maior que as demais; os dentes pequenos são tricuspidados, exceto o último, que é cônico. O pré-maxilar possui duas fileiras de dentes: a fileira interna tem quatro dentes, sendo os dois medianos tetracuspidados e os laterais pentacuspidados; a fileira externa também tem quatro dentes, geralmente tri ou pentacuspidados. O maxilar apresenta um ou dois dentes, o anterior pentacuspidado e o posterior tricuspidadado. A boca é terminal, e a porção inferior do primeiro arco branquial apresenta nove a dez rastros branquiais.

O corpo é uniformemente coberto por escamas cicloides. A linha lateral possui 34 a 36 escamas perfuradas, e a série transversal apresenta 9,5 a 12,5 escamas, das quais 5,0 a 6,5 ficam acima da linha lateral e 4,5 a 6,0 abaixo dela. Há uma quilha de escamas lateral à base da nadadeira pélvica, justaposta aos raios dessa nadadeira, com comprimento equivalente a cerca de 30% do comprimento da nadadeira pélvica. Em álcool, a coloração de fundo do corpo e da cabeça é creme, castanho-acinzentada dorsalmente e mais clara ventralmente. A região ventral anterior à origem das nadadeiras pélvicas não apresenta cromatóforos. A margem dos olhos, as áreas lateral e ventral da cabeça e a região da cavidade corporal são prateadas. Uma faixa longitudinal médio-lateral prateada cobre a faixa preta lateral que se estende anteriormente a partir da mancha do pedúnculo caudal. As nadadeiras são creme na porção proximal e hialinas distalmente, com cromatóforos concentrados nas bordas dos raios, mas também presentes na membrana. A margem posterior da nadadeira anal é escurecida.

Distribuição e habitat

Astyanax turmalinensis é endêmica do estado de Minas Gerais, onde ocorre nas bacias dos rios Pardo, Jequitinhonha, Doce e São Francisco, em áreas inseridas nos domínios da Mata Atlântica e do Cerrado. A localidade-tipo situa-se no córrego Divisão, tributário da margem direita do Jequitinhonha, na vila de Peixe-Cru, município de Turmalina. A espécie também foi registrada no ribeirão do Gigante, tributário da margem esquerda do Jequitinhonha, no município de Botumirim. É uma espécie tropical de água doce, considerada pelágica e registrada em profundidades entre zero e um metro. Registros posteriores ampliaram sua distribuição conhecida para drenagens adjacentes da Serra do Espinhaço, incluindo localidades no Parque Nacional da Serra do Cipó. Nessa região, a espécie foi registrada no rio do Peixe, pertencente à bacia do Doce, bem como no córrego Capão da Mata e no ribeirão Mascates, ambos integrantes da bacia do São Francisco. A comparação desses exemplares com a série-tipo, incluindo o holótipo, não revelou diferenças morfológicas relevantes, confirmando sua identificação como A. turmalinensis.

O córrego Divisão é descrito como um pequeno curso de água clara, sombreado por floresta, com substrato pedregoso. Possui cerca de cinco quilômetros de extensão e, no ponto de amostragem, aproximadamente dois metros de largura e 0,6 metro de profundidade. O ribeirão do Gigante é um curso de água clara, com numerosos pequenos tributários, substrato formado por seixos e areia e vegetação ripária bem preservada. Mede cerca de 18 quilômetros de extensão e, no ponto de coleta, aproximadamente dez metros de largura e um metro de profundidade, a cerca de três quilômetros de sua foz no Jequitinhonha. A espécie habita riachos e pequenos cursos de água de águas claras, com fundo predominantemente formado por seixos e areia e vegetação ripária relativamente preservada. A bacia do Jequitinhonha abrange cerca de 70 mil quilômetros quadrados e nasce na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. É limitada ao sul pela bacia do Mucuri, ao norte pela bacia do Pardo e a oeste pela bacia do São Francisco. Apesar de sua importância biológica, foi historicamente pouco explorada do ponto de vista ictiológico e sofreu alterações ambientais associadas a atividades agropecuárias e a projetos de aproveitamento hidrelétrico.

Biologia e ecologia