Lepo é uma divindade indígena pertencente ao panteão galaico-lusitano e hispano-celta pré-romano. Cultuado localmente na transição entre o território dos Lusitanos e das franjas orientais da Gallaecia, o teónimo está associado à esfera de proteção comunitária, à saúde e ao cumprimento de promessas rurais por parte das populações castrejas do interior peninsularVASCONCELOS, José Leite de (1905). Religiões da Lusitânia. Volume II. Lisboa: Imprensa Nacional. p. 318-320..

Evidência Epigráfica e Achado Arqueológico A comprovação histórica e material da existência do culto a Lepo assenta numa ara romana de granito recuperada na região centro-interior de Portugal. O monumento foi descoberto no contexto de investigações arqueológicas na área da Beira Alta, uma zona historicamente caracterizada por uma elevada densidade de inscrições a divindades indígenas menores"O Sítio Romano da Póvoa do Mileu (Guarda)". In: Estudo Geral / Universidade de Coimbra (2022). Vol. I, p. 118-119..

A inscrição votiva gravada no penedo sob os caracteres latinos do século II d.C. documenta formalmente o teónimo indígena e o nome do fiel nativo responsável por mandar erguê-la, revelando a filiação familiar típica destas comunidades rurais:CURADO, Fernando Manuel de Almeida (1984). A Epigrafia Romana do Concelho da Guarda. Guarda: Associação de Jogos Populares. p. 45. LEPO BASSVS VIRIATI F(ILIVS) V(OTVM) S(OLVIT) L(IBENS) M(ERITO) Tradução Reconstituída: "A Lepo, Basso, filho de Viriato, cumpriu o seu voto de bom grado e com mérito".

Análise Linguística e Atribuições

O Nome do Devoto e Contexto Social O monumento votivo a Lepo reveste-se de grande relevância historiográfica devido à onomástica do seu dedicante, Bassus, Viriati filius (Basso, filho de Viriato). Embora o nome Viriatus seja amplamente famoso devido ao célebre líder lusitano que combateu a expansão de Roma, no interior da província tratava-se de um antropónimo (nome próprio) masculino bastante disseminado e comum.

A fórmula indica que as populações autóctones rurais mantinham viva a tradição de batizar os seus filhos com nomes ancestrais da herança hispano-celta, ao mesmo tempo que recorriam ao hábito epigráfico romano e ao uso do alfabeto latino para monumentalizar as promessas feitas aos seus deuses locais primitivos.

Natureza do Culto No âmbito do estudo das religiões paleohispânicas, Lepo classifica-se na categoria de divindades de âmbito local ou gentílico. O facto de o ex-voto ter sido talhado em granito — um material duro e de moldagem complexa para os lapicidas locais — realça a importância do ato de consagração individual ou familiar.

A divindade operava no plano terrestre e rústico, atuando como um génio protetor das pastagens, do gado ou das famílias que habitavam os Castros envolventes, sendo invocada para garantir o vigor físico, a salubridade pública e a proteção do clã face a doenças ou instabilidades climáticas locais.

Ver também Mitologia lusitana Viriato

Referências

Categoria:Mitologia lusitana Categoria:Mitologia celta