Culaibe ibne Rebia (), também referido pela tradição como Uail ibne Rebia (), foi um chefe árabe dos taglibitas durante a Jailia, tradicionalmente situado no final do . Pertencente aos juxamitas e irmão do poeta Almualhil, alcançou posição de supremacia entre diferentes grupos tribais depois da vitória no , na qual uma coalizão de rebiaítas e modaritas derrotou forças associadas ao domínio iemenita. A tradição atribui-lhe uma autoridade que ultrapassava os próprios taglibitas e alcançava também os xaibanitas, ramo dos becritas, chegando algumas fontes a apresentá-lo como rei ou chefe dos descendentes de Maade. Seu governo, contudo, teria provocado crescente oposição em razão da apropriação de direitos de caça e pastagem e do estabelecimento de áreas reservadas ou himas.
Culaibe era casado com Jalila binte Murra, filha do chefe xaibanita Murra ibne Dul e irmã de Jassas ibne Murra. Segundo a narrativa tradicional, o conflito entre os cunhados culminou depois que Culaibe feriu uma camela chamada Sarabi, atribuída em diferentes versões a Albaçus binte Munquide ou a um de seus protegidos. A agressão foi interpretada como uma afronta à proteção concedida ao proprietário do animal, e Jassas posteriormente surpreendeu e matou Culaibe. A recusa dos becritas em entregar Jassas para satisfazer a vingança dos taglibitas transformou o assassinato numa disputa coletiva e desencadeou a Guerra de Albaçus, prolongado ciclo de conflitos no qual Almualhil assumiu a liderança taglibita e fez da vingança pela morte do irmão um dos principais objetivos de sua atuação.
Embora as narrativas acerca de Culaibe tenham incorporado numerosos elementos lendários, Levi Della Vida considera provável que conservem um núcleo histórico relacionado a uma tentativa de estabelecer uma organização política supratribal entre taglibitas e becritas, comparável às experiências promovidas posteriormente pelos chefes do Reino de Quinda. Nessa interpretação, a imagem tradicional de Culaibe como governante tirânico pode refletir a resistência das tribos à imposição de uma autoridade que restringia sua autonomia. Sua morte adquiriu grande importância na memória literária árabe, particularmente nas elegias atribuídas a Almualhil e Jalila, e Culaibe tornou-se uma das figuras centrais das reelaborações posteriores da Guerra de Albaçus. Sua história foi progressivamente revestida de elementos épicos e lendários e acabou incorporada à literatura romanesca associada aos Banu Hilal, perpetuando sua figura na tradição árabe muito além do possível núcleo histórico dos acontecimentos.
Vida
Culaibe pertencia aos taglibitas, um dos principais grupos dos rebiaítas, mais especificamente aos juxamitas. Sua genealogia é apresentada como Culaibe ibne Rebia ibne Alharite ibne Murra ibne Zuair ibne Juxame, e era irmão de Almualhil, poeta que posteriormente assumiria a liderança taglibita na Guerra de Albaçus. Segundo uma tradição registrada pelas fontes, seu verdadeiro nome seria Uail, enquanto Culaibe, literalmente "pequeno cão", teria sido uma alcunha. A explicação tradicional afirmava que ele costumava levar consigo um pequeno cão e fazê-lo latir nos lugares que pretendia reservar para seu uso; aqueles que ouviam o animal evitariam então utilizar essas áreas. Levi Della Vida observa, contudo, que essa explicação possui caráter evidentemente etiológico, pois Culaibe ocorre também como nome próprio árabe e não precisa ser interpretado como alcunha. Culaibe alcançou posição de destaque entre as tribos do norte da Arábia no , confronto inserido pela tradição nas lutas dos rebiaítas contra a hegemonia exercida por grupos iemenitas. Sob sua liderança, uma coalizão formada por grupos rebiaítas e modaritas derrotou forças associadas ao domínio iemenita. Segundo a tradição, depois dessa vitória Culaibe foi reconhecido como líder das tribos participantes, e algumas fontes apresentam sua posição em termos de realeza ou supremacia sobre os descendentes de Maade. Levi Della Vida afirma que sua autoridade se estendeu não apenas sobre os próprios taglibitas, mas também sobre os xaibanitas, principal ramo dos becritas, e que a tradição o apresenta como alguém que progressivamente abusou dessa posição. Culaibe teria reservado para si direitos de caça e de pastagem e estabelecido áreas protegidas ou himas, restringindo o acesso de outros grupos. A oposição a esse comportamento insere-se num tema recorrente das tradições beduínas acerca de governantes considerados "tiranos", cuja tentativa de impor autoridade sobre grupos tribais independentes provocava ressentimento e resistência.
Culaibe era casado com Jalila, filha de Murra ibne Dul, um dos senhores dos xaibanitas, e irmã de Jassas. Segundo Ibne Abede Rabi, os Banu Juxame, aos quais pertencia Culaibe, e os Banu Xaibane viviam então conjuntamente em Tiama, de modo que o casamento com Jalila reforçava os vínculos entre o chefe taglibita e a casa dirigente de Xaibane. O episódio que conduziu à sua morte está associado na tradição a uma camela chamada Sarabi. As versões divergem quanto à propriedade do animal: algumas a atribuem à tamimita Albaçus, tia materna de Jassas, enquanto outras a apresentam como pertencente a um de seus protegidos. Na versão preservada por Ibne Alatir, Sarabi pertencia especificamente a Sade ibne Xumais Aljurmi, um jarmita acolhido por Albaçus e igualmente colocado sob a proteção de Jassas. Segundo essa última tradição, Sarabi pastava juntamente com as camelas de Jassas quando Culaibe encontrou o animal numa área que havia reservado. Ao perguntar a quem pertencia e ser informado de que era de um protegido jarmita do cunhado, ordenou que não voltasse às suas pastagens. Jassas respondeu que Sarabi acompanharia seus próprios animais onde quer que estes fossem, ao que Culaibe ameaçou atravessar-lhe o úbere com uma flecha caso tornasse a encontrá-la. Jassas replicou que, se isso acontecesse, atravessaria com sua lança o peito do próprio Culaibe. Posteriormente, ao encontrar novamente Sarabi entre os animais, Culaibe cumpriu a ameaça e feriu-lhe o úbere. Outras versões apresentam o episódio de maneira diferente, afirmando que matou a camela ou sua cria e feriu a mãe.
Ferida, Sarabi retornou ao acampamento, onde Sade lamentou publicamente a afronta. Albaçus, ao ver o animal, teria igualmente lamentado a perda da segurança de que desfrutava e censurado a incapacidade daqueles que a acolhiam de proteger seus hóspedes. A agressão adquiria, portanto, significado que ultrapassava o dano causado ao animal, pois atingia a proteção concedida ao seu proprietário. Jassas procurou tranquilizar Albaçus e Sade declarando que mataria em compensação um camelo maior que Sarabi, chamado Galal (Ghallāl), garanhão de Culaibe reputado como sem igual em seu tempo. Segundo a narrativa, a declaração constituía uma ameaça velada contra o próprio Culaibe. Alguns dias depois, ao descobrir que o cunhado saíra desarmado, Jassas o seguiu e matou. Levi Della Vida observa que as circunstâncias do episódio são transmitidas em numerosas variantes e que alguns de seus elementos, particularmente os conservados por Ibne Alcalbi e Almaidani, parecem remontar a uma tradição relativamente antiga atribuída a Abu Ubaida. Os relatos receberam, contudo, numerosos desenvolvimentos lendários, de modo que não é possível reconstruir com segurança os acontecimentos em seus detalhes.
A morte de Culaibe tornou-se a causa tradicional da Guerra de Albaçus, prolongado conflito entre taglibitas e becritas. Antes do início das hostilidades generalizadas, os taglibitas teriam procurado obter satisfação pela morte de seu chefe junto de Murra ibne Dul, pai de Jassas. Segundo a tradição preservada por Ibne Abede Rabi, apresentaram-lhe sucessivamente diferentes possibilidades: a entrega do próprio Jassas, a de seu irmão Hamame, considerado equivalente a Culaibe, ou a do próprio Murra. Este recusou as exigências e ofereceu em compensação outro de seus filhos ou o pagamento de mil camelas, propostas que os taglibitas igualmente rejeitaram. Segundo outra tradição, quando os becritas decidiram não entregar Jassas, comprometeram-se coletivamente a defendê-lo, convertendo o assassinato numa disputa entre os dois grupos. Almualhil, irmão de Culaibe, assumiu então papel destacado entre os taglibitas e fez da vingança por sua morte um dos principais objetivos de sua atuação. O conflito não envolveu imediatamente todos os becritas: segundo Nicholson, diferentes grupos inicialmente permaneceram afastados por considerarem que os xaibanitas haviam cometido a injustiça que provocara a disputa, mas a sucessão de mortes terminou por ampliar as hostilidades. Segundo uma tradição preservada no Kitab al-Aghani, Jalila estava grávida quando Culaibe foi morto e, depois de retornar para junto de sua família, deu à luz Hájeras, apresentado em uma das versões posteriores do ciclo como responsável por vingar a morte do pai matando o próprio Jassas.
Local de sepultamento
As fontes medievais preservam tradições divergentes sobre o local de sepultamento de Culaibe. Iacute Alhamaui, no Mu'jam al-buldan, registra em sua descrição de Adanaibe (al-Dhanāʾib) que Suque Adanaibe (Sūq al-Dhanāʾib) era uma aldeia situada aquém de Zabide, na terra do Iêmem, e que nela se encontrava o túmulo de Culaibe Uail. Como testemunho da associação entre Culaibe e o lugar, reproduz versos atribuídos a Almualhil nos quais o poeta lamenta o irmão e menciona Adanaibe e as sepulturas. O próprio Iacute, contudo, registra uma localização diferente transmitida por Abu Ziade, segundo a qual Adanaibe pertencia ao e se situava a oeste da área protegida. Em outra passagem, ao narrar os acontecimentos que culminaram na morte de Culaibe, afirma que os grupos envolvidos passaram sucessivamente por Xubaite (Shubayth), Alasse (al-Aḥaṣṣ) e Bátene Aljaribe antes de chegarem a Adanaibe, onde Jassas ibne Murra feriu Culaibe mortalmente. Nessa versão, Adanaibe ficava à esquerda de Ualaja para quem seguia em direção a Meca, e ali também estava o túmulo de Culaibe.
Uma tradição geográfica distinta situava o sepultamento mais diretamente no Alto Négede. Em seu verbete sobre Anair (al-Nayyir), Iacute descreve-o como uma montanha do alto Négede, próxima de Daria, e afirma que ali se encontrava o túmulo de Culaibe ibne Uail, segundo informação que recebera de um homem dos taiítas dos dois montes. Outras tradições medievais associavam a memória de Culaibe à mesma região: o Bilad al-Arab, ao descrever Xubaite, menciona junto às suas águas as Nawāʾiḥ Kulayb ("Lamentadoras de Culaibe"), rochas eretas comparadas a homens em pé, enquanto Albacri, no Mu'jam ma ista'jam, situa a morte de Culaibe em Acre Salma (ʿAqr Salmā) e cita versos atribuídos a Almualhil que colocam seu sepultamento na encosta de Alacre (al-ʿAqr). Albacri reproduz ainda outros versos que associam uma sepultura contendo Culaibe e Hamame à encosta de Alasse, concluindo que Alasse e Alacre eram lugares próximos.
miniatura|esquerda|300px|Estrutura em Uádi Alcaitane tradicionalmente identificada como o túmulo de Culaibe