Joaquim Torres da Costa ReisAnuário da nobreza de Portugal, ob. cit., 1985, 3, tomo 2, p. 525REIS, José Manuel de Seabra da Costa — “A Casa de Fraião: estudo histórico genealógico de uma casa e prazo da freguesia de Beiriz”. In Póvoa de Varzim Boletim Cultural. Póvoa de Varzim: Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, 1994, vol. 31, números 1 e 2. (Separata)Genealogias dos Carneiro da Grã e dos Costa Reis: memórias de morgados e de enfiteutas da freguesia de Santa Eulália de Balasar. Porto: Edição de autor (sob patrocínio da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim), 2020REIS, José Manuel de Seabra da Costa – O Palacete Flores: memórias da minha família e da Póvoa do Varzim. Porto: Edição de autor (sob patrocínio da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim), 2022SOUSA, D. Gonçalo de Vasconcelos e; REIS, José da Costa — Costados nobres de Portugal. Porto: Livraria Esquina, 1992, árvore número 96SOUSA, D. Gonçalo de Vasconcelos e — Costados. Porto: Livraria Esquina, 1997, árvore número 89. (Vila Nova de Famalicão, Gondifelos, Casa do RoleiroCORREIA, Paulo Alexandre Campos Sampaio – Inventário e Estudo do Património Cultural de Gondifelos (Vila Nova de Famalicão) um Modelo de Gestão Patrimonial. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2011, vol. 2. http://www.famalicaoid.org/ficha.aspx?t=i&id=1321, 15 de janeiro de 1899 – Póvoa de Varzim, 11 de outubro de 1962) foi um advogado, autarca, orador, político e dirigente público que contribuiu para a projeção e notoriedade da Póvoa de Varzim na primeira metade do século XX.
Família
Joaquim Torres da Costa Reis foi o primeiro dos dois filhos de António da Costa Reis (Póvoa de Varzim, Balasar, Casa da Torre, 1 de junho de 1856 – Vila Nova de Famalicão, Gondifelos, Casa do Roleiro, 14 de novembro de 1900) e de sua mulher Ermelinda Torres de Castro (Vila do Conde, Arcos, Quinta da Torre (Casais), 5 de abril de 1868 – Póvoa de Varzim, 7 de janeiro de 1915), proprietários rurais e urbanos que, à data de nascimento do filho, viviam dos seus bens imobiliários e financeiros em Portugal e em Belém do Pará (Brasil). Por seu pai, descendia de uma antiga família de lavradores letrados e terratenentes, em regime de enfiteuse até à década de 1870, com origem nos concelhos da Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Barcelos, Vila Nova de Famalicão e Santo Tirso A presença da família nos referidos concelhos encontra-se documentada desde o século XVI, sendo que o apelido Costa Reis tem origem em Manuel da Costa Reis (Póvoa de Varzim, Balasar, Casa de Gresufes, 2 de agosto de 1711 — Póvoa de Varzim, Balasar, Casa da Torre, 20 de dezembro de 1770) que casou, com dote registado no Cartório Notarial da Vila de Rates, a 26 de junho de 1744, com Custódia Maria Francisca (Póvoa de Varzim, Balasar, Casa da Torre, 1 de maio de 1719 — Póvoa de Varzim, Balasar, Casa da Torre, 8 de janeiro de 1783), senhora da Casa da Torre, considerada uma das mais antigas da freguesia de Balasar e pertencente à Comenda de Santa Eulália de Rio Covo, na Ordem de Cristo. A Casa da Torre e a sua vasta quinta permanecem na família Costa Reis até à atualidade (2026), sendo uma das propriedades do ramo Felgueiras Gaio (dos viscondes da Fervença).. Pelo antepassado Pedro Carneiro da Grã (Porto, cerca de 1600 – Póvoa de Varzim, Balasar, 21 de julho de 1679), administrador do morgadio de Balasar, os Costa Reis descendem de diversas linhagens nobiliárquicas medievais nomeadamente dos Carneiro, Grã, Costa, Sousa de Arronches, Castro, Tavares, Brito, etc. Ermelinda Torres de Castro também descendia de uma família de proprietários rurais, com numerosas propriedades fundiárias na freguesia de Arcos, Vila do Conde, sendo de se destacar a Casa de Moldes, a Quinta do Castelo e Quinta da Torre (Casais), todas ainda na posse de familiares, entre eles refira-se João Francisco Falcão da Costa Reis, bisneto, por varonia, deste casal. Pelo lado paterno, Ermelinda era prima coirmã do arcebispo de Braga D. António Bento Martins Júnior (Vila do Conde, Arcos, 5 de maio de 1881 – Braga, 19 de agosto de 1963) e, pelo lado materno, era prima coirmã de José António de Castro Alves (Vila do Conde, Retorta, Casa do Assento, 17 de fevereiro de 1853 – Póvoa de Varzim, Casa do Adro, 3 de março de 1920), médico e político na Póvoa de Varzim onde foi um dos proclamadores da república em 1910, (avô materno de Margarida de Castro Alves mulher de Jerónimo de Lacerda, fundador da maior estância sanatorial de Portugal no Caramulo) assim como dos irmãos Francisco Xavier, Maria da Conceição e José de Castro Figueiredo Faria, da Casa de São Sebastião, em Vila do Conde, atualmente Centro de Memória de Vila do Conde Destes três irmãos descendem as famílias Castro Figueiredo Faria, Borges Vinagre, Limpo de Faria, Limpo Trigueiros, Carneiro Pacheco, Monteiro Pacheco, etc.. Como trineta de Pedro João de Amorim (Póvoa de Varzim, Amorim, Casal de Amorim, 31 de janeiro de 1738 – Póvoa de Varzim, Amorim, Casal de Amorim, 16 de abril de 1817), patriarca da prolífera e benemérita família Amorim, da freguesia de Amorim, Póvoa de Varzim, Ermelinda Torres de Castro estava aparentada com grande parte da classe dominante da Póvoa de Varzim e Vila do Conde na segunda metade do século XIX Nomeadamente os Gomes de Amorim, Bonito de Amorim, Amorim Alves, Martins Flores, Costa Reis, Amorim Cunha, Campos Cunha, Loio de Amorim, Loureiro Amorim, Campos Matos, Matos Moreira, Campos Trocado, barões de Casa Forte, etc. Também era parente do 1.º barão da Póvoa de Varzim e do 1.º barão de Casa Forte.
Biografia: Primeiros anos
Apesar do conforto material e das vivências felizes próprias de uma criança desejada e protegida, nomeadamente das que foram passadas na Quinta da Torre (Casais), em São Miguel de Arcos, Vila do Conde, e na Casa do Roleiro, em Gondifelos, Vila Nova de Famalicão, a infância de Joaquim foi marcada por episódios de grande tristeza que, todavia, não impediram o desenvolvimento de uma personalidade enérgica, de grande bonomia e aguçado sentido de humor, que encantava pessoas de todos os meios sociais.
A 14 de novembro de 1900, o pai morreu quando a mulher se encontrava a uns dias de ter o segundo filho, Francisco Torres da Costa Reis (Vila do Conde, Arcos, Casa de Moldes, 19 de novembro 1900 – Santarém, Salvador, 9 de outubro de 1958), e apresentava já os primeiros sinais de uma longa, perturbadora e fatal demência de origem cancerosa. Com a morte prematura do pai terminou o projeto da família em Gondifelos e, pouco depois, os três enlutados mudaram-se definitivamente para casa do advogado e jurisconsulto Joaquim Alves Torres (Vila do Conde, Arcos, 12 de maio de 1866 – Póvoa de Varzim, 11 de maio de 1941) irmão de Ermelinda Torres de Castro, situada na rua Paulo Barreto, na Póvoa de Varzim. As duas crianças nunca apreciaram o ambiente de austeridade que ali reinava e, por isso, deram-lhe a alcunha mordaz de “convento”. O tio, que rejeitara a vida eclesiástica pretendida pelos seus pais e decidira formar-se em Direito na Universidade de Coimbra, mantinha-se solteiro, espartano, misógino e “pouco dado a exibicionismos”Jornal Ideia Nova de 17.05.1941., sendo exigentíssimo com a educação e o carácter dos sobrinhos, que tratou como filhos adotivos, principalmente após a morte da mãe em 1915. Joaquim foi bom aluno desde a infância tendo recebido, em 1906, como prémio escolar, um retrato fotográfico do rei D. CarlosJornal Estrella Povoense de 04.11.1906., o que terá apreciado porque foi sempre monárquico.
Em 1917, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, vivendo na República dos Grilos, onde fez os seus maiores amigos“1.º centenário da Tomada da Bastilha – 1920–2020 Academia de Coimbra”. In Capa e batina. Lisboa: Associação dos antigos estudantes de Coimbra em Lisboa, n.º 55, 2020. fora da família e aprendeu a tocar violão com o qual alegrava os seus cinco filhos. Terminada a licenciatura em 1922, regressou à sua casa na Póvoa de Varzim e iniciou a sua carreira de advogado, funcionário e dirigente da administração pública e de político, estreando-se nos tribunais em 1923“No tribunal judicial desta comarca, estreou-se, há dias, o nosso amigo e novel advogado, sr. dr. Joaquim Torres da Costa Reis. Sua ex.a, incumbido duma defeza, revelou-se, a par do orador fluente que ja conheciamos, um argumentador de raras faculdades. A sua estrela prometedora mereceu rasgados encómios do meretissimo juiz e, no final do julgamento, foi o nosso amigo muito cumprimentado. Reiteramos a s. ex.a as felicitações.”Jornal O Liberal de 04.02.1923.
Carreira profissional e política
Não sendo possível apresentar os muitos serviços prestados e o seu papel político para a construção do notável Monumental Casino na Póvoa de Varzim, apontam-se sumariamente os cargos que desempenhou: substituto do juiz de Direito da comarca da Póvoa de Varzim (10.01.1925), delegado da Ordem dos Advogados Portugueses na comarca da Póvoa de Varzim (1945–1958); presidente da Junta Autónoma do Porto de Pesca da Póvoa de Varzim; vereador da Instrução, vice-presidente e presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim (1927 a 1935); presidente da União Nacional no concelho da Póvoa de Varzim (década de 1950)CARVALHO, Abílio de – Política do Estado Novo na Póvoa de Varzim. Póvoa de Varzim: Edição da Comissão Concelhia da União Nacional, 1936.; comandante da Lança e do Terço da Legião Portuguesa; presidente da Junta Oficial de Defesa da Póvoa de Varzim (1928); vice-presidente da Comissão de Turismo (1928); presidente da Assembleia Geral da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários (1926–1929 e 1945); fundador (a 18.12.1923) e 1.º presidente do Grémio Nun’Álvares–Associação agregada à Juventude Católica PortuguesaJornal O Liberal de 23.12.1923.; mesário e presidente da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia, Hospital e Asilo da Póvoa de Varzim (década de 1940); conservador do Registo predial em Alfândega da Fé, Mesão Frio, Lousada, Esposende e Póvoa de Varzim (1946 a 1958)Jornal O Cávado de 27.02.1949.; conservador do Registo Automóvel do Porto; conservador do Registo Predial de Sintra (1958 a 1959); vogal do Conselho da Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe; vice-presidente do “Sport Grupo dos 30” (1921); secretário da direção do Orfeão de Coimbra (1922); membro e presidente da direção do Orfeão Poveiro (1925); presidente da Assembleia Geral do Sindicato Agrícola da Póvoa de Varzim (1934–1937); vice-presidente da Associação do Patronato das Prisões (1937), etc.
Reconhecido como “orador fluente, deixou a sua marca indelével, em brilhantes orações, quer na vida forense, onde se qualificou como ilustrado jurisconsulto, quer na vida pública e política, peças oratórias, que pela sua erudição e cultura, todos os poveiros do seu tempo recordarão com saudade”Jornal Ala Arriba – n.º 541 – Póvoa de Varzim, 13.10.1962.. Os esboços dos seus discursos políticos, ainda inéditos e com interesse para a história local e do Estado Novo, foram doados, em 2025, pelo seu neto José Manuel de Seabra da Costa Reis, à Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, da Póvoa de Varzim. Encontram-se incorporados no Arquivo da família Flores da Costa Reis.
Foi colaborador assíduo dos jornais da Póvoa de Varzim com poesias, crónicas e artigos de opinião (que, por vezes, assinava com os seus pseudónimos Faísca, Vespa, Miau e Sphinge)Destas crónicas, destaca-se a sua secção “Arranhando…a sorrir” no jornal Ala Arriba, a partir de 12.04.1952., assim como do Rancho do Castelo e da Banda Poveira, sendo companheiro assíduo de seu amigo e parente, por afinidade, Josué Francisco Trocado nas atividades culturais desenvolvidas no Orfeon Povoense (Orfeão Poveiro). Também exerceu funções de redator de poesia da revista “A Bibliográfica”.