Bmervaseco (em latim: Bmervasecus) é uma divindade indígena pertencente ao panteão galaico-lusitano e hispano-celta pré-romanoVASCONCELOS, José Leite de (1905). Religiões da Lusitânia. Volume II. Lisboa: Imprensa Nacional. p. 343-344.. Adorado como um deus de âmbito local pelas tribos dos Galaicos e Lusitanos no território compreendido entre os rios Mondego e Douro, o teónimo é classificado na epigrafia hispânica pela sua desinência morfológica celta e pelas hipóteses de sincretismo com o panteão clássico romanoTeixeira, Monteiro (2014). Cultos e Deuses da Lusitânia Pré-Romana. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa..

Evidência Epigráfica e Achado Arqueológico A comprovação histórica da existência de Bmervaseco baseia-se numa ara romana de pequenas dimensões (0,30 metros de altura por 0,12 metros de largura) descoberta no ano de 1877. O monumento foi localizado nas margens do Rio Paiva, na proximidade de Castro Daire, no distrito de Viseu, em Portugal.

A peça arqueológica foi transferida e permanece salvaguardada no acervo do Museu Arqueológico do Carmo, em Lisboa. A inscrição gravada no bloco de pedra, registada no Corpus Inscriptionum Latinarum sob o código CIL II 363 (e revista posteriormente em adendas como CIL II 5247), documenta o cumprimento de uma promessa através do seguinte texto em latim:"RE:Bmervasecus". In: Wikisource / Paulys Realencyclopädie der classischen Altertumswissenschaft (2022). BMER VASECO MARI NIANV S ANIM O LIBE S PONO MER Leitura Reconstituída: Bmer/vaseco / Mari/nianu/s anim/o libe/ns pono / mer(ito).

Análise Linguística e Hipóteses de Sincetismo

O Sufixo Celta -eco O filólogo José Leite de Vasconcelos destacou que a estrutura nominativa Bmervasecus (cujo dativo surge grafado como Bmervaseco) integra a desinência celta-indígena -ecus (variável em -aecus ou -aicus). Este sufixo linguístico é extremamente recorrente nas línguas paleohispânicas do ocidente da Península Ibérica para indicar qualificadores de origem geográfica, pertença a um castro fortificado ou vínculo identitário com uma comunidade gentílica específica (como se observa em teónimos como Carioceco ou Reve Nitaecus).

A Hipótese de Mercúrio (*Deo Mercurio Vaseco) A leitura do teónimo gerou debates interpretativos entre os maiores epigrafistas do século XIX: O historiador e filólogo alemão Emil Hübner, responsável pela compilação do volume II do Corpus Inscriptionum Latinarum, levantou uma hipótese alternativa de leitura para a primeira linha do penedo. Hübner advertiu que, caso a letra inicial B não estivesse perfeitamente segura ou representasse uma corruptela de gravação do artífice antigo, a inscrição deveria ser interpretada sob a fórmula sincrética D(eo) Mer(curio) Vaseco ("Ao Deus Mercúrio Vaseco").

Sob esta leitura crítica, a divindade indígena funcionaria como um epíteto local atribuído ao deus romano Mercúrio. Esta aproximação integraria a entidade no grupo de divindades hispano-celtas protetoras das artes e ofícios manuais, da circulação de bens e do comércio inter-regional nas rotas do rio Douro, partilhando traços paralelos com os deuses múltiplos conhecidos como Lucubos ou Lugoves.

Ver também Mitologia lusitana Lucubo

Referências

Categoria:Mitologia lusitana Categoria:Mitologia celta