Abu Omaia Xurai ibne Alharite ibne Caice () ou Abu Omaia Xurai ibne Xuraibil ibne Caice (; c. –697/9), foi um cádi e tradicionalista muçulmano que exerceu a magistratura em Cufa durante grande parte do período do Califado Ortodoxo e do Califado Omíada. Considerado um dos mais célebres juízes dos primórdios do islão, permaneceu no cargo, com breves interrupções, por mais de meio século, servindo sucessivamente aos califas Omar , Otomão , Ali ibne Abi Talibe , , Abedal Maleque ibne Maruane e aos governadores omíadas do Iraque. A tradição jurídica islâmica preservou numerosas decisões suas, especialmente no âmbito da escola iraquiana, sendo posteriormente reconhecido como uma das principais autoridades da primeira geração dos tabis. Segundo a tradição mais difundida, nasceu no Iêmem por volta do ano 600. As fontes divergem quanto à sua origem étnica: algumas o vinculam aos quindaítas, enquanto outras afirmam que descendia de uma família persa estabelecida no Iêmem e ligada aos quindaítas como clientes (maulas). Também é controverso se chegou a conhecer Maomé. Embora certas tradições o tenham considerado companheiro de Maomé, a maioria dos especialistas em hádice o classifica como um mucadrame, isto é, um muçulmano que abraçou o islão durante a vida do profeta, mas não chegou a encontrá-lo pessoalmente.

Vida

Segundo a tradição mais difundida, Xurai nasceu por volta de 600 no Iêmem. As fontes divergem quanto à sua ascendência e até mesmo quanto à identificação de seu pai, registrado na maioria das tradições como Alharite, embora algumas o chamem Xurabil. Autores antigos, como Ibne Sade, apresentam sua genealogia como pertencente aos quindaítas, enquanto outros relatos afirmam que descendia de uma família de origem persa estabelecida no Iêmem. Segundo essa tradição, seu pai teria integrado um contingente militar enviado pelo Império Sassânida para auxiliar um governante local na expulsão dos axumitas algumas décadas antes do nascimento de Maomé. Essa versão levou alguns autores a interpretar sua nisba Alquindi como decorrente de sua condição de cliente (maula) dos quindaítas, e não de sua origem tribal propriamente dita. O próprio Xurai, quando indagado acerca de sua tribo, teria respondido apenas que era muçulmano e que estava inscrito no registro militar dos quindaítas, atitude considerada característica dos convertidos não árabes (maulas). Também há divergências sobre sua condição de companheiro de Maomé. Algumas tradições afirmam que ele abraçou o islão ainda durante a vida do profeta e viajou à Medina para encontrá-lo, chegando apenas após sua morte. Com base nesse relato, alguns autores o classificaram entre os companheiros. Entretanto, importantes estudiosos do hádice, como Iáia ibne Maine, Ibne Hajar e Adaabi, rejeitaram essa classificação, considerando-o um mucadrame, isto é, alguém que se converteu durante a vida de Maomé, mas não chegou a conhecê-lo pessoalmente. Segundo a tradição preservada na literatura biográfica, Xurai emigrou do Iêmen para Medina durante o califado de Abu Becre.

Xurai estudou os ensinamentos do islão ainda no Iêmem com Muade ibne Jabal e, posteriormente, transmitiu hádices de diversos companheiros, entre eles Omar, Ali ibne Abi Talibe, Aixa, Zaíde ibne Tábite, Abedalá ibne Maçude, Abederramão ibne Abi Becre e . Embora tenha vivido em Cufa na mesma época que Abedalá ibne Maçude, as fontes observam que frequentou poucas vezes seus círculos de ensino. Entre seus discípulos figuraram importantes estudiosos da geração seguinte, como , Ibraim Anacai, , Abu Isaque Açabii, Ibne Sirine, Mujaíde ibne Jabre e outros tradicionalistas e juristas de Cufa, que preservaram parte de sua produção jurídica e de seus ensinamentos. Os especialistas em hádice o consideravam um transmissor confiável, sendo particularmente valorizadas as tradições que transmitia de Ali, cuja memória havia sido objeto de numerosas distorções motivadas pelas disputas políticas da época. As fontes divergem quanto ao início da carreira judicial de Xurai. A tradição mais difundida afirma que Omar o nomeou cádi de Cufa em 18 A.H. (639), quando teria cerca de quarenta anos, embora alguns cronistas situem a nomeação em 22 A.H. (643). Outros estudiosos antigos, entre eles Ibne Xiabe Azuri, Maleque ibne Anas e Axafii, negaram que ele tenha exercido a magistratura durante os califados de Abu Becre e Omar, sustentando que sua nomeação ocorreu apenas mais tarde. Segundo um relato amplamente difundido, Omar tomou conhecimento de sua habilidade jurídica quando Xurai foi escolhido para arbitrar uma disputa envolvendo o próprio califa e decidiu em favor da parte contrária. Impressionado com sua imparcialidade, Omar o teria designado juiz de Cufa.

Xurai permaneceu na magistratura durante o governo de Otomão e continuou exercendo suas funções após a ascensão de Ali. Embora Ali lhe tenha determinado que permanecesse no cargo enquanto se ocupava das guerras civis, acabou destituindo-o ao regressar a Cufa. As fontes atribuem essa decisão a um desentendimento decorrente de uma sentença considerada incorreta, enquanto outras a relacionam ao desejo do califa de reorganizar a administração da cidade. Poucos meses depois, porém, diante da insatisfação com os magistrados nomeados em seu lugar, Ali reconduziu Xurai ao cargo, aumentou-lhe o soldo para quinhentos dirrãs mensais e, mais tarde, elogiou-o publicamente como "o melhor juiz entre os árabes", ou, segundo outra versão, "um dos melhores juízes entre os árabes". Durante o califado de , o governador Ziade ibne Abii transferiu Xurai para a magistratura de Baçorá, onde permaneceu por um ou, segundo outra tradição, sete anos. Nesse período, exerceu a magistratura em Cufa, seja como substituto efetivo, seja como seu representante. Em razão de ter servido nas duas principais cidades do Iraque, Xurai passou a ser conhecido como cádi das duas metrópoles (qāḍī al-miṣrayn).

A carreira de Xurai coincidiu com um dos períodos politicamente mais conturbados da história de Cufa. Após a morte de Moáuia I e o início da Segunda Fitna, Abedalá ibne Azobair assumiu o controle do Iraque e manteve Xurai na magistratura. O juiz, contudo, declarou que não poderia exercer suas funções em meio à guerra civil e renunciou ao cargo. Quando Almoquetar Atacafi conquistou Cufa em 66 A.H. (685), inicialmente passou a julgar pessoalmente as causas, mas posteriormente reconduziu Xurai à magistratura. Pouco tempo depois, entretanto, este voltou a afastar-se, alegando enfermidade e receio pela própria segurança diante das acusações de simpatizar com os partidários de Otomão, difundidas por setores da facção xiita. Após a retomada da cidade por Muçabe ibne Azobair, foi novamente reconduzido ao cargo, do qual se afastou outra vez, permanecendo cerca de três anos sem exercer a magistratura. Depois da reconquista do Iraque por Abedal Maleque ibne Maruane, Xurai voltou a ocupar o cargo de cádi de Cufa. Segundo a tradição, o califa concedeu-lhe um prêmio de dez mil dirrãs e propriedades em Faluja, restaurando plenamente sua posição. Permaneceu na magistratura até o governo de Alhajaje ibne Iúçufe. De acordo com Atabari, em 79 A.H. (698–699), já bastante idoso, solicitou dispensa do cargo, recomendando que fosse nomeado seu sucessor, pedido que foi aceito pelo governador. A tradição preservada na literatura biográfica acrescenta que sua renúncia também foi motivada pela idade avançada e pelos rumores de que um de seus filhos teria aceitado subornos, circunstância que considerou incompatível com a permanência na magistratura.

As fontes divergem quanto ao ano de sua morte, situando-a entre 76 e 99 A.H. (695–718), embora as datas mais frequentemente mencionadas sejam 79 ou 80 A.H. (698–700). Também variam os relatos sobre sua idade, estimada entre cem e cento e vinte e sete anos; a cifra de cento e oitenta anos, ocasionalmente transmitida, é geralmente considerada resultado de erro de transmissão. Essas divergências refletem, em parte, o esforço de alguns autores para situar seu nascimento suficientemente cedo a fim de sustentar a tradição de que teria conhecido Maomé. As relações de Xurai com os governantes omíadas são retratadas de forma ambígua pelas fontes. Alguns relatos o apresentam como colaborador leal da administração, destacando sua proximidade com Ziade ibne Abii e sua participação no episódio da prisão de Hani ibne Urua, quando, a pedido de Ubaide Alá ibne Ziade, informou aos partidários do prisioneiro que este permanecia vivo, contribuindo para dispersar a multidão reunida diante do palácio do governador. Outras tradições, porém, afirmam que ele apenas cumpria tais ordens por receio de represálias, atribuindo-lhe críticas privadas a alguns de seus superiores. Os xiitas de Cufa também o acusaram de ter subscrito o documento que denunciou por incitação contra as autoridades, acusação que Xurai rejeitou, sustentando ter testemunhado, ao contrário, a piedade de Hujer.

Atuação jurídica

Xurai é tradicionalmente retratado pelas fontes islâmicas como o modelo do juiz íntegro e imparcial. Costumava realizar as audiências na mesquita, junto ao púlpito, transferindo-as para sua residência apenas em dias de chuva ou durante as festividades religiosas. Exercia a magistratura usando vestes próprias do cargo e tinha por hábito consultar outros estudiosos presentes às sessões, entre eles , Masruque ibne Alajedá e Abu Anre Axaibani. Sua dedicação à função era frequentemente ressaltada pelas fontes, que relatam ter retomado os julgamentos já no dia seguinte ao falecimento de um de seus filhos. Sua reputação de imparcialidade foi ilustrada por diversos episódios preservados na literatura biográfica. O mais célebre envolve Ali, que compareceu perante seu tribunal em uma disputa judicial. Ao apresentar Haçane ibne Ali como testemunha, Xurai recusou seu depoimento por se tratar de filho da parte interessada. Nem mesmo a lembrança, feita por Ali, do hádice que descreve Haçane e Huceine ibne Ali como os senhores da juventude do Paraíso levou o juiz a alterar sua decisão. Segundo a tradição, Ali inicialmente o destituiu, mas voltou a nomeá-lo pouco depois, reconhecendo sua retidão e aumentando sua remuneração. Outro relato afirma que Xurai ordenou a prisão do próprio filho, Abedalá, por haver prestado fiança a um homem que fugira, levando-lhe pessoalmente alimentos enquanto permaneceu detido. Em outra ocasião, recusou o pedido de um governador para libertar um preso, sustentando que nenhuma autoridade poderia interferir em uma decisão judicial regularmente proferida. Embora costumasse fundamentar suas decisões no Alcorão, na suna e nos precedentes dos primeiros muçulmanos, as fontes divergem quanto ao emprego do ijtihad. Alguns autores afirmam que evitava formular opiniões jurídicas independentes, limitando-se às tradições recebidas; outros sustentam que recorria ao raciocínio jurídico sempre que não encontrava solução nas autoridades anteriores. Entre as inovações atribuídas a Xurai figura a introdução da investigação sigilosa sobre a idoneidade das testemunhas, adotada em resposta ao aumento dos falsos testemunhos. Quando criticado por estabelecer um procedimento até então desconhecido, teria respondido: "Quando as pessoas introduziram novidades, eu também introduzi novidades". Também advertia as partes de que uma sentença baseada nas provas apresentadas não tornava lícito aquilo que fosse ilícito perante Deus, exortando as testemunhas a não prestarem depoimentos falsos.