A peste de Emaús (), também grafada Peste de Emaús-Nicópolis, foi uma epidemia de peste bubônica que assolou a Síria sob domínio islâmico entre 638 e 639, durante a primeira pandemia de peste e nos estágios finais da Conquista muçulmana do Levante. Provavelmente constituiu um recrudescimento da Peste de Justiniano, ocorrida em meados do . Recebeu esse nome em referência a Emaús-Nicópolis, conhecida pelos árabes como Emaús (), principal acampamento do exército árabe-muçulmano na Palestina, onde a epidemia teve início. A doença vitimou até 25 mil soldados e seus familiares, incluindo a maior parte do alto comando militar, além de provocar elevadas perdas humanas e deslocamentos entre a população cristã nativa da Síria. A nomeação de Moáuia ibne Abi Sufiane para o governo da Síria após a morte desses comandantes abriu caminho para a fundação do Califado Omíada em 661, ao passo que sucessivas recorrências da enfermidade podem ter contribuído para a queda da dinastia em 750. O despovoamento do interior sírio também pode ter favorecido o reassentamento rural dos árabes, diferentemente do que ocorreu em outras regiões conquistadas, onde estes permaneceram concentrados em novas cidades de guarnição (). A Peste de Emaús recebeu mais atenção das fontes árabes do que qualquer outra epidemia até a Peste Negra do . Os relatos tradicionais acerca das reações do califa Omar e de seu principal comandante, Abu Ubaida ibne Aljarrá, exerceram profunda influência sobre as respostas teológicas islâmicas às epidemias durante a Idade Média, inclusive à própria Peste Negra. Os princípios extraídos dessas narrativas foram frequentemente invocados nos debates sobre predestinação e livre-arbítrio, bem como nas discussões acerca da proibição de fugir de regiões atingidas pela peste, de ingressar nelas e da natureza do contágio.

Origens e contexto político

A Peste de Emaús foi, muito provavelmente, uma epidemia de peste bubônica, embora as fontes não descrevam em detalhe os sintomas específicos da doença. Constituiu a segunda epidemia de peste registrada durante a era islâmica, iniciada na década de 620, e a primeira a atingir diretamente a comunidade muçulmana. É geralmente considerada um recrudescimento da Peste de Justiniano, que teve origem em Pelúsio, próximo à atual Suez, em 541, difundindo-se para oeste até Alexandria e para leste até a Palestina, antes de alcançar Constantinopla entre 541 e 542 e, posteriormente, grande parte da Europa e do Império Sassânida, conforme registrado pelo historiador bizantino Procópio de Cesareia (m. c. 570). A Peste de Justiniano voltou a ocorrer em pelo menos nove a doze surtos ao longo da segunda metade do e durante o VII. O primeiro califa, Abu Becre , enviou de Medina quatro exércitos para conquistar a Síria bizantina, sob o comando de Anre ibne Alas, Iázide ibne Abi Sufiane, Xurabil ibne Haçana e Abu Ubaida ibne Aljarrá. É possível, contudo, que Abu Ubaida só tenha sido destacado após a ascensão do sucessor de Abu Becre, Omar, em meados de 634. Emaús, nome árabe de Emaús-Nicópolis, havia sido originalmente um acampamento militar romano fortificado no e transformou-se em uma pequena cidade no início do . Foi conquistada pelos muçulmanos dos bizantinos após a Batalha de Ajenadaim (634) ou, segundo outras tradições, depois da Batalha do Jarmuque (636). Quando a epidemia começou, a cidade servia como principal acampamento das tropas árabe-muçulmanas na Síria, onde eram distribuídos os despojos de guerra e efetuado o pagamento dos soldados.

Cronologia

A Peste de Emaús ocorreu nos anos 17 e/ou 18 da Hégira, correspondentes a 638–639. Segundo o historiador do Ceife ibne Omar, a epidemia teve início entre os meses de Moarrão e Safar do ano 17 A.H. (janeiro–fevereiro de 638), desapareceu temporariamente e voltou a manifestar-se pouco depois, causando numerosas mortes "em benefício do inimigo [os bizantinos]". Já Açuiuti (m. 1505) sustentava que a doença recrudesceu pouco tempo após o primeiro surto, circunstância que, segundo o historiador Michael W. Dols, explica a existência das duas datas tradicionalmente atribuídas à epidemia (638 e 639). O surto coincidiu com um período de seca de aproximadamente nove meses na Síria, conhecido pelos árabes como o Ano das Cinzas. De acordo com Dols, a fome generalizada que atingiu a Síria-Palestina pode ter favorecido a disseminação da peste ao enfraquecer a resistência imunológica da população e estimular o armazenamento de alimentos em cidades e aldeias, atraindo roedores infectados e aumentando seu contato com os seres humanos. A epidemia espalhou-se por toda a Síria e também atingiu o Iraque e o Egito, desaparecendo apenas em Xaual do ano 18 AH (outubro de 639).

Consequências

Resposta e impacto imediato

Segundo uma das principais narrativas preservadas pelas fontes tradicionais islâmicas, Omar, procurando evitar que seu principal comandante, Abu Ubaida ibne Aljarrá, adoecesse e morresse, convocou-o para regressar a Medina. Ciente da intenção do califa, Abu Ubaida recusou-se a abandonar seus homens. Omar partiu então para a Síria a fim de avaliar a situação, encontrando-se com os comandantes do exército em um ponto de parada no deserto chamado , situado a treze dias de marcha ao norte de Medina. Inicialmente, consultou os chefes dos muajiritas e dos ançares, isto é, os primeiros convertidos ao islão e a elite do nascente Estado muçulmano, os quais defenderam que não se abandonassem as regiões atingidas pela peste. Discordando dessa posição, Omar reuniu-se em seguida com os chefes dos convertidos mais recentes entre os coraixitas, tribo à qual pertenciam Maomé e os califas. Estes recomendaram a retirada do exército da área afetada pela epidemia, proposta que foi aceita pelo califa. Abu Ubaida opôs-se à retirada, invocando uma suposta proibição de Maomé segundo a qual os muçulmanos não deveriam fugir nem ingressar em terras assoladas pela peste. Omar respondeu que qualquer pessoa escolheria naturalmente o lado verde de um vale em vez do lado árido, mas que, qualquer que fosse a decisão tomada, ela ocorreria segundo a vontade de Deus. Essa narrativa passou a ser utilizada pelos estudiosos muçulmanos medievais como precedente para justificar a fuga de regiões atingidas por epidemias. A reunião em Sargue terminou com Omar ordenando que Abu Ubaida conduzisse o exército para uma região mais salubre, enquanto o próprio califa regressava a Medina.

Abu Ubaida transferiu o acampamento para Gabita, antiga capital dos gassânidas, situada na região montanhosa do Haurã. Graças ao clima mais saudável, Gabita passou a funcionar, na prática, como um sanatório para as tropas acometidas pela peste e como centro de distribuição dos despojos de guerra. Durante o deslocamento, em 639, Abu Ubaida sucumbiu à epidemia. Seu sucessor, Muade ibne Jabal, morreu pouco depois, juntamente com suas duas esposas e seu filho — ou, segundo outra tradição, com toda a sua família. Em seguida faleceram Iázide ibne Abi Sufiane, Xurabil ibne Haçana e diversos outros muçulmanos proeminentes e companheiros de Maomé, entre eles Suail ibne Anre, Abu Jandal ibne Suail, Alfadle ibne Alabás e Alharite ibne Hixame, bem como muitos dos cerca de setenta membros da família deste último estabelecidos na Síria. A Anre ibne Alas é atribuída a condução das tropas sobreviventes até Gabita. Em dezembro de 639, ele iniciou a conquista muçulmana do Egito.

As fontes tradicionais islâmicas afirmam que entre 20 e 25 mil soldados muçulmanos estacionados na Síria, bem como seus familiares, morreram durante a epidemia. Em 639, dos cerca de 24 mil soldados presentes em 637, apenas quatro mil permaneciam em Gabita. O historiador Fred Donner observa, contudo, que não é possível determinar quantos dos ausentes haviam efetivamente morrido e quantos apenas abandonaram temporariamente a Síria, retornando posteriormente. A epidemia também provocou elevadas perdas entre a população cristã local da Síria. Além disso, ocasionou aumento dos preços e retenção de gêneros alimentícios, levando Omar a proibir o açambarcamento. Segundo Atabari (m. 923), após regressar de Sargue a Medina, o califa informou seus conselheiros de que pretendia visitar as tropas na Síria-Palestina para avaliar os efeitos da epidemia. Durante essa visita, supostamente realizada em 639, determinou a forma de distribuição dos bens pertencentes aos muçulmanos mortos pela peste e resolveu reivindicações patrimoniais apresentadas por alguns soldados.

Efeitos políticos e sociais de longo prazo

Em consequência da morte de seus principais comandantes na Síria, Omar nomeou o irmão e lugar-tenente de Iázide, Moáuia ibne Abi Sufiane, comandante do exército da província, lançando assim as bases para a criação, em 661, do Califado Omíada, centrado na Síria. O historiador Wilferd Madelung sustenta que a epidemia impediu Omar de designar comandantes oriundos de Medina que lhe seriam mais favoráveis, levando-o a escolher Moáuia por falta de alternativa mais adequada. As perdas sofridas pelo exército muçulmano na Síria também contribuíram para que Moáuia passasse a depender fortemente das antigas tribos árabes cristãs da região, anteriormente aliadas dos bizantinos, sobretudo os calbitas, que haviam permanecido em grande parte neutros durante os combates entre muçulmanos e bizantinos. Emaús foi substituída como quartel-general árabe na Palestina, inicialmente por Lida e/ou Jerusalém, sendo posteriormente sucedida por Ramla, fundada pelo califa omíada Solimão ibne Abedal Maleque no início do . Ainda na década de 1870, um poço da aldeia de conservava o nome bir al-ta'un ("poço da peste"). Gabita permaneceu como o principal acampamento militar árabe na Síria até o reinado de Solimão ibne Abedal Maleque.

Recorrências

Entre 688/689 e 744/745, a peste voltou a manifestar-se na Síria-Palestina aproximadamente a cada década. Nas palavras de Michael W. Dols, "a dinastia omíada foi literalmente assolada por essa doença". As mortes dos califas Moáuia II , Maruane I , Abedal Maleque ibne Maruane e Solimão ibne Abedal Maleque , bem como dos governadores omíadas do Iraque Almuguira ibne Xuba e , podem todas ter sido provocadas pelos surtos de peste que atingiram a Síria e o Iraque. Sempre que a epidemia surgia durante os meses de verão, os califas costumavam retirar-se das cidades para seus palácios no deserto. Entre eles, destacou-se o califa Hixame ibne Abedal Maleque , que preferia residir em seu palácio de Resafa a permanecer em Damasco, por considerar esta última uma cidade insalubre. Dols especula que a recorrência frequente da doença pode ter comprometido de forma contínua o crescimento natural da população da Síria-Palestina, centro do califado omíada, enfraquecendo assim o poder da dinastia. Paralelamente, a migração de tribos árabes para a distante província oriental do Coração, poupada pelas epidemias de peste, favoreceu o crescimento desproporcional da metade oriental do califado e a ascensão do movimento abássida, responsável pela deposição dos omíadas em 750. Na avaliação de Lawrence I. Conrad, ao término desses sucessivos ciclos epidêmicos os omíadas haviam perdido o controle efetivo da parte oriental do califado, sendo "tentador considerar as intermináveis epidemias dos últimos anos da dinastia como um fator importante para a vitória da Revolução Abássida".

Interpretações teológicas