Um Drama na Roça é uma coletânea de 26 contos da escritora brasileira Carmen Dolores, pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Mello. Publicada no Rio de Janeiro pela Laemmert & C. em 1907, a obra contém um prefácio de Coelho Neto e reúne narrativas ambientadas em espaços urbanos e rurais, com destaque para relações familiares, diferenças sociais e personagens femininas na sociedade brasileira do início do século XX.

Publicação e composição

A primeira edição possui 206 páginas. Embora sua capa apresente o ano de 1908, a folha de rosto registra 1907, data também adotada pelas fontes bibliográficas consultadas para a edição publicada pelo Senado Federal em 2021.

O título do volume foi retirado do primeiro conto da coletânea. Parte dos textos já havia circulado anteriormente: “Sua majestade o dinheiro” e “Abdicação” foram publicados em 1898 no jornal O Paiz, sob o pseudônimo masculino Júlio de Castro, enquanto “Calvário” e “Duelo” haviam integrado o livro Gradações: páginas soltas, de 1897.

Além do conto que dá título ao livro, o volume contém “As três dores”, “Nos bastidores”, “Calvário”, “Histórias de cada dia”, “Vicissitudes de um artista”, “Sua majestade o dinheiro”, “Em vinte e quatro horas”, “O guarda-roupa”, “Abdicação”, “Só a natureza”, “Se a paixão existe?”, “Coisas modernas”, “O derivativo”, “O ‘Carnet’ de um avô”, “O caso do Louzada”, “A mentira”, “Sob as cinzas”, “Nihil Sumus”, “Razão e instinto”, “Crepúsculo”, “Último clarão”, “Duelo”, “Mãe”, “Hotel para famílias” e “Nem tudo que luz é ouro”.

Temas

Risolete Maria Hellmann analisa os contos como um conjunto de perfis femininos da Belle Époque brasileira. As personagens incluem mulheres urbanas e rurais, jovens e maduras, solteiras, casadas e viúvas, pertencentes a diferentes grupos sociais. Segundo a pesquisadora, a caracterização física e psicológica dessas personagens aproxima as narrativas de procedimentos associados ao realismo e ao naturalismo.

A coletânea também apresenta diferenças raciais e sociais, relações extraconjugais, dependência econômica e conflitos relacionados ao casamento por conveniência. Em algumas narrativas, a descrição dos ambientes e das forças da natureza acompanha o estado emocional das personagens.

Recepção

A recepção jornalística do livro ocorreu principalmente nos primeiros meses de 1908. Em 15 de janeiro, uma nota publicada na coluna “Figuras & Figurinos”, do Correio da Manhã, criticou o papel, a capa e a apresentação gráfica escolhidos pela editora, embora avaliasse favoravelmente o conteúdo. No mesmo dia, a Gazeta de Notícias noticiou a procura pelo livro e destacou que o volume reunia 26 contos.

Dois dias depois, João Itiberê da Cunha, que assinava com as iniciais JIC, publicou no Correio da Manhã o artigo “Carmen Dolores”. O crítico distinguiu o conteúdo da obra de sua apresentação material: censurou o tipo pequeno, a composição apertada e a falta de margens da edição da Laemmert, que qualificou como um “livreco horripilante”, mas se referiu aos textos reunidos como “admiráveis contos e crônicas” e ao original entregue pela autora como um manuscrito precioso. O artigo também recordou a surpresa provocada nos círculos literários pela revelação de que Carmen Dolores era uma mulher.

Em 4 de abril de 1908, Luiz da Câmara Reys publicou em O Paiz o artigo “Escriptoras”, no qual avaliou favoravelmente Um Drama na Roça. Reys contrapôs a escrita de Carmen Dolores ao sentimentalismo que associava às escritoras e caracterizou seu estilo como “bizarro e forte, viril e irônico”.

Outros comentários publicados na imprensa também contrapuseram a avaliação positiva dos textos à insatisfação com a qualidade material da primeira edição. Hellmann observa que, em parte dessa recepção, a discussão sobre a apresentação gráfica ocupou mais espaço do que a análise literária dos contos.

Edição da Coleção Escritoras do Brasil

Em 2021, a Biblioteca do Senado Federal publicou uma nova edição de Um Drama na Roça como o volume 7 da Coleção Escritoras do Brasil.

A edição conserva os 26 contos e o prefácio de Coelho Neto, acrescentando uma apresentação e bibliografias elaboradas por Risolete Maria Hellmann. As notas ficaram a cargo de Maria Helena de Almeida Freitas, Mariana Sanmartin de Mello e Mônica Almeida Rizzo Soares. A ortografia de nomes próprios em português e parte da pontuação foram atualizadas, e expressões estrangeiras ou pouco usuais receberam traduções e notas explicativas.

Categoria:Livros de 1907 Categoria:Livros do Brasil em domínio público