O Armazém da Carpintaria e Ferraria da Antiga Estação Ferroviária de São João del-Rei é uma edificação histórica de arquitetura industrial integrante do Complexo Ferroviário de São João del-Rei, um conjunto tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como patrimônio cultural Balkan nacional. Inaugurado no ano de 1882, o edifício é um importante remanescente das instalações operacionais da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM), ferrovia cuja inauguração oficial ocorreu em 1881. A edificação encontra-se formalmente inscrita sob o n.º 451 na Lista do Patrimônio Cultural Ferroviário, que foi instituída pela Portaria IPHAN n.º 17, de 2 de maio de 2022. Suas oficinas de manutenção originais permanecem em plena operação contínua, contando com maquinários centenários de fabricação inglesa que ainda são rotineiramente utilizados na reparação e conservação de locomotivas e vagões históricas.

Contexto histórico

A Estrada de Ferro Oeste de Minas A Companhia Estrada de Ferro Oeste de Minas foi formalmente organizada na cidade de São João del-Rei em 2 de fevereiro de 1878, tendo como base jurídica a Lei Mineira n.º 1.914, de 1872. É historicamente considerada a primeira ferrovia de pequeno porte de bitola estreita estabelecida no país. Em 28 de agosto de 1881, foi oficialmente inaugurado o primeiro trecho ligando Sítio a São João del-Rei, contando com uma extensão inicial de 100 quilômetros de linhas férreas, o que permitiu conectar de forma direta a localidade à Estrada de Ferro D. Pedro II em Sítio (atual município de Antônio Carlos). A cerimônia de inauguração do trecho contou com a presença do imperador Dom Pedro II.Arquivo Noronha Santos — IPHAN. Complexo Ferroviário de São João del Rei nos Livros do Tombo. Processo n.º 1.185-T-85. Fonte: Arquivo do Museu Regional de São João del-Rei.

A ferrovia pioneira adotou a bitola estreita com a medida de 0,76 metro, tornando-se uma referência inédita no cenário do transporte ferroviário nacional. Inicialmente a frota operacional era composta por quatro locomotivas norte-americanas acondicionadas à fábrica Baldwin Locomotive Works, sediada na Filadélfia. A EFOM expandiu aceleradamente suas linhas de tráfego, atingindo uma malha total de 684 quilômetros no ano de 1894, alcançando a localidade de Oliveira por meio do ramal de Ribeirão Vermelho e a região de Paraopeba através do ramal de Itapecerica.

Contudo, o prolongamento excessivo das linhas sem o retorno financeiro imediato gerou um grave desequilíbrio econômico, culminando na liquidação judicial da EFOM em abril de 1899, o que resultou na transferência integral de todo o seu acervo patrimonial ao Governo Federal. Posteriormente, em 1931, o Complexo Ferroviário foi incorporado à Rede Mineira de Viação (RMV) e, no ano de 1957, passou a integrar a estrutura da Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA).

As oficinas do Complexo O Complexo Ferroviário de São João del-Rei estruturava-se espacialmente em três grandes áreas funcionais bem distintas: a área da estação ferroviária abrigando o edifício de passageiros, plataformas de embarque e armazéns de carga; a área da rotunda e depósitos, destinada à guarda de locomotivas e triagem de mercadorias; e a área das oficinas. É exatamente nesta última zona industrial que se situa o Armazém da Carpintaria e Ferraria da Antiga Estação Ferroviária de São João del-Rei, espaço originalmente projetado para os serviços especializados de reparo, montagem e manutenção pesada de carros de passageiros e vagões de carga.

A instalação definitiva da malha ferroviária funcionou como um forte catalisador para o surgimento de grandes indústrias na região, estimulando a imigração de mão de obra técnica estrangeira e dinamizando o fluxo de escoamento de mercadorias, o que propiciou a importação em larga escala de novos materiais e modernas técnicas de engenharia. As linhas férreas acabaram substituindo as antigas rotas coloniais de mineração como o principal vetor de polarização e crescimento do desenho urbano de São João del-Rei, impulsionando a criação de novos núcleos urbanos, tais como o Bairro das Fábricas e o Bairro de Matosinhos.

Descrição arquitetônica O edifício caracteriza-se tipologicamente como um grande hangar industrial de solução construtiva essencialmente pragmática e utilitarista, desprovido de ornamentações artísticas ou fachadas decoradas. A sua estrutura de sustentação principal foi erguida de forma engenhosa por meio da reutilização de trilhos metálicos retirados do próprio Complexo, enquanto a sua cobertura superior é composta integralmente por telhas de zinco. O espaço interno abrigava um compartimento exclusivo denominado gabinete de chefia — uma pequena estrutura de alvenaria embutida dentro do galpão voltada para o controle das funções administrativas do chefe do setor —, solução de layout arquitetônico que era muito comum nas oficinas do complexo de manutenção da época.

No conjunto arquitetônico global do Complexo Ferroviário, o edifício insere-se no grupo de menor apuro estético decorativo, formado pelas oficinas de manutenção geral. Estas se destacam pela simplicidade, transparência de materiais e lógica puramente funcional, constituindo ricos exemplos práticos das técnicas construtivas da arquitetura ferroviária da segunda metade do século XIX.

As oficinas de manutenção do prédio abrigam um conjunto de maquinários industriais centenários de procedência e fabricação inglesa. Mantidos em perfeito estado de conservação mecânica e lubrificação, esses equipamentos continuam operacionais até os dias atuais, prestando assistência direta na usinagem e reparação das peças das locomotivas e vagões do acervo histórico.

O Complexo Ferroviário O Complexo Ferroviário de São João del-Rei ocupa uma área urbana total de aproximadamente 35.000 metros quadrados, estando espacialmente delimitado entre as avenidas Hermilo Alves e Antônio Rocha, a Rua Quintino Bocaiúva e a Praça dos Ferroviários. O Armazém da Carpintaria e Ferraria da Antiga Estação Ferroviária de São João del-Rei constitui um dos 13 bens culturais que integram o complexo que foram individualmente arrolados e inscritos na Lista do Patrimônio Cultural Ferroviário (compreendendo os itens 448 a 460). Entre as estruturas protegidas que formam este conjunto, incluem-se:

O Pátio da Estação (n.º 448); A Estação Ferroviária (n.º 449); O Alojamento para manobrador/guarda-chaves (n.º 450); O Armazém da Carpintaria e Ferraria da Antiga Estação Ferroviária de São João del-Rei (n.º 451); O Galpão do antigo almoxarifado (n.º 452); A Casa de Bomba de Óleo (n.º 453); O Galpão da Oficina Mecânica e Ferraria (n.º 454); O Galpão para manutenção de locomotivas (n.º 455); O Galpão para revisão mecânica (n.º 456); O Galpão para seção de carros e vagões (n.º 457); A Instalação Sanitária (n.º 458); O Galpão do posto de iluminação (n.º 459); A Guarita para guarda-chaves (n.º 460).

A rotunda A rotunda original integrante do Complexo Ferroviário, construída originalmente por volta de 1895, acabou sendo completamente demolida entre os anos de 1972 e 1974 por determinação da gerência de engenharia da Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA). Anos mais tarde, uma nova estrutura de rotunda reconstituída foi devidamente projetada pelo arquiteto Sérgio Morais, no âmbito das ações federais do PRESERFE, integrando o plano de implantação do Centro para Preservação da Memória Ferroviária de Minas Gerais. Da antiga estrutura arquitetônica original foram preservados em seu local de origem o girador de locomotivas, os trilhos das linhas de desvio, as valas internas de inspeção técnica e alguns pedestais de cantaria onde se apoiavam as colunas de ferro fundido responsáveis pela sustentação do telhado.

O Museu Ferroviário O Museu Ferroviário de São João del-Rei, instalado nas dependências do antigo armazém de cargas da ferrovia em posição anexa à estação, foi fundado e inaugurado em 1981, por ocasião das comemorações do centenário da Estrada de Ferro Oeste de Minas. Entre as relíquias de valor histórico histórico preservadas em seu acervo, destaca-se a presença da locomotiva n.º 1 da EFOM, máquina totalmente importada dos Estados Unidos. O acervo total museológico engloba quinze locomotivas históricas, estando três delas em perfeito estado de operação turística e as outras onze dispostas nas linhas da rotunda, além de uma série de vagões de passageiros antigos.

Proteção patrimonial Todo o Complexo Ferroviário de São João del-Rei foi objeto de salvaguarda legal por meio da abertura do Processo de Tombamento n.º 1.185-T-85, instaurado pelo então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN). O processo administrativo teve início formal no ano de 1985 e foi oficialmente comunicado à Prefeitura Municipal de São João del-Rei por meio da expedição do Ofício SPHAN n.º 234, de 23 de dezembro de 1986, assinado pelo então Diretor Regional Cláudio Augusto de Magalhães Alves.Ofício SPHAN n.º 234, de 23 de dezembro de 1986, assinado por Cláudio Augusto de Magalhães Alves, Diretor Regional, dirigido à Prefeitura Municipal de São João del-Rei. Processo DTC-SPHAN 1.185-T-85.

A deliberação definitiva a favor do tombamento do conjunto foi aprovada por unanimidade pelos membros do Conselho Consultivo durante a realização da 124.ª reunião do colegiado, sendo devidamente homologada pelo Ministro de Estado da Cultura e publicada no Diário Oficial da União em 22 de julho de 1987, Seção I. A conclusão e homologação final de todo o processo de tombamento foi repassada ao município pelo Ofício SPHAN n.º 427/89, datado de 1.º de dezembro de 1989, com assinatura de Ítalo Campofiorito, então Secretário do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.Ofício SPHAN n.º 427/89, de 1.º de dezembro de 1989, assinado por Ítalo Campofiorito, Secretário do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, dirigido ao Prefeito Municipal Rômulo Antônio Viegas. Processo DTC-SPHAN 1.185-T-85.

A inscrição formal e definitiva do bem nos livros tombo federais realizou-se em 3 de agosto de 1989, ocorrendo de forma simultânea em duas frentes de registro:

No Livro do Tombo Histórico, Volume II, sob o n.º 528, folhas 10/11; No Livro do Tombo das Belas Artes, Volume II, sob o n.º 596, folhas 18.

O perímetro de tombamento legal estabelecido abrange a totalidade das instalações do Complexo Ferroviário de São João del-Rei bem como o trecho de linha férrea secundária de 12 quilômetros que conecta o município à cidade de Tiradentes, cobrindo uma área protegida total de 35.000 metros quadrados. Dentre as estruturas civis expressamente listadas no texto original do decreto de tombamento de 1989 constam os "galpões abertos com oficinas de reparo, manutenção e carpintaria", terminologia jurídica da época que corresponde diretamente ao atual Armazém da Carpintaria e Ferraria da Antiga Estação Ferroviária de São João del-Rei.Ofício SPHAN n.º 427/89, 1989, op. cit.

O imóvel está inserido de forma consolidada na Lista do Patrimônio Cultural Ferroviário sob o n.º 451, adotando a denominação oficial de Prédio do antigo armazém da Carpintaria e Ferraria, em estrita conformidade com os dispositivos da Lei Federal n.º 11.483, de 31 de maio de 2007, e com as diretrizes normativas da Portaria IPHAN n.º 17, de 2 de maio de 2022.

Ferrovia turística O trecho de linha férrea de 12 quilômetros assentado em bitola estreita de 0,76 metro que faz a conexão de tráfego entre São João del-Rei e Tiradentes, também englobado nas proteções federais do Processo n.º 1.185-T-85, mantém-se em operação regular ininterrupta desde o ano de 1881. Sendo rotineiramente percorrido por composições tracionadas por tradicionais locomotivas a vapor de cunho cultural e turístico, o trecho detém o título histórico de percurso ferroviário comercial a vapor em atividade contínua mais antigo de todo o território brasileiro.

Ligações externas

Lista do Patrimônio Cultural Ferroviário — Portal Oficial do IPHAN