Syagrus kellyana Noblick & Lorenzi (frequentemente grafada como S. kelliana) é uma espécie de palmeira pertencente à família Arecaceae e ao gênero Syagrus. A espécie é nativa e endêmica do estado de Minas Gerais, Brasil, sendo popularmente conhecida pelos nomes de coco-de-quarta ou palmeira-kellyana.

Histórico e taxonomia A espécie foi descrita formalmente em 2010 pelos botânicos Larry Ronald Noblick e Harri Lorenzi em um trabalho publicado no periódico científico Palms (v. 54, n. 1, p. 18-42). Até o ano de sua publicação, as populações desta palmeira vinham sendo erroneamente identificadas e confundidas com a espécie Syagrus picrophylla. O espécime de referência (voucher) que validou a descrição taxonômica foi coletado pelo botânico Larry R. Noblick (sob o número de coleta Noblick #5156) e encontra-se depositado no Herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (RB) sob o registro RB475570, com duplicatas enviadas ao IPA e FTG.

Descrição botânica A Syagrus kellyana é uma palmeira arborescente de porte moderado a elevado, medindo entre 4 e 8 metros de altura total.

Estipe O estipe (tronco) é do tipo solitário, ereto, colunar e de coloração cinzenta, medindo de 2 a 6 metros de comprimento por 16 a 18 centímetros de diâmetro. A superfície do estipe é lisa, mas marcada por cicatrizes circulares nítidas deixadas pelas bainhas das folhas antigas que já caíram.

Folhas A coroa é arredondada e composta por 8 a 12 folhas contemporâneas arqueadas e dispostas de forma helicoidal (em espiral) ao redor do estipe. A bainha foliar mede de 70 a 138 cm de comprimento com margens fibrosas e decíduas. O pecíolo mede de 11 a 60 cm de comprimento e possui margens lisas (inermes).

A raque foliar é longa e arqueada, medindo de 240 a 380 cm de comprimento. Sustenta de 104 a 140 pinas (folíolos) de cada lado, as quais possuem textura coriácea, coloração verde a levemente glauca (esbranquiçada) e ápice assimétrico e pendente. Os folíolos são inseridos em múltiplos ângulos ao longo da raque e distribuídos em arranjos agrupados de forma irregular, conferindo à folhagem um aspecto sutilmente plumoso. As pinas da seção mediana medem de 55–75 × 3,5–4,5 cm.

Inflorescência e flores A inflorescência é andrógina (andrómala) e surge de forma interfoliar. O prófilo mede de 40–67 × 6–8 cm, e a bráctea peduncular (espádice) é marcadamente sulcada e pruinosa, medindo de 110 a 160 cm de comprimento total, sendo revestida por um tomento esbranquiçado denso em sua extremidade. A porção expandida da bráctea mede de 62–100 × 15–20 cm. O pedúnculo possui indumento esparso de coloração ferrugínea após a antese e mede de 56–85 × 3–4 cm.

A raque da inflorescência mede de 42 a 70 cm de comprimento, ramificando-se em 45 a 70 ráculas retas que são inseridas de forma helicoidal. Durante a maturação dos frutos, as extremidades dessas ráculas secam e tornam-se retorcidas ou enroladas. As flores estaminadas possuem de 12 a 21 mm de comprimento, e as pistiladas medem de 9–21 × 9–13 mm.

Frutos Os frutos são ovoides, medindo de 3,5 a 4 cm de comprimento por 2,6 a 2,9 cm de largura. O epicarpo (casca exterior) possui coloração amarelada quando maduro e é totalmente recoberto por um indumento lanoso ferrugíneo que tipicamente se fende ou racha nas extremidades durante a maturação. O mesocarpo é fibroso e marcadamente suculento. O endocarpo é oval, lenhoso e ósseo, medindo de 3,3–3,5 × 1,8–2,6 cm com superfície exterior levemente irregular. No interior, o endosperma é regular, homogêneo e apresenta uma cavidade interna central (semelhante ao coco-da-baía), característica marcante do complexo ao qual pertence.

Afinidades morfológicas Syagrus kellyana integra um complexo taxonômico de espécies que possuem endosperma dotado de cavidade central líquida, o qual inclui táxons como S. cearensis, S. lorenzoniorum, S. guaratinguensis e S. picrophylla. Suas principais distinções morfológicas incluem: Em relação a S. cearensis: difere por apresentar estipe estritamente solitário e frutos ovoides dotados de um bico apical revestido por indumento ferrugínea (enquanto S. cearensis possui caules frequentemente cespitosos/gêmeos e frutos globosos achatados recobertos uniformemente por indumento). Em relação a S. picrophylla e S. lorenzoniorum: difere pelo mesocarpo do fruto ser suculento e pelas ráculas cujas pontas secam e retorcem na maturação (em contraste com as ráculas grossas que permanecem retas e verdes e os frutos fibrosos e pouco suculentos das duas espécies citadas). Em relação a S. guaratinguensis: distingue-se pelo porte substancialmente maior, frutos suculentos e flores pistiladas menores de 16 a 21 mm. Em relação a S. oleracea (guariroba): embora confundível pelo porte elevado, S. kellyana afasta-se por possuir o pedúnculo da inflorescência muito mais longo e frutos com cavidade interna (enquanto S. oleracea possui pedúnculo curto e curvado contra o tronco e frutos maciços).

Distribuição geográfica e habitat A palmeira é uma espécie endêmica do Brasil, com ocorrência confirmada exclusivamente na região Sudeste, no estado de Minas Gerais. Ecologicamente, trata-se de uma planta de alta raridade que habita exclusivamente o domínio fitogeográfico da Mata Atlântica (Floresta Ombrófila Densa). Seu habitat específico restringe-se a encostas de altitudes médias e solos rasos associados à vegetação de afloramentos rochosos (inselbergs de granito), nos quais cresce sob condições de alta exposição solar.

Uso paisagístico Devido à elegância de seu estipe acinzentado e à beleza de sua coroa de folhas arqueadas e ligeiramente plumosas, a espécie possui alto valor ornamental e potencial de uso no paisagismo urbano e residencial, demonstrando adaptabilidade de cultivo tanto em regiões de clima temperado quente quanto em zonas tropicais.

Referências

Ligações externas Syagrus kellyana na Flora e Funga do Brasil (JBRJ) Syagrus kellyana no RarePalmSeeds

Categoria:Syagrus Categoria:Arecáceas Categoria:Flora da Mata Atlântica Categoria:Flora de Minas Gerais Categoria:Flora do Brasil Categoria:Plantas descritas em 2010