Anna Kattrin Kemper (14 de dezembro de 1905 – 27 de junho de 1978), conhecida no Brasil como Dona Catarina Kemper, foi uma psicanalista alemã naturalizada brasileira, pioneira da psicanálise no Brasil. Fundou o Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro (CPRJ) em 1969 e cofundou a primeira clínica social de psicanálise do país em 1973.VICTER, Ronaldo. As Pioneiras da Psicanálise no Brasil. Jornada da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, 27 de março de 2021.NEVES, Maria da Graça Pereira das; DUÉK, Suely; FERREIRA, João Batista Lembi; ARBEC, Bernardo. Uma bela jornada: 56 anos do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro. Cadernos de Psicanálise (CPRJ), Rio de Janeiro, v. 47, n. 53, p. 13-33, jan./jun. 2025.
Biografia Primeiros anos e formação Anna Kattrin Kemper nasceu em Bochum, na região do Ruhr, Alemanha, em 14 de dezembro de 1905, filha de um mineiro de carvão, sendo a caçula de quatro irmãos.LANNES, Edson. Anna Kattrin Kemper - D. Catarina 14.12.1905 - 27.06.1978. In: 120 anos do nascimento de Dona Catarina, Anna Kattrin Kemper. Cadernos de Psicanálise (CPRJ), Rio de Janeiro, v. 47, n. 53, jan./jun. 2025. Demonstrou desde cedo sensibilidade e criatividade para música e escultura. Aos 14 anos, perdeu o pai em um desabamento de galeria de mineração.
Em 1926, com pouco mais de vinte anos, mudou-se sozinha para Berlim, deixando a família em Bochum. Conheceu o médico Werner Walter Kemper, com quem se casou aos 27 anos e teve três filhos: Jochen Christian, Christian Mathias e Mathias Andreas.
Iniciou sua formação como "grafóloga científica" em 1936, vinculando-se à Associação dos Grafólogos Científicos de Berlim. A partir de 1941, trabalhou como grafóloga na Policlínica do Instituto de Pesquisa Psicológica e de Psicoterapia de Berlim, onde avaliou pacientes para tratamento psicoterápico e candidatos à formação de psicoterapeutas. Consta em seu "questionário de desnazificação" de 1946 que era "estudante de Filosofia".
Realizou análise pessoal com a psicanalista Margarete Seiff em 1943. No Instituto Central de Doenças Psicogênicas de Berlim, sob orientação de Harald Schultz-Henke, completou o quinto semestre da formação em psicanálise e realizou suas primeiras supervisões. Schultz-Henke declarou que ela possuía "qualificação para realizar análise".
Chegada ao Brasil Em dezembro de 1948, aos 43 anos, chegou ao Rio de Janeiro com o marido, Werner Kemper (que tinha a incumbência da IPA de fundar uma sociedade psicanalítica no Brasil), e seus três filhos.
A partir de setembro de 1951, passou a trabalhar no Centro de Educação de Crianças e Jovens, cuja diretora era Noemy Rudolfer, que fazia análise com Kemper. Sua função era de "pesquisa de estrutura da personalidade, anamnese geral e específica, estudos dos desvios de personalidade".
Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro Em 29 de setembro de 1955, foi uma das fundadoras da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (SPRJ), reconhecida pela IPA, na categoria de Membro Fundador Efetivo. Na SPRJ, organizou seminários, atendeu grupos de trabalho com mães e pais de crianças com dificuldades educacionais, e realizou experiências inovadoras com psicoterapia de grupo com vários casais simultaneamente. Segundo levantamento de Nádia Sério, realizou doze análises didáticas e dezoito supervisões.
Em 1968, tornou-se demissionária da SPRJ e foi excluída em 1971. A exclusão ocorreu porque não comprovou sua qualificação profissional como psicóloga ou psicanalista (apenas como grafóloga). Embora tivesse um registro de "psicóloga profissional" de Berlim de 1945 e matrícula na Universidade de Berlim de 1946, o comprovante era de segundo grau, o que gerou dúvidas no grupo carioca sobre sua autenticidade.
Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro Em 1969, fundou o Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro (CPRJ), juntamente com alguns alunos, em entendimento com Igor Caruso e Malomar Lund Edelweiss, presidente do Círculo de Psicologia Profunda de Belo Horizonte. A instituição foi concebida como um espaço plural, aberto a não médicos e socialmente engajado.
Em 1970, saiu oficialmente da SPRJ. O CPRJ homenageia sua memória dando seu nome à Biblioteca Anna Kattrin Kemper.
Clínica Social de Psicanálise Em 1973, juntamente com Hélio Pellegrino, fundou a Clínica Social de Psicanálise, a primeira clínica social de psicanálise do Brasil, onde cada paciente pagava conforme suas possibilidades financeiras. A iniciativa concretizou o sonho de estender os benefícios da psicanálise às pessoas de baixa renda. A clínica funcionou por um período relativamente curto, mas contribuiu para consolidar a ideia de um tratamento psicanalítico acessível.
Contribuições à psicanálise Anna Kattrin Kemper foi pioneira em diversas áreas da prática psicanalítica:FERREIRA, João Batista Lembi. Anna Kattrin Kemper – A Grande Alma. In: 120 anos do nascimento de Dona Catarina, Anna Kattrin Kemper. Cadernos de Psicanálise (CPRJ), Rio de Janeiro, v. 47, n. 53, jan./jun. 2025.
Grupoterapia psicanalítica: realizou experiências pioneiras com psicoterapia de grupo, incluindo grupos com vários casais simultaneamente. Atendimento infantil: destacou-se no tratamento de crianças psicóticas e na orientação de pais. Clínica social: criou a primeira clínica social de psicanálise do Brasil, antecipando em décadas o debate sobre a análise conduzida por não médicos, desde que possuíssem formação acadêmica e rigorosa formação teórica.
Defendia uma postura clínica que evitava "uma atmosfera fria e mecânica", valorizando a contratransferência positiva e o contato direto e verdadeiro, especialmente em casos de psicose, autismo ou borderline, nos quais "o ego desses pacientes estaria fraco".
Publicações selecionadas Kemper publicou diversos artigos em revistas nacionais e internacionais:
"Mecanismos e avaliação da cura em psicoterapia de grupo" – Revista Estudos de Psicanálise, 01, 1969. "A interpretação por alusão – sua relação com as vivências e comunicações pré-verbais" – Revista Estudos de Psicanálise, nº 03, 1970; também publicado na Revue Française de Psychanalyse, tome XXIX, 1965. "Diferentes formas do silêncio na psicoterapia de grupo" – Revista Estudos de Psicanálise, nº 04, 1970. "Quanto à Idealização – sua determinação primária" – Revista Estudos de Psicanálise, nº 05, 1971. "Reações contra-transferenciais de influência decisiva para a comunicação verbal num caso de mutismo de uma criança de 3 a 4 anos". "Quanto à importância do desenvolvimento motor da criança pequena – consideração específica sobre a época do engatinhar" – II Congresso do Círculo Brasileiro de Psicanálise, Rio de Janeiro, novembro de 1973; publicado na Revista Estudos de Psicanálise, 07, 1975. "Quanto a Agressão – seus aspectos Onto e Filogenéticos, suas manifestações no Processo Psicanalítico" – Revista Estudos de Psicanálise, 07, 1975.
Deixou dois livros inacabados: Fatores estruturantes da 1ª infância e Grupoterapia psicanalítica.
Vida pessoal Kemper era descrita como uma mulher de postura altiva e dominante, que até o fim da vida falava português com forte sotaque alemão. Revelava amor pela natureza, especialmente orquídeas, e pelos gatos. Sua cadela de estimação, Nega, frequentemente participava de seus atendimentos em grupo.
Era conhecida por sua "versatilidade espiritual literária e interesses artísticos" e por sua "sensibilidade efusiva e afetiva, com grande participação no meio social". Caracterizava-se por uma abordagem não convencional, recusando-se a agir terapeuticamente conforme regras rígidas e valorizando a maneira individual e espontânea de agir e reagir.
Morte e legado Anna Kattrin Kemper faleceu no Rio de Janeiro em 27 de junho de 1978, aos 72 anos. Foi homenageada com os títulos de "Grande Dama da Psicanálise", "Grande Alma" e "Catarina, a Grande".
Em 1976, recebeu o título de Carioca Honorária, concedido pelo jornal O Globo.
Atualmente, uma rua no bairro da Taquara, no Rio de Janeiro, leva seu nome. A Biblioteca do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro também ostenta seu nome.
Referências
Ligações externas
Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro
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