Ceife ibne Omar, nascido Abu Abedalá Ceife ibne Omar Aluçaídi Atamimi (; m. ), foi um historiador, tradicionista e cronista muçulmano de Cufa, provavelmente pertencente ao clã Uçaíde, do ramo anrita da tribo dos tamimitas. É conhecido principalmente como autor do Kitab al-Futuh al-Kabir wa al-Ridda, obra hoje perdida que serviu de principal fonte para Atabari na narrativa das Guerras da Apostasia, das primeiras conquistas muçulmanas e dos primeiros anos do Califado Ortodoxo. Embora sua produção sobreviva quase exclusivamente por intermédio de Atabari, exerceu profunda influência sobre a tradição historiográfica islâmica relativa ao .

A confiabilidade de suas narrativas é objeto de intenso debate historiográfico. Desde a Idade Média, especialistas em hádice questionaram sua credibilidade como transmissor, julgamento posteriormente adotado por grande parte da historiografia ocidental, sobretudo a partir das críticas de Julius Wellhausen. Desde a década de 1970, entretanto, diversos estudiosos passaram a reavaliar essa tradição crítica, argumentando que parte das objeções dirigidas a Ceife resultava da aplicação de critérios próprios da crítica do hádice à literatura historiográfica e da rejeição a priori de seus relatos.

Embora persistam profundas divergências quanto ao valor histórico de sua obra, há consenso de que ela constitui uma fonte indispensável tanto para o estudo das primeiras conquistas islâmicas quanto para a compreensão da formação da historiografia sunita e das disputas político-religiosas do início do período abássida. Enquanto alguns autores sustentam que Ceife preservou tradições antigas posteriormente negligenciadas por outras fontes, outros o consideram responsável por amplas reelaborações ideológicas destinadas a defender os primeiros companheiros de Maomé e a apresentar uma interpretação conciliadora da história do Califado Ortodoxo.

Vida

Pouco se sabe sobre a vida de Ceife ibne Omar. Sabe-se apenas que viveu em Cufa e provavelmente pertencia ao clã Uçaíde, integrante do ramo anrita da tribo dos tamimitas. Algumas fontes, contudo, atribuíram-no a outros grupos tribais, provavelmente por equívoco. A associação aos açaditas, por exemplo, parece resultar da leitura incorreta de sua nisba Aluçaídi como Alaçadi. Outras tradições o vinculam ainda às tribos Daba e Dubaia ou aos Barajim, uma confederação formada por cinco clãs tamimitas, entre os quais, entretanto, não figurava o clã Uçaíde. Segundo Aldaabi, Ceife teria morrido durante o reinado do califa Harune Arraxide , embora essa data provavelmente represente apenas uma inferência baseada na posição ocupada por seu nome nas cadeias de transmissão preservadas nas fontes medievais. A cronologia de seus transmissores sugere ainda que já fosse idoso quando morreu, pois afirmava transmitir tradições de estudiosos falecidos entre as décadas de 740 e 760, além de possivelmente ter sido citado por , morto antes dele. A tradição também registra que teria morrido em Baguedade no ano 180 (796), embora exista igualmente um relato que situa sua morte em 200 (815–816).

Obra

A importância de Ceife decorre sobretudo de sua obra Kitab al-Futuh al-Kabir wa al-Ridda, utilizada por Atabari como principal fonte para sua narrativa sobre as Guerras da Apostasia e as primeiras conquistas muçulmanas. Seus relatos constituem também uma das principais fontes para o estudo da organização dos primeiros exércitos muçulmanos, da administração do nascente Estado islâmico e do estabelecimento das cidades-guarnição. Comparações entre os trechos preservados por Atabari e aqueles transmitidos por indicam que a obra original provavelmente consistia numa narrativa contínua e extensa, pontuada apenas ocasionalmente por cadeias de transmissão, diferindo da forma fragmentária sob a qual foi preservada nas obras posteriores. Essa comparação revela ainda que a versão original continha numerosos poemas posteriormente omitidos pelos compiladores. Durante muito tempo considerou-se que Ceife teria elaborado livremente grande parte de suas narrativas. Estudos mais recentes, entretanto, indicam que sua obra se baseava num amplo conjunto de tradições provenientes de diferentes informantes. As aparentes contradições entre seus relatos refletem, em muitos casos, a preservação de versões distintas recebidas de diversas fontes, em vez de tentativas de harmonização pelo próprio autor. A análise de suas cadeias de transmissão sugere ainda que algumas de suas narrativas derivam de compilações escritas independentes, enquanto determinadas particularidades sintáticas e lexicais podem preservar características de antigos dialetos tribais.

Ceife utilizou tradições provenientes tanto da escola historiográfica iraquiana quanto da escola de Medina. Além de recorrer a transmissores como Talha ibne Alame e Maomé ibne Abedalá, empregou relatos atribuídos a estudiosos como Hixame ibne Urua, Muça ibne Uqueba e Ibne Isaque, chegando ocasionalmente a comparar versões pertencentes às duas tradições e a comentar suas divergências. Suas obras foram amplamente utilizadas por historiadores posteriores, entre eles Atabari, Albaladuri, Ibne Açaquir, Ibne Alatir, Ibne Catir e Ibne Hajar, sendo a narrativa de Atabari sobre o Califado Ortodoxo construída em grande medida a partir de seus relatos. Segundo Khalid Yahya Blankinship, as narrativas de Ceife apresentam forte caráter literário e ideológico. Embora preservem tradições autênticas, elas ampliam consideravelmente o material recebido por meio de episódios heroicos, discursos, genealogias e listas de combatentes, sobretudo nas campanhas do Iraque. O autor observa que Ceife privilegiou quase exclusivamente informantes de Cufa, conferindo grande destaque às tradições tribais iraquianas, especialmente às dos tamimitas e rebiaítas, ao mesmo tempo em que ampliou o papel de personagens como Calide ibne Alualide nas conquistas da Síria. Para Blankinship, a maior riqueza de detalhes em relação a outras fontes não constitui necessariamente sinal de maior fidelidade histórica, podendo refletir reelaborações posteriores da tradição oral e da memória tribal.

Obras

As fontes medievais atribuem a Ceife duas obras principais: Kitab ar-Ridda wal-Futuh, dedicada às Guerras da Apostasia e às primeiras conquistas islâmicas, e Kitab al-Jamal wa Masir Aixa wa Ali, sobre a Primeira Fitna até o desfecho da Batalha do Camelo. Ambas permaneceram em circulação durante séculos, mas acabaram consideradas perdidas. Em 1995, contudo, fragmentos manuscritos dos dois livros foram identificados entre códices doados à biblioteca da Universidade Imame Maomé, em Riade. Editados por Qasim al-Samarrai, esses manuscritos preservam numerosos relatos ausentes da versão de Atabari, demonstrando que este não reproduziu integralmente o conteúdo original das obras de Ceife.

Recepção

A confiabilidade das narrativas de Ceife foi contestada desde a Idade Média. Especialistas em hádice criticaram a fragilidade de suas transmissões, chegando alguns a acusá-lo de zandaqa ou de atribuir relatos fabricados a transmissores considerados confiáveis. Essa avaliação negativa foi amplamente reproduzida pela historiografia ocidental a partir do final do , sobretudo em razão da influência exercida por Julius Wellhausen. Seguindo sua interpretação, estudiosos como De Goeje, Leone Caetani, Erling Ladewig Petersen, Shelomo Dov Goitein, Joseph Schacht e Elias Shoufani passaram a considerar Ceife um cronista profundamente tendencioso, atribuindo-lhe a invenção de acontecimentos, personagens, topônimos e tradições destinadas principalmente a exaltar os tamimitas e a suavizar os conflitos políticos da primeira comunidade islâmica. A partir da década de 1970, contudo, essa interpretação começou a ser reavaliada. Trabalhos de Albrecht Noth, Martin Hinds e, sobretudo, de Ella Landau-Tasseron demonstraram que muitas das críticas dirigidas a Ceife decorriam da aplicação inadequada dos critérios desenvolvidos pelos especialistas em hádice à literatura historiográfica. Enquanto os tradicionalistas julgavam sua confiabilidade como transmissor de tradições proféticas, diversos historiadores medievais o trataram como uma autoridade respeitável em história. Alguns especialistas em jarh wa-ta'dil, embora o considerassem fraco na transmissão de hádices, afirmaram explicitamente que era um imame e autoridade em matéria de história. Autores como Ibne Caldune, Ibne Anadim e Iacute Alhamaui registraram sua obra sem lhe atribuir notoriedade especial, sugerindo que sua reputação negativa foi construída principalmente no âmbito da crítica do hádice, e não da historiografia propriamente dita.

Landau-Tasseron também reexaminou diversos exemplos clássicos utilizados para acusar Ceife de fabricar acontecimentos. Segundo a autora, em vários casos Wellhausen e Caetani compararam relatos referentes a episódios distintos como se fossem versões concorrentes do mesmo evento, confundiram personagens homônimos, desconsideraram a organização segmentária das tribos árabes ou interpretaram variantes de transmissão como provas de falsificação. A autora demonstrou ainda que alguns indivíduos e localidades anteriormente considerados invenções de Ceife aparecem em fontes independentes, enquanto muitos outros podem simplesmente ter desaparecido da tradição documental preservada. Para ela, a singularidade de uma narrativa não constitui, por si só, evidência de falsificação, devendo os relatos de Ceife ser avaliados individualmente segundo critérios historiográficos, e não rejeitados a priori por sua reputação entre os tradicionalistas.

Blankinship, por sua vez, sustenta uma posição mais crítica. Embora reconheça que Ceife preservou parte da tradição histórica anterior e que muitos de seus topônimos e personagens correspondem a elementos reais, o autor considera que grande parcela de sua obra consiste em reelaborações ideológicas produzidas durante o início do período abássida. Em sua interpretação, Ceife procurou defender a legitimidade dos primeiros companheiros de Maomé, responder às críticas dos partidários de Ali e justificar tanto os coraixitas quanto os adversários políticos dos álidas, sem deixar de absolver o próprio Ali. Para isso, teria ampliado o papel de diversos personagens, criado outros inteiramente fictícios — incluindo alguns supostos companheiros e numerosos transmissores desconhecidos — e reorganizado tradições anteriores de modo a sustentar uma visão conciliadora da história do Califado Ortodoxo. Blankinship conclui que os relatos de Ceife conservam valor sobretudo para o estudo da formação da memória sunita e das disputas ideológicas do início do período abássida, devendo ser utilizados como fonte para os acontecimentos do apenas quando corroborados por testemunhos independentes.

Apesar dessas divergências de interpretação, permanece consenso de que suas narrativas devem ser utilizadas com cautela, sobretudo quando constituem o único testemunho disponível para determinado acontecimento. Ainda assim, diversos estudiosos reconhecem que sua obra permanece uma das principais fontes para compreender tanto a tradição historiográfica sobre as primeiras conquistas islâmicas quanto a evolução da memória histórica e das disputas político-religiosas nos primeiros séculos do islão.

Bibliografia

Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Pessoas do Califado Abássida Categoria:Tamimitas Categoria:Guerras da Apostasia