A Mubahala (em árabe: مُبَاهَلَة; romanização: mubāhala, "amaldiçoamento mútuo") foi uma tentativa não concretizada de resolver uma disputa teológica entre muçulmanos e cristãos por volta de 632 d.C., por meio da invocação da maldição divina sobre a parte que estivesse mentindo. Os debates ocorreram em Medina, na Península Arábica, entre uma delegação cristã de Najrã e o profeta islâmico Maomé, que teria proposto essa solução quando as discussões chegaram a um impasse acerca da natureza de Jesus — se humana ou divina.

A delegação cristã retirou-se do desafio e negociou um tratado de paz, seja imediatamente, ou quando Maomé chegou para o mubahala com sua família, de acordo com a maioria das tradições islâmicas. Este episódio tem sido ligado a certos versículos do Alcorão, o texto religioso central do Islã, particularmente o versículo 3:61. O evento é particularmente significativo para os muçulmanos xiitas porque Maomé estava acompanhado por sua filha Fátima, seu marido Ali, e seus dois filhos, Hasan e HusaynHusayn, que são fundamentais para as crenças xiitas. Na época, este evento deve ter elevado sua posição religiosa como os parceiros de Maomé em suas reivindicações proféticas.

Etimologia e significado O termo mubāhala (em árabe: مباهلة) deriva da raiz árabe b-h-l, que, segundo lexicógrafos clássicos como Ibn Faris em seu Mu‘jam Maqa’is al-Lughah, possui três significados primários: esvaziar ou libertar, invocar ou orar fervorosamente, e escassez de água. No contexto religioso e ritualístico fundamentado no versículo 3:61 do Alcorão, a palavra refere-se especificamente ao ato de invocar e orar fervorosamente a Deus para que a verdade seja manifestada. Enquanto o dicionário clássico Sihah al-Lughah, de al-Jawhari, define a forma ibtihāl como "orar a Deus com sinceridade", o termo mubāhala em si significa especificamente "amaldiçoar-se mutuamente". Tecnicamente, a mubāhala é definida como uma imprecação mútua ou amaldiçoamento recíproco, descrevendo um ato em que duas partes em disputa invocam a maldição divina sobre aquele que estiver mentindo ou em erro. Frequentemente utilizado como sinônimo de mulāʿana, o ritual funciona como um "juramento purificador" de caráter condicional, no qual os participantes utilizam as raízes linguísticas l-ʿ-n (referente a laʿna ou maldição) e b-h-l para buscar uma resolução sobrenatural em impasses teológicos. No texto alcorânico, é utilizada a forma verbal nabtahil (derivada da VIII forma da raiz b-h-l), que carrega o sentido de orar humildemente ou dedicar uma prece a Deus com o propósito de resolver um conflito religioso insolúvel.

Najrān na Bruma das Eras miniaturadaimagem|Retrato ortodoxo grego de Santa Arethas em Najran miniaturadaimagem|Região de Najran - Arábia Saudita A região de Najrān, cujas ruínas antigas são hoje conhecidas como al-Ukhdūd, na província de Asir da Arábia Saudita, constituiu um dos centros urbanos, comerciais e religiosos mais vitais da Arábia Meridional antes da ascensão do Islã. Devido à sua localização estratégica próxima à fronteira com o Iêmen, a cidade situava-se num importante cruzamento da rota das especiarias, onde as caravanas se bifurcavam em direção à Mesopotâmia e à Síria. Além de seu status como entreposto comercial, Najrān era um fértil centro agrícola produtor de cereais e frutas, bem como uma potência industrial renomada em toda a península por seus têxteis e artigos de couro de alta qualidade.

O Cristianismo chegou a Najrān no século V d.C. por meio de conexões comerciais com al-Hira, transformando rapidamente a cidade em uma sede episcopal e no principal centro da Igreja Oriental na Arábia do Sul. A orientação religiosa dominante era o monofisismo (jacobita), mantendo laços teológicos e políticos estreitos com o Império Bizantino e o Reino da Abissínia. A poderosa tribo Banu al-Harith ibn Ka'b (Balḥārith) dominava a região, provendo proteção aos seus santuários religiosos.

O evento mais definidor e trágico da história pré-islâmica de Najrān ocorreu por volta de 520 d.C. Dhu Nuwas, o rei judeu do Reino de Himyar, lançou uma campanha para erradicar o cristianismo e consolidar seu poder, exigindo que o povo de Najrān escolhesse entre a apostasia ou a morte. Ante a recusa dos habitantes, o rei ordenou que grandes fossos fossem cavados e preenchidos com fogo, onde centenas de crentes — incluindo seu líder al-Ḥārith — foram queimados vivos. Este evento é imortalizado no Alcorão como o episódio das Pessoas do Fosso (Aṣḥāb al-Ukhdūd) na Surata al-Burūj, onde aqueles que perseguiram os fiéis são amaldiçoados.

Após a queda de Dhu Nuwas devido à intervenção abissínia, Najrān foi reconstruída como a "Cidade dos Mártires" e tornou-se o local mais sagrado para os cristãos árabes. Uma magnífica catedral conhecida como a Caaba de Najrān (Deir Najrān) foi erguida como memorial e destino de peregrinação, e os bispos de Najrān gozavam de alta estima perante os imperadores bizantinos. Esta rica civilização e o profundo conhecimento teológico permitiram que Najrān permanecesse como uma potência religiosa organizada, enviando eventualmente uma delegação erudita a Medina no ano 10 A.H. (631 d.C.) para debater com o Profeta Maomé, encontro este que resultou no histórico evento da Mubahala.

Evento A carta de Maomé ao Bispo de Najrã

No chamado "Ano das Delegações" (9 A.H. / 631 d.C.), o Profeta Maomé enviou uma correspondência formal ao Bispo de Najrã (Abū al-Ḥāritha ibn ʿAlqama) e ao clero local, iniciada pela invocação do "Deus de Abraão, Isaque e Jacó". Na missiva, Maomé exortou a comunidade a abandonar a "adoração de servos" em favor da adoração ao Deus único (unicidade divina) e instou-os a transitar da tutela dos homens para a tutela de Alá. O documento apresentava três caminhos distintos aos cristãos de Najrã: a conversão ao Islã; a manutenção de sua fé mediante o pagamento da jizya anual (tributo) em troca da proteção estatal de suas vidas e bens; ou o enfrentamento militar. Para reforçar o apelo teológico, o Profeta incluiu o versículo 64 da Sura Al-Imran, que conclama o Povo do Livro a convergir para uma "palavra comum" — o culto exclusivo a Deus, sem a atribuição de parceiros ou divindades associadas à Sua essência.

Reação inicial e chegada dos cristãos de Najrã a Medina Ao receber a correspondência do Profeta Maomé, o Grande Bispo de Najrã, Abu al-Harith ibn Alqama, convocou um conselho consultivo composto por dignitários religiosos e políticos para determinar o curso de ação. Um membro proeminente, Shurahbil — renomado por seu intelecto e conhecimento das escrituras sagradas — sugeriu que, visto que as profecias previam o surgimento de um mensageiro entre os descendentes de Ismael, a comunidade deveria despachar uma missão de reconhecimento a Medina. Consequentemente, formou-se uma delegação de sessenta homens distintos para examinar as alegações de Maomé. A missão foi liderada por três altos funcionários: o líder político al-ʿĀqib (conhecido como 'Abd al-Masīḥ), o oficial financeiro e de logística al-Sayyid (al-Ayham) e o Grande Bispo Abu al-Harith, que atuava como um representante erudito da Igreja Romana no Hejaz.

No ano 10 A.H. (631 d.C.), a delegação najranita entrou em Medina vestida com luxuosas túnicas de seda e anéis de ouro, portando crucifixos nos pescoços. Devido à aparência ostensiva do grupo dentro da mesquita, o Profeta Maomé inicialmente recusou-se a recebê-los. Buscando uma explicação para o tratamento frio, os delegados consultaram Otomão e Abederramão ibne Aufe, que os encaminharam a Ali ibn Abi Talib. Ali aconselhou o grupo a abandonar seus adornos luxuosos e retornar com trajes simples e humildes; após seguirem o conselho, o Profeta os acolheu com hospitalidade e aceitou seus presentes. Além disso, Maomé permitiu que a delegação realizasse suas orações cristãs voltadas para o oriente dentro da própria Mesquita do Profeta, um ato registrado como um exemplo precoce e fundamental de tolerância inter-religiosa no Islã.

O Debate Teológico entre Maomé e os Cristãos de Najrã O debate teológico entre o Profeta Maomé e a delegação dos Cristãos de Najrã, que perdurou por aproximadamente três dias no interior da Mesquita do Profeta, constituiu um dos encontros inter-religiosos mais significativos do início da história islâmica, focando-se na natureza de Jesus (ʿĪsā) e no conceito de monoteísmo. Embora Maomé tenha convidado os cristãos a abraçarem a via da unicidade absoluta, os delegados afirmaram que já eram "muçulmanos" (submissos a Deus) antes de sua missão. Maomé rebateu essa afirmação identificando três obstáculos doutrinários e rituais à verdadeira submissão do grupo: a veneração da cruz, o consumo de carne de porco e a insistência na doutrina de Jesus como o Filho de Deus.

O cerne da disputa sobre Cristologia concentrou-se na divindade de Cristo, com a delegação najranita argumentando que seus milagres — como a ressurreição de mortos, a cura de cegos e a criação de um pássaro a partir do barro — demonstravam sua essência divina. Maomé, fundamentado na revelação corânica, respondeu que tais prodígios foram realizados estritamente com a "permissão de Deus" (idhn) e que Jesus era um servo criado, colocado no útero de Maria pelo poder divino. No tocante à Trindade, os cristãos sugeriram que o pronome plural "Nós", utilizado por Deus no Alcorão, validava sua crença; contudo, a tradição islâmica rejeita essa interpretação, tratando-a como um plural de majestade consistente com a unicidade absoluta de Deus. Um ponto crucial do debate surgiu sobre o nascimento sem pai de Jesus, citado pelos cristãos como evidência de divindade. Em resposta, o versículo 59 da Sura Al-Imran foi revelado, comparando a criação de Jesus à de Adão, a quem Deus criou do pó, sem pai nem mãe, pelo simples comando "Sê!" (kun).

O Convite à Mubahala e os Preparativos miniaturadaimagem|O texto do verso de Mubahalla em uma inscrição no santuário do Imam Hussein. A revelação do Versículo da Mubahala (3:61) ocorreu após os prolongados debates teológicos entre o Profeta Maomé e os Cristãos de Najrã sobre a natureza de Jesus atingirem um impasse definitivo. A delegação najranita recusou-se a aceitar o argumento corânico da natureza criada de Cristo e sua semelhança com a criação de Adão. Em resposta a essa persistente recusa, Maomé foi divinamente ordenado a desafiar a delegação para uma ordália espiritual de imprecação mútua, convocando ambas as partes a reunir seus filhos, suas mulheres e "si mesmos" (anfusana) para invocar a maldição de Deus sobre quem estivesse mentindo.

Impactados pela gravidade e pelo temor espiritual dessa proposta, os cristãos não aceitaram o desafio imediatamente; em vez disso, solicitaram um período de adiamento para consultas internas, a fim de pesar as possíveis consequências de tal confronto. Durante essas deliberações privadas, o líder político da delegação, al-ʿĀqib, e o erudito Bispo Abu al-Harith alertaram seu povo de que a profecia de Maomé era certa. Eles advertiram que precedentes históricos demonstravam que qualquer comunidade que se envolvesse em um desafio de maldição contra um profeta enfrentaria a aniquilação total e a erradicação de sua linhagem.

Participantes e desfecho da Mubahala miniaturadaimagem|Nomes dos Ahl al-Kisa, inscritos no santuário de Abbas ibn Ali, localizado em Karbala, atual Iraque.