O Asilo dos Alienados foi um espaço manicomial inaugurado na cidade de Cuiabá, Mato Grosso, em 1931 e posteriormente renomeado como Hospital Adauto Botelho em 1967. Ele marcou a institucionalização da assistência psiquiátrica no estado, refletindo práticas de isolamento, medicalização e, mais tarde, especialização em saúde mental.

História

Primeiras iniciativas Durante o inicio do século XX, a presença de pessoas consideradas loucas perambulando por espaços públicos representava um incômodo aos moradores de Cuiabá, medidas em conjunto com engenheiros e médicos sanitaristas foram adotadas para remove-las, aliando o projeto modernizador às políticas de exclusão e disciplinamento social.

A partir de 1915, o controle sobre aqueles que tinham problemas psicossociais foi feito com o auxílio da força policial: as pessoas eram recolhidas e levadas ao Pavilhão dos Alienados na Santa Casa de Misericórdia. Esse processo refletia a atmosfera da capital mato-grossense, marcada pela importação de práticas e valores que foram incorporadas em busca de uma normatividade como regra, definindo quem seria compatível para permanecer no espaço urbano. O recolhimento compulsório fez com que um segundo Pavilhão dos Alienados, anexo a Santa Casa de Misericórdia fosse inaugurado em 1928.

Já em 1930, ano anterior à criação do Asilo dos Alienados, Aníbal Toledo que estava à frente da administração do Estado identificou problemas para o avanço de reformas arquitetônicas, especialmente pela composição social da cidade de Cuiabá. Dessa forma, o antigo casarão construído em 1909 às margens do Rio Coxipó pelo então governador de Mato Grosso coronel Pedro Celestino Correa da Costa para abrigar o pelotão especial da polícia militar, foi visado como possível localidade de enclausuramento de alienados, afim de desafogar a Santa Casa de Misericórdia.

Fundação do Asilo dos Alienados O Asilo dos Alienados foi inaugurado em 1931 após uma ampliação da chácara do governo para receber além de pessoas com transtornos mentais, indivíduos desamparados, em situação de rua e crianças abandonadas pela cidade. O espaço foi solicitado por autoridades como o chefe da Polícia de Mato Grosso, Tenente Coronel Octácilio Lima, reforçado pelo Secretário de Segurança Pública, Tenente Coronel Leo Costa ao Interventor Dr. Arthur Antunes Maciel, evidenciando a articulação entre os órgãos de segurança e o poder político-administrativo. Compreende-se a instituição como continuidade do projeto de controle aos corpos, pois a polícia fica encarregada de administrar a instituição, recebendo visita médica apenas uma vez por semana. Essa dinâmica aconteceu até 1941, quando ocorreu a transferência da jurisdição para o Departamento de Saúde.PINHO, Rachel Tegon de. Itinerários da assistência psiquiátrica em Cuiabá-MT na primeira metade do século XX. Tese (Doutorado)- Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, 264f, 2019.

Ainda que houvesse interesses de exclusão, deve-se reconhecer que o caminho percorrido para criação do asilo significou transformações importantíssimas ao campo de assistência psiquiátrica de Mato Grosso. Nos primeiros dez anos, foi uma extensão das políticas de segregação dos anos anteriores, visto que a polícia ainda seria responsável por recolher, acompanhá-los e mantê-los sob o controle, com práticas normativas para disciplinar, mesmo que significasse agir de forma violenta.

As mudanças nas ações de recolhimento para o espaço asilar buscavam separar as pessoas consideradas "loucas" e deixar de sobrecarregar a penitenciária, com a promessa de acolher suas vulnerabilidades e protegê-las. Para isso, seria necessário se submeter às regras impostas “cuja terapêutica se baseava nos princípios do tratamento moral, ou seja, na constatação de que o alienado era um doente e precisava ser tratado com firmeza”.PINHO, Rachel Tegon de. Itinerários da assistência psiquiátrica em Cuiabá-MT na primeira metade do século XX. Tese (Doutorado)- Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, p. 147, 2019.

A estrutura do asilo manicomial correspondia à adaptação de um prédio antigo, com um espaço modesto, sem grandes projetos para o conforto dos internos. Ele era dividido em celas e com péssimo estado de conservação, já que foi aproveitado de uma estrutura já existente. A sua arquitetura e seu propósito eram confundidos com um manicômio judiciário que em Mato Grosso, só foi criado em 2002. Os frequentadores, em suma, eram pobres retirados e isolados de suas famílias, que a partir da entrada no Asilo dos Alienados, aquele passaria a ser o seu único espaço de convivência por sessenta a noventa dias, entretanto, acabavam ficando permanentemente, pois ocorria abandono familiar. Em 3 de outubro de 1941 foi promulgada a lei das Contravenções Penais n°3.688, que diz ser obrigatório formalidades legais para o internamento, seu descumprimento acarretaria em multa de trezentos mil reis a três contos de reis.GUEDES, Simone Cordeiro Costa. Da Arquitetura da Ordem à Cartografia da Loucura: A história de um asilo manicomial em Cuiabá (1931-1979). 254f. Tese (Doutorado)- Programa de Pós-Graduação em História, Universidade de Brasília, Brasília, 2010.

Em 1957 os serviços de assistência médica se estenderam a outros municípios para além da capital mato-grossense. Cidades como Cáceres, Rondonópolis, Alto Araguaia e Paranaíba tiveram o fluxo migratório aumentado e por consequência as internações também. Com a expansão de hospitais psiquiátricos pelo estado, os pacientes puderam ser transferidos para outros espaços, evitando aglomerações.

No final do ano de 1950, o asilo passa a ser chamado de Hospital de Alienados do Coxipó da Ponte, que mais tarde, em 1967, a partir da lei n° 2.755 passa a se chamar de Hospital Adauto Botelho, nome do médico coordenador nacional de saúde mental que em 1950 visitou Cuiabá para vistoriar a construção do então novo hospital psiquiátrico. O asilo enfrentou reformas e a ampliação do espaço se fez necessário, compreendendo ser este o único local no Estado de Mato Grosso reconhecido para tratamento psicossocial nas décadas seguintes.

Referências

Categoria:Asilo dos Alienados do Coxipó da Ponte