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Introdução
O Agrupamento Angamos é um conjunto habitacional de médio porte pensado principalmente para os funcionários e trabalhadores, membros da classe média de Lima - Capital Peruana. Com espaço para 363 habitantes, os 92 apartamentos o complexo surge com uma enorme intenção de se impor em meio as demais obras emergentes do "boom" modernístico que acontecia não só no mundo, mas também ali mesmo na cidade de Lima.
Projetado pelo arquiteto Santiago Agurto Calvo em 1946. O Agrupamento representou um enorme desafio para seu arquiteto, que na época realizara seu primeiro projeto como membro interino da Corporación de la Vivienda. Orgão governamental responsável pelo financiamento e fiscalização de habitações de interesse social no país - equivale a nossa secretaria de habitação. O complexo de habitações tem seus 3.874 metros quadrados construídos em um terreno de 10.726 metros totais, vide o destaque pela baixa ocupação do solo - sendo apenas 36%; localizado bem próximo do parque El Campo de Marte, na região central de Lima. Sua relevância arquitetônica vai muito além das contribuições para o déficit habitacional que ocorriam no período; também representa uma quebra de paradigma do que começou a ser visto na década de 40, em meio as representações arquitetônicas modernas no distrito de Miraflores, que perdia suas cores na medida que o concreto e a brita tomavam conta do mercado imobiliário da época. Sendo assim, o projeto de Santiago Agurto aparece pioneiro e mesmo assim estabele padrões de vivenda que veríamos sendo replicados dali em diante.
“Em contraste com os modestos prédios multifamiliares que proprietários inescrupulosos e construtores incompetentes costumam erguer em diversos setores da nossa capital, protegidos por uma tolerância repreensível, um conjunto de excelentes apartamentos, repleto de luz e alegria, abriu suas portas. Com isso, a Corporação Nacional de Habitação pretende estabelecer um padrão de construção econômica para a classe média, que seja, no entanto, atraente, confortável e saudável."
A composição dos espaços livres, e as travessias, que permitem a conexão com os diferentes programas disponíveis no lote, foram importantes escolhas arquitetônicas. Mas o senso social, de reconhecer a problemática da densidade populacional exponente na grande metrópole, e formular um projeto de moradia que antecipasse a desordem, ao mesmo tempo garantindo que o mercado de moradia popular não seria tomado por habitações privadas de luz, ventilação natural e cor nas fachadas. Tudo isso foram pontos que tornaram a arquitetura de Santiago Augusto realmente pioneira e relevante.
miniaturadaimagem|Mapa de análise da organização de quadras no centro de Lima, Elaborado por Leonardo Soares / Base: Open Street Map
Ruptura Morfológica
A implantação do Agrupamiento Angamos representa uma crítica ao modelo urbano tradicional de Lima, caracterizado pelo quarteirão fechado de herança colonial e republicana. Em um lote trapezoidal de 10.726 m², delimitado pelas avenidas Horacio Urteaga e Talara, Agurto optou por uma disposição de seis blocos soltos. Esta decisão projetual resultou em uma taxa de ocupação do solo de apenas 36%, liberando os 64% restantes para áreas verdes, praças e circulações de uso público.
A resposta de Agurto à crise habitacional de Lima foi fundamentada no que se pode denominar de "Racionalismo Crítico". O arquiteto opunha-se veementemente às "quintas de renda" — vilas de aluguel frequentemente insalubres e superlotadas — que ele classificava como uma "verdadeira praga" urbana . Em contraposição, o Angamos foi concebido sob a premissa de que a luz natural, a ventilação e o espaço verde são direitos inalienáveis do morador moderno.
O programa habitacional do conjunto é notável por sua diversidade tipológica, desenhada para atender a diferentes composições familiares da classe média e trabalhadora. Os 92 apartamentos estão distribuídos de maneira a otimizar o uso do espaço contemplando as tipologias mais comuns de moradia pra época.
Contexto
O Legado Teórico e a Agrupación Espacio
A obra surge em um momento de intensa urbanização e transformação de Lima, onde o Estado assume um papel ativo na ´promoção de moradia através da criação da Corporación de la Vivienda em 1945.
Inserção Urbana:
O projeto insere-se nas políticas desenvolvimentistas e habitacionais da época, buscando oferecer soluções modernas e higiênicas para a classe trabalhadora e média em ascensão.
Relevância:
Localizado em uma área que estava se consolidando como um subcentro de Miraflores, o conjunto dialoga com o traçado urbano existente, mas propõe uma nova forma de ocupar o lote, rompendo com a quadra fechada tradicional. A obra ocupa um lote trapezoidal definido pelo encontro de três vias, organizando-se de forma a aproveitar a orientação solar e a ventilação natural.
Contexto do autor: Santiago Agurto foi uma figura central do Movimento Moderno peruano, sendo membro fundador da Agrupación Espacio.
Para compreender a profundidade do Agrupamento Angamos, é imperativo situá-lo no contexto da Agrupación Espacio, fundada em 1947. Este coletivo de arquitetos, artistas e intelectuais peruanos publicou manifestos que rejeitavam o ecletismo e o academicismo, defendendo uma arquitetura que respondesse genuinamente às necessidades sociais, técnicas e climáticas do homem contemporâneo. O Angamos reflete sua busca por uma arquitetura funcionalista que não negligencia a qualidade do espaço público e a estética austera. Foi o primeiro trabalho do Arquiteto na Corporação Nacional de Habitação e, segundo Heysen (2009), Agurto afirmou que o Angamos foi a obra que marcou sua carreira, servindo como laboratório para conceitos que ele aplicaria mais tarde em unidades vicinais.
Arquitetura
O Angamos é, essencialmente, a primeira grande materialização desses ideais em escala urbana no Peru. Como a primeira obra de Agurto na Corporación de la Vivienda (CNV), o projeto serviu como um laboratório prático. O próprio arquiteto reconheceu posteriormente que esta obra marcou sua carreira, fornecendo as bases empíricas e teóricas que ele aplicaria em projetos de escala monumental, como a Unidade Vicinal Mirones (1955) e o Conjunto Habitacional Palomino (1965).
Análise Volumétrica
O projeto explora a relação entre volume e espaço, buscando um equilíbrio entre a viabilidade financeira e o bem-estar dos moradores, enfrentando o "hacinamiento" (superlotação) resultante da exploração excessiva de terrenos valiosos. Assim, a proposta se fundamenta em um jogo de volumes, onde as circulações (verticais e horizontais) não apenas conectam os espaços, mas também criam áreas adicionais.
Integração Urbana
O volume mais extenso é posicionado em direção à rua principal, abrigando o centro de compras, enquanto o espaço público atravessa a quadra, formando um centro interno que vincula o conjunto ao seu entorno imediato. O volume orientado para a rua principal é destinado ao uso comercial. O espaço público perpassa a quadra, criando um núcleo interno que proporciona autonomia ao conjunto, sem isolá-lo do ambiente ao redor. Os apartamentos apresentam uma planta única, descrita como espaçosos, iluminados e arejados (“cheios de luz e alegria”). As circulações horizontais e verticais vão além de meros corredores; são elementos arquitetônicos que destacam a volumetria e criam espaços adicionais.
Estrutura
A implementação de apoios pontuais e a adoção de pórticos de concreto armado (gantries) foram fundamentais para a eficácia funcional das habitações no Angamos. Uma vez que a independência das vedações em relação à estrutura possibilitou a abertura de grandes vãos para janelas e varandas, a arquitetura tornou-se um exercício de resposta direta às necessidades de habitação.
"A arquitetura do Agrupamento Angamos é um exercício de racionalismo aplicado, onde a forma é rigorosamente ditada pela função e pela busca por salubridade urbana. Projetado em um lote trapezoidal, o conjunto rompe com a tradição da 'quadra fechada' de Lima, organizando-se em blocos lineares de três e quatro pavimentos que priorizam a ventilação cruzada e a incidência de luz solar direta em todas as unidades."
Essa busca pela salubridade se estende aos corredores de acesso, que são avarandados para oferecer ventilação e luz natural. As lâminas horizontais desses corredores atuam como brises, impedindo a entrada de luz solar direta nos ambientes internos.
"O projeto baseia-se em um sofisticado jogo de volumes horizontais, onde as circulações — tanto verticais (escadas) quanto horizontais — não são apenas funcionais, mas elementos plásticos que conferem profundidade às fachadas. A implantação estratégica dos blocos permite que o espaço público 'atravesse' a quadra, criando jardins internos protegidos do tráfego automotor, destinados ao lazer infantil e à convivência.”
É instigante observar que a escolha por uma estrutura em pórticos poderia ter levado ao uso de pilotis — estratégia que se popularizava à época graças a Le Corbusier, que propôs o térreo livre como um de seus cinco pontos estruturantes da arquitetura moderna. Embora o recurso do térreo livre tenha sido reservado para a Unidade Vecinal Miraflores, também de Agurto e do mesmo período (1948-1950), o Angamos compensa essa escolha com uma ocupação que garante ao morador uma série de caminhos e praças internas. A vivência do conjunto é marcada pela volumetria em concreto, que seria austera se não fosse pelo contraste dos jardins em céu aberto e o uso estratégico de materiais.
"O acabamento externo, marcado pela introdução de cores, foi uma inovação fundamental para humanizar a rigidez do concreto e dialogar com a atmosfera cinzenta de Lima."
Escala Humana e Urbana
Essa preocupação com a escala humana é evidente na própria materialidade: o contraste entre o tijolo de barro e o cimento para o fechamento, somado às cores, confere ao conjunto uma identidade que se destaca no tecido de Santa Beatriz.
O desfecho do projeto ocorre na integração entre a escala residencial e o dinamismo urbano do bairro. Vale notar que neste período, o centro de Lima encontrava-se em grandes transformações, e com as novas políticas e incentivos governamentais, haviam vivendas em construção por todo o território Latino. Isso tudo acompanhado da ascensão global do mercado imobiliário. Ainda assim, Angamos foi capaz de se destacar neste contexto.
Dessa forma, o Angamos se destaca como solução habitacional, consolidando-se como um organismo urbano que oferece uma alternativa ao adensamento desordenado, mantendo a qualidade de vida como prioridade.
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